Revistas / 2011 / The Hollywood Reporter (Junho)

O The Hollywood Reporter é uma revista técnica de alta especialização em cinema e televisão

O milare de The Voice

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
Não copie, direcione o link

O MILAGRE DE THE VOICEA 4ª maior emissora de TV tem (finalmente!) um grande e chamativo sucesso, enquanto os executivos, talentos e produtores contam tudo sobre o drama por trás da criação do programa, porque ele funciona e como a rede do pavão pode usá-lo para exibir suas penas mais uma vez.

Há apenas dois meses, se a NBC fosse uma mesa de jogos em Vegas, o turista possivelmente colocaria o casaco e iria embora – assim era a má sorte da emissora. Mas nesta primavera, com os novos jogadores da Comcast na mesa, a rede achou a sorte novamente no programa The Voice. Desta vez, as apostas seriam recordes e as chances, remotas. Primeiro, porque era mais uma competição de música – e o cemitério da emissora já estava cheio delas (alguém se lembra do Grease: You’re the One That I Want?).

Custando US$ 2.3 milhões por episódios, Voice era a mais cara série não-roteirizada da história da NBC. Mas a emissora estava esfomeada por um sucesso, e Voice – que já era fenômeno na Holanda ao expulsar as versões locais de Idol e The X Factor do topo – mostrava potencial.

Nomeado em janeiro como o novo diretor de entretenimento da NBC, Robert Greenblatt – cuidadoso e observador por natureza – se impressionou o suficiente para apostar. O instinto dele foi aumentado pela confiança de John de Mol, o gigante da mídia que criou The Voice Of Holland. “Quando eu fui até o set durante a fase de testes, John me disse: ‘Isso vai dar certo. Vai ser um sucesso muito grande'”, lembra Greenblatt. De Mol confirma que não estava apenas chutando. “Como dizer isso em inglês? Eu fiquei com pele de galinha”, ele diz das primeiras performances. “Ou seria arrepiado?”.

A expectativa foi até ao teto. Horas antes de Voice ir ao ar pela primeira vez, no dia 26 de abril, o presidente da NBCUniversal Steve Burke ligou para Paul Telegdy, o chefe de programação alternativa da emissora desde Janeiro de 2009. “Vai ficar nas mãos do público americano”, Burke disse, “mas o programa é excelente. Perdendo ou ganhando, você deveria se sentir orgulhoso do trabalho que fez”.

Foram essas as palavras que Telegdy, que colocou a profissão em risco por Voice, queria ouvir. Mas o programa ainda assim precisava de audiência. Para a importante estreia das 21h, os mentores Christina Aguilera, Cee Lo Green, Adam Levine e Blake Shelton cantaram uma eletrizante performance de Crazy, do Gnarls Barkley, antes de se sentarem nas enormes cadeiras vermelhas de costas para o palco, onde ouviam e julgavam os candidatos sem vê-los. O programa logo se tornou o primeiro dos trending topics do Twitter.

Sempre cuidadoso, Greenblatt imaginou que ratings de 3 na faixa 18/49 anos seria uma vitória. No amanhecer do dia seguinte, Telegdy começou a receber os fragmentos de dados preliminares da audiência e não acreditou nos próprios olhos. Ele pensou em voltar a dormir, mas não conseguia segurar o impulso de ficar acompanhando os números o tempo inteiro. Eles eram mantidos. “Eu percebi que não estávamos lidando com um erro de estatística, que era a única forma da NBC receber boa notícia”, ele brincou.

O primeiro episódio concluiu com 5.1  na faixa 18/49 (cerca de 12 milhões de telespectadores), o mais alto de qualquer emissora desde a estreia de Undercover Boss, na CBS em 2010. Greenblatt recebeu a notícia por volta de 6:30 da manhã. “Eu comecei a mandar e-mails para o  pessoal da empresa, dizendo que era fantástico”, ele diz. Ele ligou para Burke em Nova Iorque, também. “Burke já tinha os números, mas não quis perturbar o novo chefe de entretenimento em uma hora ruim”, diz Greenblatt. Naquele dia, Burke também ligou para Teledgy. “Eu meus 32 anos nesse negócio, você me deu a melhor notícia que já lembro ter recebido”. Parece que a NBC não estava completamente fora do negócio.

