Revistas / 2012 / Lucky (Outubro)

A Lucky é uma revista de moda, estilo e compras, voltada para o público feminino.

Christina Aguilera se abre, arrisca no estilo e abraça as novas curvas.

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
Não copie, direcione o link

The Xtina Factor. Christina Aguilera é insanamente talentosa, extremamente famosa e nada deslumbrada com tudo isso.

Nos quatro minutos que eu passei andando na calçada da mansão de Christina Aguilera em Beverly Hills, tive a sensação de que ser uma superestrela internacional pode ser horrível. Nada menos do que sete vãs de passeios turísticos passaram na frente dos portões bem cuidados. “É a casa de Christina Aguilera?”, alguém gritou. Duas pessoas que estavam andando também queriam saber. “Eu não sei”, respondi.

Eventualmente, um jovem rapaz de shorts largos me leva para dentro do saguão legal e de tetos altos. Um imenso candelabro de cristais vermelhos ornamenta o espaço, estranhamente me lembrando  de uma nave espacial do filme Independence Day. Embaixo dos meus pés, um chique tapete é encravado com os dizeres “CA & JB”. Já que Aguilera e o executivo Jordan Bratman se divorciaram em 2011, essa peça de decoração é equivalente a uma tatuagem, e eu me imagino se eles podem interpretar as iniciais como outra coisa, tipo “Cats Get the Job Done!”, no estilo “Wino Forever” de Johny Depp.

Examino uma foto emoldurada do filho de 4 anos de idade de Christina, Max, em cima de uma mesinha preta – o sorriso dele é particularmente adorável – e então Aguilera chega. Como jurada/mentora em The Voice, ela sempre está de lábios vermelhos e roupas muito fashion (blusas com saias emendadas, meias-calça rendadas) ou mega-fashion (calcinhas com diamantes). Aqui, ela está bem natural, em leggings pretas e uma blusona vermelha, com o cabelo platinado aparentemente secado na toalha. Ela está bonitinha, parece uma novata na escola pronta para se abraçar aos cadernos no canto.

“Oi, eu sou Christina”, ela diz. Assim como o aperto de mão dela, a parte “Oi, eu sou” é leve, doce, muito ex-Clube do Mickey. Mas a parte “Christina” tem uma textura sexy, mas não como uma tentativa de soar assim, e sim como se esse fosse o tom natural da voz dela. Eu abandono os planos de parecer uma profissional inteligente e solto um “Eu e um monte de amigos nos vestimos a caráter para ver Cher e você na estreia de Burlesque num shopping da Pennsylvania”.

“Que fofo”, ela diz, “Aww”. Ela fala isso toda vez que eu a elogio. Nós vamos para outro cômodo majoritariamente vermelho – tapete vermelho, papel de parede vermelho, um sofá de seda com almofadas vermelhas. Lá fica também uma telona de cinema em um lado, e um piano e bar do outro. Sou levada para uma cadeira bem ao lado de uma bomboniere cheia de pirulitos. “A música Fighter é muito importante para mim”, eu digo. “Eu a ouço quando eu me sinto mal comigo mesma e quero lutar contra isso ao invés de, tipo, morrer”.

“Awwww. É por isso que eu escrevi Fighter”, ela conta. “Eu tenho necessidade de tentar ajudar os outros. Sou muito a favor dos repreendidos”. E então Aguilera senta no canto do sofá mais longe da minha cadeira e eu sou tentada a dizer “Ei! Eu sou repreendida! Por que não quer sentar perto de mim?”. Então eu me lembro do batalhão de pessoas do lado de fora, todos querendo um pedaço dela, e eu decido não levar isso para o lado pessoal.

Enquanto conversamos, os cachorros dela – os papillons Chewy e Stinky e o minúsculo Nugget – pulam no sofá, se alinhando com Aguilera como se ela fosse um pit-stop de uma pista de corrida para cachorros. Nugget esbarra uma enorme xícara de café que Aguilera deixou na mesinha e se joga no colo dela. “Nugget!”, ela grita. “Para!”.

O comportamento de Nugget apenas diminui de ritmo, mas Aguilera parece OK com isso. Ela exala uma presença calma, praticamente impertubável, mas com o intenso poder de uma estrela. Ela solta muitas risadas, mas quando para, parece expectante, quase arqueada. Devo perguntar sobre a próxima fragrância, Red Sin? O trabalho com o World Hunder Relief? Ou o vestido Alexander Wang que ela vestiu em um recente jantar com o namorado, Matt Rutler? Eu sou objetiva: “Quando você percebeu, ‘oh meu Deus, é agora. Vou ser muito famosa’?”.

