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Dona de casa superestrela: porque o casamento e a maternidade não mudaram Christina Aguilera

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
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O OLHAR DE CHRISTINA AGUILERA NO PRÊMIO – Christina Aguilera está recebendo descoradores. A mansão dela em Los Angeles está sendo tomada por um projeto apelidado de Projeto Realeza do Pop.

De acordo com as especificações precisas de Aguilera e do marido, Jordan Bratman (um executivo empresarial na indústria da música), os cômodos miríades são agora uma rapsódia em rosa e vermelho. Trinta candelabros foram pendurados e uma sala de jogos de pinball criada. A companhia de design interior, Woodson e Rummerfield, demorou mais de quatro meses para criar o quarto do bebê Max, hoje com dois anos. A peça de destaque é uma lua gigante usada no cenário da última turnê mundial da Christina, em promoção do álbum Back to Basics, de 1006.

O cômodo favorito dela é o estúdio localizado atrás do jardim, atrás de um mini-lago com cachoeira, onde ela escreveu e gravou muito do novo álbum, Bionic. “Eu posso simplesmente colocar meus chinelos e ir trabalhar”, ela comenta. “Nós o chamamos de The Red Lips Room”.

Eles mudaram algumas coisas, já que os antigos donos tinham deixado marcas particulares por todos os lugares. Eles eram Ozzy e Sharon Osbourne, e esta foi a famosa casa do reality show The Osbournes.

“Nós mantivemos certos elementos, porque a casa tem alguns fatores que prestam homenagens e são realmente divertidos”, Aguilera, de 29 anos, diz de maneira clara e brilhosa após passar metade da vida nos holofotes. Aguilera percorreu um longo caminho, e rápido. Os dias de adolescente no Clube do Mickey ao lado de Justin Timberlake e Britney Spears a levaram direto ao topo das paradas pop: o single de estreia, Genie In A Bottle, lançado quando ela tinha 18 anos, foi um sucesso internacional. O álbum de estreia vendeu 17 milhões de cópias.

Mas a imagem grudenda a incomodava, por mais lucrativa que fosse, frustrando a adolescente com a voz multi-oitava que podia alcançar um “E maior”. O álbum Stripped, de 2002, mostrou um lado muito mais ousado. O famoso vídeo de Dirrty, lançado naquele mesmo ano e dirigido pelo polêmico fotógrafo David LaChapelle, revelou uma Aguilera impulsiva – em todos os sentidos – revelando calças de couro cortadas e longos apliques loiros e negros.

Ela levou a transformação mais além: agora, ela era Xtina, uma mulher provocante e desafiadora, com novos e múltiplos piercings para provar. A maior parte deles já foi retirada, ela me conta no nosso encontro em um quarto de hotel em Beverly Hills. Pequena como uma bonequinha, com cabelos loiros perfeitamente desarrumados e lábios vermelhos, ela usa um anel de prata imenso que diz Xtina. Está vestida em um apertado bustier.

A rebeldia valeu a pena: Aguilera se tornou uma das artistas mais bem sucedidas da última década, vendendo 43 milhões de álbuns e ganhando 5 Grammys. A música de assinatura – a encantadora Beautiful – trouxe um pouco de credibilidade à mistura também. É claro que ela mudou novamente com Back to Basics, quando ela se vestia como uma beldade dos anos 40. E enquanto a carreira da rival Britney Spears se atropelava em um meio de drogas e malsucedidos encontros com paparazzi, Aguilera traçou um caminho mais equilibrado e lucrativo. Recentemente, ela completou o papel de estreia nos cinemas, em Burlesque.

Christina Aguilera está de volta, e casamento, mansões e maternidade não ofuscam a ousadia. A imagem da capa (e título) de Bionic reflete os sons eletrônicos e dançantes do álbum: metade do rosto de Aguilera foi substituído por uma circuito robótico. Quanto ao som, ela entrou em contato com artistas undergrounds como Ladytron e Peaches. Também tem algumas baladas gentis, um par composto com Linda Perry (que escreveu Beautiful) e algumas com a compositora Australiana Sia. Mas a marca de Bionic, presente no barulhento single Not Myself Tonight, são os toques para boates. A nova mamãe, então, não ficou mais doce.