“Para Steve, foi um grande suspiro de realidade”, diz o novo chefe de transmissão da emissora, Ted Harbert. “Sim, nós conseguimos. A NBC é capaz de produzir um programa de sucesso. Porque alguns duvidavam disso”.

NAS VÉSPERAS da estreia de Voice, a NBC tremia. Anos de administração ruim e quedas de audiência tomaram conta do que costumava ser o Orgulhoso Pavão, casa de inúmeros sucessos, de Cheers até The Cosby Show e ER.

A adminstração anterior, de Jeff Zucker, foi marcada por uma série de tentativas de reinvenções que fizeram a NBC perder cerca de US$ 600 milhões no ano passado. Ideias aparentemente boas (The Event) sofreram. Uma suposta nova contratação (Ben Silverman) resultou em um erro notável. O equívoco mais chamativo (colocar Jay Leno 5 vezes por semana no horário nobre) não apenas jogou a audiência para baixo, como também causou um vergonhoso confronto com Conan O’Brien. Até mesmo aqueles na lista de pagamentos da NBC (30 Rock) fizeram do canal um motivo de piadas. Não era difícil imaginar porque a moral estava baixa. “O quarto lugar é difícil de se acostumar”, diz Greenblatt.

Agora a NBC tem algo que não tinha em anos: um genuíno sucesso de audiência. Antes de The Voice, o programa mais visto na faixa 18-49 (excluindo futebol) era The Office, com média 4 na 7ª temporada. Voice deu o mais alto sucesso dos ratings desde 2006, com Heroes, resultando 5.5 na média da temporada.

Apesar de Voice ser pequeno perto dos números de American Idol, é um sucesso – tanto que, em junho, a rede expandiu as 13 horas de duração total para 18, incluindo um finale de 1 hora no dia 29. A NBC deve aumentar essas horas na 2ª temporada do programa, e já garantiu o cobiçado horário pós-Superbowl em fevereiro. Mais importante, no histórico do mundo televisivo, Voice oferece à NBC uma plataforma para lançar novos programas, como o projeto de estimação de Greenblatt, Smash – o drama de bastidores de um show da Broadway con Debra Messing e Katharine McPhee.

Voice pode não ser a salvação completa dos erros da emissora, mas dá à NBC algo que a Madison Avenue realmente quer comprar. Uma fonte diz que a rede tem conseguido vender comerciais de 30 segundos por US$ 250 mil, e pretende aumentar para US$ 350 mil por espaço na temporada que vem (fontes de marketing nos dizem que isso é improvável, a não ser que a audiência suba mais). Recentemente, o programa abocanhou a Kia e a Sprint como patrocinadores.

De acordo com Tim Spengler, presidente da firma de marketing e mídia Initiative USA, o impacto de The Voice na rede é dramático. “Está trazendo patrocinadores de volta para a NBC. Não dá para ignorar. Tem a extensão que muitas empresas procuram. Eventualmente, aparecem programas no caminho que alcançam todas as escalas tradicionais, e esse é  mais um exemplo”.

O que faz The Voice funcionar quando tantas competições já vieram e se foram? O programa apresenta uma mistura de talentos novos, talentos fortes e poder para o estrelato. Não foi por acidente que os mentores – Shelton (country), Green (R&B/pop), Levine (rock-pop) e Aguilera (pop) – alcançam a maior extensão possível de público.

Os mentores estão na faixa dos 30 anos, enquanto nenhum dos mentores do Idol vai poder voltar aos 40 (Randy Jackson e Steven Tyler já passaram dos 50). E ao invés de insultar os candidatos da forma como Simon Cowell faria, o quarteto de The Voice é positivo, elogiando desde o timbre à postura.

Os mentores cantam no programa com frequência, e para garantir credibilidade musical, a NBC focou a divulgação na seleção dos cantores às cegas, preferindo talento a aparência. Se mais de um mentor se impressiona, o candidato escolhe seu técnico, trazendo mais drama à atração. Depois, os candidatos foram aos rounds de batalha, competindo em pares por uma vaga no Top 12. Finalmente, no dia 07 de junho, o programa entrou na competição ao vivo, cercada de mídias sociais interativas. Tanto mentores quando candidatos tweetam com fãs durante a transmissão (nos comerciais, os mentores são grudados em aparelhos portáteis). O vencedor vai levar US$ 200 mil e um contrato para um álbum com a Universal Republic.