Agora, com Aguilera gargalhando – como se fosse engraçado que as pessoas a acham muito famosa ou que eu a perguntei sobre isso – e me conta uma história sobre um dia marcante em 1997, quando ela recebeu dois telefonemas: um oferecendo um contrato de gravação e outro oferecendo uma música no filme Mulan. Em dois anos (existe alguém no mundo que ainda não tenha escutado Genie in a Bottle?),  Aguilera era uma grande estrela, mas o estrelato ainda estava longe de ser idílico.

“Quando se é jovem, é fácil ser sufocado pelos outros”, ela diz. Ela estava cercada de pessoas tentando controla do que ela dizia, cantava ou vestia. “Tinha duas mulheres que trabalhavam na gravadora e iam em toda prova de roupa só para me vestir como uma Barbie. Era nojento”. Mas dois anos mais tarde, ela se liberou de todas as influências negativas e ofereceu músicas no nível do talento dela em Stripped. Ela cantava que nós éramos bonitos e nós acreditamos nela. No clipe de Fighter, ela quebra uma gaiola de vidro enquanto agradece por ser forçada a ser guerreira e todos nós decidimos, ao pensar sobre ex-namorados, chefes e amigos, que foi bom eles serem uns panacas, porque foi isso que nos motivou a deixá-los para trás. A Madonna pode até ser a disseminadora do girl power, mas foi Aguilera que nos faz chorar, irritar e ganhar o poder como consequência, tudo com uma voz que faz as outras parecerem num eterno ensaio de escalas musicais. Se lembrando o sucesso avassalador de Stripped, Aguilera quase não se exalta, apenas acaricia as costas de Nugget e diz: “Eu tinha 21 anos e não temia mais nada. Foi uma época excelente para mim ao me tornar a artista que eu sempre quis ser”.

Essa mesma estabilidade a ajuda a manter os pés no chão quando o ponto baixo chega. O álbum Bionic, de 2010, não foi muito bem, Burlesque foi massacrado pelos críticos, ela errou o hino nacional durante a abertura de um tal jogo importante. Mas Aguilera permanece filosófica. “Esses momentos difíceis podem te derrubar ou te inspirar”. Nos próximos meses, ela lança um novo álbum. “Se você ama Fighter”, ela diz, “vai amar meu novo álbum. Aos 30 anos, eu estou redescobrindo minha independência e é divertido explorá-la em novas músicas”.

The Voice é o lugar mais perfeito para Aguilera encontrar inspiração nesse momento da vida dela. Por ser a única mulher ao lado de CeeLo Green, Adam Levine do Maroon 5 e o cantor country Blake Shelton, ela é assanhada e não se deixa abalar. “Você é unidimensional”, ela disse para um candidato. Outro dia, quando Adam Levine falou um daqueles discursos tradicionais para ganhar um candidato, ela o cortou no meio da frase e começou a rir. Mas ela também dá muitos abraçados amarosos e comentários elogiosos. Quando ela fala sobre o programa, um brilho surge no rosto pálido e delicado. “É uma grande responsabilidade ajudar alguém a se expressar como artista. Eu levo isso muito à sério”.

Um bônus do The Voice é como aquela famosa cadeira abre espaço para grandes momentos da moda de Aguilera. Os pontos altos incluem um vestido L’Agence, um Rolan Mouret amarelo com um pouco de decote e uma camiseta de caveira por Alexander McQueen. “Eu sempre amei me vestir assim, ser teatral”. Ela faz questão que as roupas destaquem os atributos dela. “O problema contra o qual eu sempre lutei foi ser magra demais, então, eu amo que agora tenho bunda e claro que amo mostrar um pouco de decote”. O conselho dela para as colegas curvilíneas? “Ei, se você consegue assumir aquela roupa, a confiança vai prevalecer”.

Quando ela se despede de mim com um abraço, eu sinto a melancolia de uma oportunidade perdida. Eu queria muito ficar frente-a-frente com Aguilera, que sempre se expõe de forma explosiva e vulnerável na música como poucos musicistas fazem. Quando eu saio, percebo que todas aquelas pessoas morrendo de vontade de entrar no santuário dela deveriam saber que, apesar de vermelho, não é lá que eles encontrarão os segredos do coração dela, mas sim no iTunes por US$ 1.29.

Do lado de fora, ônibus de turismo continuam passando. “Ei”, alguém pergunta. “É ali que Christina Aguilera mora?”.

“Eu acho que não”, respondo.

Ele parece decepcionado. “Eu queria muito conhecer Christina Aguilera”.

“Awww”.

“Ei”, ele diz, esperançoso. “Você é famosa?”.

“Não”. Então entro no meu carro e vou para casa, ouvindo “Bound to You” em som alto, no modo “repeat”.


Voltar para Revistas – 2012 e 2013