“Definitivamente não”, ela rebate, e então fala comigo – rapidamente – por algum tempo. “Ser mãe e ser uma artista que se expressa da forma como quer são duas coisas muito diferentes para mim, são dois chapeus distintos que eu uso. Eu deixei de fazer algo porque casei e tenho um filho? Não. Porque tudo é auto-expressão e ser uma artista. É muito importante para mim. Eu não sou apenas uma cantora, sou uma artista que se inspira visualmente e coleciona arte”.

A ideia de fazer uma álbum eletrônico surgiu há muito tempo. Ou, como ela coloca, “Eu sempre soube que queria fazer afirmações futurísticas em notas musicais. Mas eu sempre quis fazer, antes, meu álbum de inspirações”. Ela se refere à Back to Basics. Metade daquele álbum trazia Candyman e Ain’t No Other Man, singles que evocaram as Andrew Sister a jazz agitado. Alguns críticos consideraram o álbum como a última curva brusca à esquerda, mas ela insiste em uma definição gramatical sem pontos e sem pausas para respirar, dizendo que o álbum “era uma exploração retrô das minhas inspirações musicais desde o começo, quando eu tinha seis anos de idade, com os artistas do jazz, blues e soul, bem como explorando visualmente os anos 20, 30 e 40”. Foi sobre “homenagear as pessoas que me inspiraram”, um processo “que quase me forçou a revisitar épocas da minha infância que provavelmente eu não queria reviver”.

Christina Aguilera nasceu em Staten Island em 1980, a primeira filha do sargento Fausto Aguilera e Shelly. Eles se divorciaram quando Aguilera tinha seis anos de idade, e ela, a mãe e a irmã mais nova se mudaram para Pittsburgh, Pennsylvania. Era um ambiente familiar difícil: o dinheiro era pouco, a locações do exército os faziam rodar todo os Estados Unidos e outros países (incluindo uma passagem pelo Japão), e o pai era fisicamente violento contra a mãe.

Distante do pai,  ela cantou sobre estes momentos nas músicas Oh Mother (‘ele descontou a raiva no rosto dela’) e The Right Man (‘sem pai do lado para entregar esta noiva’), ambas do Back to Basics. Música old-school era um refúgio para Aguilera. “Soul e blues me tocou quando muitos achavam que eu era nova demais para apreciar. Eu tinha seis anos e ouvia Billie Holiday como se fosse o mundo para mim. Eu me relacionava com blues e soul porque não cresci em um ambiente seguro, era muito caótico para mim”.

E aquele tipo de música nasceu na dor. E ainda assim era o cobertor confortável dela? “Sim, absolutamente”.

O amor de Aguilera pela música logo se tornou em amor por performances. A voz detonante dela a destacou no circuito dos shows de talento locais. Ela era ambiciosa e determinada ao sucesso. Será que ela pensa que a vida problemática em casa, com todo o sofrimento, a deu um senso de independência e auto-suficiência bem cedo?

“Tinha que ser assim”, ela diz de forma firme. “Provavelmente, crescer assistindo minha mãe tão vulnerável nas mãos do meu pai e sob o controle dele, sem ter uma carreira para se manter sem ele…”, ela diz, com as palavras saindo trêmulas da boca. “Assistir tudo isso e ver como ela estava sem ajuda naquela situação, precisando de um homem para apoia-la – foi algo que eu absorvi bem cedo, percebendo que não era assim que eu queria estar. É uma situação que eu nunca quero estar. E eu era muito segura quanto a isso. Criei muita raiva dentro de mim. Toda vez que eu sentia uma injustiça, ou via alguém sofrendo bullying – eu era muito sensível quanto a isto. Eu não gosto de bullies. E eu nunca, nunca mesmo, quero me sentir impotente perto de um homem. Então eu tinha uma meta desde cedo… ser bem sucedida sozinha. É…”, ela balança a cabeça. “Ser bem sucedida sozinha. Para mim. E fazer acontecer”.