Nada disso veio de graça. Apesar do programa custar menos do que uma hora roteirizada, o preço de US$ 2.3 milhões por episódio é mais do que a rede pagaria para licenciar um drama durante um ano (cerca de US$ 2 milhões). A emissora afirma que o valor da produção é alta e precisavam gastar para concorrer contra gigantes consolidados como Idol e X-Factor, que será lançado como se já fosse consolidado. O talento também custou caro. Fontes nos dizem que Aguilera está recebendo mais de US$ 250 mil por hora; os outros mentores, cerca de US$ 75 mil cada um.

É O COMEÇO DE JUNHO, e The Voice será transmitido ao vivo pela primeira vez. O produtor executivo Mark Burnett está do lado do palco batendo a mão com o apresentador Carsol Daly e dançado com a performance dos mentores. O programa começa com a sombra de Levine, cantando as primeiras notas de Bohemian Rhapsody, do Queen, enquanto a plateia – uma mistura de fãs adoradores e familiares ansiosos – acenam como pedido.

Garotas dos dois lados do palco se inclinam para frente, com os braços alongados, agarrando o vento que circula o líder do Maroon 5. Ele passa a vez para Green, que canta outra favorita dos fãs, “We Will Rock You”. Shelton aparece para continuar a canção antes de, finalmente, Aguilera surgir, com o rosto escondido abaixo dos cabelos loiros. Depois de um momento solo, ela se une aos demais mentores para cantar “We Are The Champions” enquanto chamas gigantes explodem atrás deles. Ao mesmo tempo, o espetáculo é cliché e surpreendente.

Essas performances foram criadas como “objeto de credibilidade”, nos conta Telegdy. Os mentores “precisavam subir ao palco e cantar” para mostrar que eles são qualificados para treinar outros cantores. (Talvez por causa das performances poderosas dos mentores, nenhum dos candidatos tenha se sobressaído ainda).

Então como a NBC – uma sigla que serviu de piada como “Nothing But Crap” (Nada Além de Porcaria) – encontrou e preparou sua maior audiência em cinco anos? A história começou há mais de um ano, quando Idol se preparava para perder seu suposto lider, Cowell, e Telegdy achou que isso poderia ser uma oportunidade. Ele tinha um apetite natural por programas de música e dança, e estava ansioso para colocar um na NBC. Telegdy queria um programa que “desse aos fãs de música um espetáculo como aqueles grandes arenas”.

Telegdy e o Vice-Presidente Sênio Meredith Ahr entraram em contrato com Burnett, o rei dos realitys que lançou Survivor (“No Limite”) e The Apprentice (“O Aprendiz”). Na época, ele estava trabalhando na NBC para o Celebrity Apprentice e havia feito o Rock Star, que durou apenas duas temporadas na CBS. Ele quis dar outra chance ao mundo da música. “Ele disse, ‘eu sinto como se tivesse uma pendência – eu quero muito dar certo nessa área'”, Telegdy diz.

O conceito não era certo, mas queriam envolver três ou quatro jurados famosos em genros diferentes para treinar cantores desconhecidos. Telegdy e seu time acharam que um programa compacto em 10 episódios chamaria mais celebridades do alto escalão e começaram a criar uma lista dos sonhos, que incluia Aguilera, Shelton e Levine (Fontes nos dizem que o nome de John Mayer foi cotado bem no início). Em agosto de 2010, eles já estavam procurando por candidatos.

Quando Telegdy passou a ideia para Jeff Gaspin, então presidente na NBCU Television Entertainment, eles encontram um obstáculo. O conceito não tinha nada de especial, ele disse. Nada que o diferenciasse de outras competições, incluindo X Factor.

Mas logo depois, Telegdy recebeu a notícia de seus enviados no exterior sobre The Voice Of Holland. Era um conceito do de Mol, que lançou um império televisivo como Big Brother e Deal Or No Deal. Para Telegdy, ele era uma lenda. “A excelência de John de Mol na TV é a de Aaron Spelling ao quadrado”, ele conta.

O ponto especial eram os testes cegos. Telegdy e Burnett não acreditaram em como de Mol tinha pensado em uma ideia simples mas tão atraente. “Mark e eu nos olhamos e dissemos, ‘Céus, como que não pensamos nisso sozinhos?'”, diz Telegdy. “John vai odiar ler isso na revista, mas eu pensei na hora, ‘por isso ele tem um avião e um bilhão de dólares'”.

No fim de outubro, Brooke Karzen, da Warner Horizon, foi ao escritório da Telegdy negociar. Ele rapidamente a interrompeu. “Nós queremos fazer esse programa”, ele disse. A CBS também estava brigando pelo formato, mas estava reclamando do preço. Teledgy não. “Estava disposto a pagar uma fortuna”.

Louco para fechar o contrato, Telegdy pulou no primeiro voo direto que  o levaria à Holanda para presenciar uma gravação na sexta-feira seguinte, no meio de novembro. Ele estava horrorizado de entrar em um 747 que, segundo ele, “tinha pelo menos 50 anos de idade”. Enquanto esperava em pânico, ele ligou para o escritório e implorou para que encontrassem outro jeito de levá-lo até lá. Eles não encontraram.

Quando chegou ao estúdio de gravação, ele estava sem dormir há 40 horas consecutivas. Com uma hora de programa, Telegdy estava adormecido. No dia seguinte, ele teve uma reunião de duas horas com de Mol e equipe, prometendo que a NBC faria jus ao conceito. De Mol viu uma oportunidade. “O fato da NBC procurar algo novo como divisor de águas para eles, significou que eles fariam de tudo para protegê-lo”, ele diz.

Telegdy voltou da Holanda em chamas. “É empolgante toda vez que um executivo chega com um DVD nas mãos, querendo mostrar o conteúdo para todo mundo”, diz uma fonte na emissora. “Ele convenceu todo mundo lá dentro, e mais importante, conseguiu a aprovação de um alto orçamento. Foi de saltar os olhos”.

Não tanto quanto se tornaria depois: naquela época, o custo por hora era de US$ 1.5 milhão. No fim, quando esse valor estava sendo reajustado para US$ 2.3 milhões, Gaspin sairia do cargo e a NBCU era tomada por uma equipe de administradores completamente nova.

 Na primeira grande entrevista desde que aceitou a função, Greenblatt insiste que ele não se intimidou pelo estado da emissora. “Eu estava empolgado para administrá-la por causa do desafio”, ele diz. “Eu sei que isso pode soar meio contraintuitivo, mas eu não são muito bom em manter algo no lugar. Eu gosto de construir ou reconstruir, inovar ou renovar. Para mim, não parecia que existia desafio melhor”.

Quando ele chegou, pareceu pouco empolgado com os projetos que a NBC estava produzindo. “Bob meio que torceu o nariz, eu acho, quando ele viu um monte das coisas em preparo”, diz uma fonte. “Ele não podia fazer muita coisa naquele prazo. Tinham comprados roteiros demais”.

Greenblatt reconhece que a programação da primavera tinha “um monte de buraco e um monte de coisa que não estava dando certo, e não dava muito para fugir daquilo. Os programas estavam prontos, o dinheiro já tinha sido gasto… A gente realmente tinha que usar a mão que nos deram. Tentar fazer o melhor com o que tínhamos”.

É difícil dizer com precisão quando Greenblatt se dedicou a apressar The Voice para entrar na programação da NBC – em parte, porque ele insistia em dar a Telegdy o crédito que ele merecia, e em parte porque dificilmente Telegdy faria questão de receber aquele crédito”.

 “Quando grandes nomes estão envolvidos neste programa – Christina sendo o maior deles – as decisões financeiras, as decisões decorrentes de fechar um contrato com Christina, as possibilidades do plano de marketing, todas são de crédito de Bob e Steve, e eles fizeram bem por merecer”, Telegdy diz.

A primeira pessoa contratada para o programa foi Carson Daly, ex-apresentador do MTV Total Request Live e anfitrião do Last Call With Carson Daly, da própria NBC. “Carson atraiu muito talento no mundo musical”, Telegdy diz. “Queríamos o selo de credibilidade, e ele tinha”.