Ao conseguir um papel aos 13 anos, em 1993, no Clube do Mickey, o show de variedades de música e dança para crianças, ela iniciava uma marcha para o sucesso. De alguma forma, ela se sentiu em casa. “Eu relembro aquela época com boas memórias. Foi divertido. Ninguém queria que acabasse. Era como um acampamento de verão para crianças como eu”, ela diz. “Eu cresci em um lugar onde não tinha muita gente que entendia ou apreciava arte, música e performances, ou queria fazer isto como forma de viver. Então quando eu cheguei no clube do Mickey e conheci outras crianças que queriam fazer uma carreira desta forma, me senti como parte de uma família”.

A exposição que veio com o Clube do Mickey ajudou Aguilera a assinar um contrato com uma gravadora. Genie In A Bottle tornou a sorridente e doce adolescente de 18 anos internacionalmente famosa. Era possível viver uma existência adolescente normal?

“Hm, eu tentei. Eu tentei ir à minha formatura do colegial, e tudo mais. Mas quando Genie In A Bottle tocou, todas as garotas acabaram saindo da pista de dança só para implicar”. Parece triste, uma versão real da cena do baile no filme de horror Carrie, A Estranha (exceto o sangue de porco), com a garota assustadoramente talentosa humilhada pelos colegas invejosos. Mas Aguilera não vê desta forma.

“Eu olho para essa época e sorrio, de certa forma”, ela diz. “Porque me treinou para lidar com a visão maior das coisas, e saber como responder às críticas e negatividade… por motivo nenhum! Eu não fiz nada para aquelas pessoas. E aprendi a manter gente positiva à minha volta, ter instintos mais afiados para qualquer um que não quer que eu seja bem sucedida. Só penso, ‘Até a próxima!’. Não preciso de nada disso”.

Ela também está empolgada por ter terminado, recentemente, de filmar o papel principal de Burlesque, um filme sobre uma “garota durona” do interior, com um passado difícil, que encontra fama como dançarina burlesca – um arco emocional e profissional que atraiu Aguilera. O papel dela no filme veio depois que Clint Culpepper, o presidente da companhia Screen Gems, a viu cantar com as Pussycat Dolls – “não o grupo pop, e sim quando era um show underground no Viper Room, em Los Angeles”. Culpepper disse que o roteiro foi inteiramente escrito com Aguilera em mente.

“Anos depois, um roteiro aparece na minha porta. Eu li e, sabe, consegui que retrabalhassem a personagem para fazê-la mais segura e mais interessante. Porque se eu ia me aventurar pela atuação, eu queria que fosse algo que eu pudesse me desafiar, algo com mais conteúdo”.

Ela está em todas as cenas?

“Sim, eu sou a estrela do filme. Ha ha!”.

Não é Cher a estrela?

“Bom, meu nome aparecia primeiro na chamada! Ela vinha depois!”, ela rebate.

Não há dúvidas de que ela tem uns momentos de diva, mas estes dias Christina Aguilera acha contentamento em coisas distintas das profissionais e artístias. Como a mansão em Los Angeles. “As cores escolhidas por Ozzy em determinados quartos era escuras e pesadas, e nós mantivemos este tema”, ela diz. “As paredes do estúdio são vermelhas, que eu amo. Vermelho é uma cor forte para mim”.

As multidões fãs de Ozzy que ainda se reúnem na frente da mansão não se interessam pelos tons de cores, mas sim pelo excesso generalizado da casa onde mamãe, papai, Jack, Kelly and cachorros corriam de forma selvagem. “Isso pode ser um pouco incômodo, eu tenho que confessar”, Aguilera me conta. “Mas assim que você está atrás das paredes do portão, se sente bem segura e fora de contato com o resto do mundo, o que é legal”.

Também não tem espaço para uma academia (“Eu odeio malhar), e ela não é nenhuma louca por dietas – “Eu me deleito com bacos e meus carboidratos!”, ela ri. “Eu sou mais voltada para o básico: dormir, beber água, hidratantes”.

E arte, um dos maiores gastos financeiros dela. Ela e Bratman (quem ela conheceu em uma viagem de negócios em Atlanta e com quem se casou em uma celebração de 2 milhões de dólares em Napa Valley, em 2005) se dedicam bastante quando aumentam a coleção, formada por um número de colecionáries (e muitíssimos caros) criados pelo artista britânico Banksy. “Nós temos algumas estampas e uma tela de óleo de verdade”, Aguilera diz. “Também temos algumas das estampilhas e quadros dele também. Temos muitos trabalhos de Banksy – provavelmente…” Ela olha para o teto e mentalmente passa pelas obras que comprou. “Umas 10”, ela diz, finalmente.