“Eu fui um vagão – um vagão bonito, é claro – nessa emissora por 11 temporadas”, Daly diz, acrescentando que a nova administração tem sido um grande alívio. “Tem sido bom passar tempo no Pavão ultimamente”.

Os quatro mentores vieram logo depois, com Burnett reconhecendo que Aguilera era areia demais para aquele caminhão. “Meus amigos me diziam que eu era louco por querer Christina”, Burnett diz. Mas era ele quem sabia das coisas e já havia trabalhando com ela no MTV Movie Awards. “Ela já passou por isso”, ele diz. “Foi descoberta no Star Search. Assim que ela viu que a ideia era ensinar cantores em desenvolvimento, e não criticá-los, ela topou”. iloveaguilera.wordpress.com

O empresário de Aguilera, Irving Azoff, diz que o nome do programa foi um grande chamativo. “Era bom para ela ser reconhecida pela voz”, ele diz. “Nós sabíamos que isso era uma grande oportunidade de expor esse lado da personalidade dela”.

Enquanto isso, Burnett foi ao SNL e viu Green cantar e interpretar nos quadros humorísticos. Depois do programa, Lorne Michaels fez o filme de Green.

Quando chegou a vez de Levine, pensaram em “como ele tem muito sex appeal”, Burnett conta. “Ele tem sido capa de muita revista, e todo mundo se interessa pela vida pessoal dele”. Telegdy ficou impressionado quando viu a versatilidade do cantor no programa de Jimmy Fallon, enquanto ele cantava músicas que a plateia pedia durante o intervalo comercial.

E Shelton foi a estrela country ascendente que serviu os desejos de Burnett por diversidade. Telegdy havia trabalhado com Shelton alguns anos antes, no Clash of The Choirs, e ficou impressionado por seu talento e personalidade. Ele relembra quando perguntou ao astro se ele preferia se hospedar no Ritz-Carlton ou no Four Seasons durante as duas semanas de gravação. A resposta de Shelton: “Eu só preciso de três vagas de estacionamento”. Para o ônibus da turnê.

 Cada mentor diz que a mensagem positiva de The Voice foi um grante atrativo. Aguilera diz só ter visto pedaços de outras competições e ficou chocada com o foco em “falar mal do cantor em 30 segundos”, o que “pode ser interessante para o telespectador, mas eu não gostaria de fazer” (a decisão dela coincidiu com uma série de passos em falso: o decepcionante Burlesque, uma errática performance no Super Bowl e uma detenção por embriaguez em público, apesar de que nenhuma acusação foi apresentada).

Shelton teve a mesma reação, destacando a regra do programa de não incluir cantores ruins no processo de testes como parte do espetáculo. “Não estamos mostrando pessoas que são péssimas nem rindo da cara de ninguém”, ele conta. “É tudo sobre cantores bons que sabem que isso é uma competição”.

Levine também admite que ele estava “extremamente hesitante no início… mas considerando o estado da indústria musical de hoje, eu vi esse programa como forma de trazer novos talentos e dar às pessoas uma segunda, terceira ou até quarta chance”.

Green, por sua vez, já havia cantado no Voice Of Holland e conhecia o formato. “Os testes cegos foram o que me venceram, porque era uma ideia nova”, ele diz. Mas assim como os outros, ele sentiu que a aproximação positiva do programa foi essencial. “Alguns de nós conversávamos, ‘se você fizer, eu faço’, ele conta. “Ninguém estava com pressa em ser o responsável por dar notícias ruins aos candidatos ou julgar como se fosse superior, porque também somos artistas. Quando vimos que seríamos mentores e treinadores, e não jurados, pensei, ‘eu posso fazer isso’.

Três semanas depois da estreia do programa, Greenblatt compareceu à apresentação da próxima temporada da NBC, em Manhattan. Um colega descreveu o sucesso surpresa do programa como um “raro presente de  Deus”, ele disse à plateia, acrescentando que “eu amo como o pessoal do setor de pesquisas se torna religioso na época da estreia de nova programação”.

O alívio de Greenblatt foi tão notório que Jimmy Kimmel brincou com a história no dia seguinte,  durante seu monólogo anual no evento da ABC. “A NBC agradeceu a Deus por The Voice”, ele disse. “Deus não tem nada a ver com o que tem acontecido na NBC. Deus parou de assistir o canal quando Friends acabou. E Deus também está fora da faixa-etária alvo”.

Greenblatt – sempre amigo de talentos – respondeu enviando a Kimmel uma garrafa de champagne e uma carta: “Querido Jimmy, você também é um presente de Deus. Não deixe ninguém te dizer o contrário. Brinde.”

 A ele, Kimmel respondeu: “Eu sabia que gostava de você quando te conheci há 12 anos. Muito obrigado pelo Cristal. Bem urbano. Te desejo tudo de bom. Por favor, cuide bem do meu pequeno Carson Daly. No ano que vem, a maré pode mudar.

Administrar a reviravolta é um processo delicado. As vezes, sucesso significa não ter cobiça (a ABC transmitiu Who Wants To Be A Millionaire até dizermos chega, chegando a transmití-lo cinco noites por semana). Então, apesar da atração daquela caixa registradora cheia, a NBC deixou a segunda temporada de The Voice de fora da programação do segundo semestre deste ano. Fontes dizem que Telegdy lutou por isso, resistindo uma pressão grande vinda de Burke e Harbert.

“Eu sou um egoísta obcecado por pontos de audiência”, Harbert diz. “Eu amo os ratings, e queria The Voice e Smash no ar assim que disponíveis”. Mas ele disse que Telegdy “estava firme no fato de que o programa é difícil de produzir, em razão do formato. Eles não pode simplesmente estalar os dedos e achar mais 32 candidatos… e daí resultar uma produção grandiosa”.

Greenblatt ainda diz: “Porque potencialmente matar o ganso de ouro apenas para nos satisfazer imediatamente ainda neste ano? Porque não trazê-lo de volta em janeiro. É mais rápido do que Idol volta atualmente. Vamos mirar no longo prazo e fazer tudo certo”.

Então The Voice não volta até janeiro. “Nós sabemos o que canibalizar um programa pode fazer”, diz Francois Lee, da Media Vest, “então concordo que disciplina é uma boa jogada”.

Quando a próxima temporada lançar, é esperado que todos os quatro mentores voltem ao programa, e de Mol diz que está trabalhando com cinco ou seis episódios de testes cegos (ao invés de dois deste ano). Telegdy está ansioso para falar mais do passado de cada candidato e mostrar mais do processo de treinamentos em rounds de batalhas maiores. Se tudo continuar bem, a NBC espera ter duas temporadas de The Voice nas temporadas 2012-2013: uma no outono, outra na primavera.

A NBC também está estudando formas de explorar o sucesso do programa – possivelmente sair em turnê com alguns, senão todos, os mentores, e lançar um álbum com colaborações entre eles, com músicas como o medley do Queen.

Voice também teve um grande impacto na vida dos mentores. Levine diz que o programa não deixa ele “simplesmente chegar em casa e sentar no sofá. Eu nunca tive um emprego de verdade; sempre foi só a música. Tive que me ajustar, mas não é ruim ser tão ocupado”.

Green sabe que sua visibilidade está “mil vezes maior”, mas ser reconhecido por todo mundo é uma benção e uma maldição. “Ter que falar e falar e falar – suga um pouco de você”, ele diz. “Não existe nenhuma maneira de evitar as pessoas a não ser que você tenha dinheiro para voar em avião particular o tempo todo, e eu não tenho. É um efeito colateral de ser talentoso”.

 Shelton diz que vai saber mais do impacto do programa quando lançar o novo álbum, em julho. “Teve um efeito imenso em termos de pessoas que me reconhecem agora. Eu odeio ter que descrever isso assim, mas não sei outra forma de dizer”, ele conta. “Depois que o segundo episódio foi ao ar, eu fui a um posto de combustível por volta de 1 hora da manhã – um lugar onde eu já fui umas 100 vezes – e tinha essa moça trabalhando no caixa. Fui pagar e ela começou a gritar. Eu quase morri de susto. Ela disse, ‘Você é aquele cara do programa de TV que eu estou assistindo!’. Pensei, “Meu Deus, acho que esse é o poder da televisão’. Normalmente, eu entrava em bares country e ninguém me reconhecia. Mas eu gosto que ter pessoas sabendo quem eu sou, porque significa que as coisas estão indo muito bem”.

Realmente, estão.


Voltar para Revistas – 2010 e 2011