Ela também gosta das convicções políticas de Banksy. “Eu acho que ele tem um motivo e uma rima para as artes que cria, não está simplesmente pintando um cheeseburgues para formar um quadro interessante. E eu gosto do mistério dele”, ela diz a respeito do anonimato. Não, ela não o conhece, mas “Eu apareço no documentário dele [Exit Through The Gift Shop], me disseram, fazendo compras em uma mostra”.

Aparentemente, uma das obras de Banksy traz a Rainha Victoria. Qual a descrição?

“Ela está sentada no rosto de uma mulher”.

Qual o apelo disso?

“Eu gosto da rebeldia!”, ela diz. “Eu não vou falar nada a respeito da Rainha ou algo do tipo. Esta não é minha área. Mas eu gosto de tudo que vai contra o senso comum. Eu gosto da justaposição disso. E achei a foto hilariante.”

Talvez pela primeira vez, Aguilera tem uma vida familiar que é funcional, completa e prazerosa. Bratman é “só o cara que entra em um cômodo e me faz sorrir de verdade. É assim que eu comecei a me apaixonar por ele. Ele tinha uma sensação de conforto. Ele é e continua a ser meu maior fã, meu apoio número um. Ele é um grande homem. Tenho sorte em tê-lo”.

Max também preenche o mundo dela. Ela tenta o máximo que pode para ser a primeira pessoa que ele vê de manhã e a última pela noite. Ela tem planos para que ele vá com ela na turnê mundial Bionic, que começa pela América em Julho. O visual daquela turnê, ela diz, vai envolver muito latex. “Ele se adapta ao corpo tão bem”, ela comenta, “e é muito simples. Além de ter um visual bem gráfico em câmera e filme. Então ele predomina minhas escolhas para este álbum. É muito limpo, ele brilha. Dá para lubrificar bem”.

Então Aguilera não sentiu que deveria segurar a imagem extremamente sexual que a tornou marcante agora que ela é uma mãe?

“Não. Porque são dois chapéus diferentes para mim”, ela diz. “Sexualidade, para mim, não é nada para se envergonhar. Eu sinto como se existissem tantos rótulos para as mulheres. Todos têm a própria zona de conforto com o que quer que isto signifique para cada um. Meu filho vai nascer em uma casa com muita nudez em nossas obras de arte, vendo mulheres nuas e tudo mais. E ele vai aprender a apreciar as mulheres fortes, uma mãe que trabalha. E também irá entender que as mulheres devem ser permitidas a se expressarem e se sentirem confortáveis na própria pele, sem importar o que isso signifique. Sem julgamento. E é assim que irei criar meu filho. E ele vai saber que a mãe dele faz isso como parte do trabalho – depois, eu vou chegar em casa, colocar ele na cama, e ler histórias de dinossauros e insetos”.

Com que idade Max poderá assistir o clipe de Dirrty?

“Bom…. ele tem dois anos agora, então não vai ser logo. Mas eventualmente, ele vai chegar na idade em que terá as próprias opiniões e eu vou ouvi-las. E ele vai ouvir os motivos pelos quais eu escolhi as coisas que fiz. Me orgulho disto. O que Ozzy Osbourne diz quando explica para os filhos que comeu cabeça de morcegos?”.

Pergunte à Christina Aguilera porque ela não se deixou levar pela onda de drogas, papparazzi e cabeças raspadas, como sua colega de Clube do Mickey Britney Spears, e ela responde com firmeza, “porque eu mantive os olhos no prêmio. É aquela força que eu tenho desde criança para continuar tentando. Eu sempre quis me manter focada. E nunca quis me deixar levar. E depois de tudo, eu estou nesse meio há, quanto tempo, mais de uma década? Daqui a anos, daqui a décadas, eu ainda quero continuar fazendo isso. Então, os olhos estão fixados no prêmio. E sempre com fome por mais”.


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