Revistas / 2010 / Out (Junho)

A Out é uma revista sobre estilo, entretenimento, artes, cultura e política voltada para o público gay

Christina Aguilera clama a fama

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
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MADAME X – 
Christina Aguilera, hoje com 29 anos, mora na antiga casa de Ozzy Osbourne, na Sunset Strip, com o filho de 2 anos de idade, Max Liron, e o marido, Jordan “Jordy” Bratman, e ainda, com um monte de latinos, que limpam, enceram, arrumam e, em geral, mantém a mansão em ordem.

A casa foi inteiramente Aguileralizada, com carpetes estampados com manchas de zebras e leopardos e quadros de Shepard Fairey que gritam OBEDEÇA das paredes. As maçanetas, pelo menos, são as mesmas deixadas por Ozzy Osbourne, feitas de ferro pesado com cruzes góticas. O estúdio de gravação também foi montado por Ozzy, transformado a partir de uma casa de hóspedes logo depois do pátio cheio de gazebos, velas meio-derretidas na forma de cabeça da Bhudas, e um triste rosto de boneca olhando para a piscina como Joe Gillis em Sunset Boulevard.

A casa de hóspedes é o local onde Aguilera gravou a maior parte do novo álbum, e onde a cantora está atualmente sentada, no estilo Betty Page, em um sofá com aqueles famosos lábios vermelhos saboreando uma pastilha Ricola.

Acima do sofá, está um assustador quadro pintado pelo artista de graffiti britânico, D*Face. É um retrato de John Lennon, mas com metade do rosto pintado como uma caveira. É uma arte pop no estilo “das cinzas às cinzas, do pó ao pó”, e não parece combinar com o comportamento ainda feminino do Aguilera. Ela é minúscula, mesmo em um par de saltos altos Louboutin.  O cabelo está picotado e cor de platina, os jeans rasgados, e a voz – considerando que ela consegue pular quatro oitavas em um piscar de olhos – é surpreendentemente quieta.

“Jordy e eu colecionamos bastante arte em graffiti”, ela explica. “D*Face é um artista que pega estas imagens e as detroi. No saguão, nós temos aquela imagem de Marilyn Monroe que é metade crânio. Eu gosto do lado obscuro”. Na realidade, a capa do álbum Bionic, o novo trabalho dela, traz um retrato de Aguilera feito por D*Face, com meio rosto notavelmente Marilyn Monronviano, e a outra metade como uma coleção de gramofones e lâmpadas. O lábio vermelho brilhante no estilo Rocky Horror é o que conecta os dois lados.

BIONIC NÃO SEGUE uma sequência lógica do último ou penúltimo álbum dela. De princesa pop para Jovem Mulher Rebelde (Stripped) para Marilyn Monroe (Back to Basics), a sequência sonora de Aguilera é tão selvagem quanto o som. A voz dela é mercenária, uma das regalias – e problemas – de ser uma médium da versatilidade. “Todo álbum tem dado um giro de 180º no álbum anterior”, ela admite. “Em Bionic, eu quis ir completamente ao futuro. Como uma nova mãe, eu pensava nas gerações futuras, então me inspirei em música eletrônica”.

Quando ela começou a trabalhar no álbum, Aguilera ligou para artistas com quem se simpatizava, uma ideia inesperada que inclui favoritos do underground como Le Tigre, Goldfrapp, Ladytron. “É uma aposta”, ela diz das ligações que fez. “Você nunca sabe quem vai topar e quem não vai”.

Sia Furler, conhecida profissionalmente como Sia e como uma cantora soul loira de olhos azuis – topou. A contribuição dela ao álbum – quatro músicas compostas com o baixista Sam Dixon – é o que Aguilera chama de “o coração do álbum”. Uma música em particular é uma balada crua e exigente nos vocais, estilo Etta James, chamada You Lost Me. Mais do que o coração do álbum, a faixa é uma definição da carreira de Aguilera. São estes quatro minutos que garantem à Aguilera um lugar ao lado de Nina Simone e Whitney Houston como pantera do soul.  Em uma simples progressão de cordas, Aguilera encontra uma música simples o suficiente para destacar a pureza de sua voz.

As palavras de Sia, completadas com um toque de abandono e traição, liberam a voz de Aguilera , variando de uma ferocidade profunda para um solitário e alto suspiro. “As coisas que ela consegue fazer com a voz são insanas”, diz Sia. “, mas eu realmente gosto quando ela está fazendo menos daquele contorcionismo. Em algumas horas, eu falava, ‘Acho melhor você só cantar a frase direto’. Eu me sinto com liberdade para sugerir uma ligação entre ela e a vulnerabilidade de quando ela canta de forma simples, com aquele maravilhoso tom que ela tem”.

Assim como em Beautiful, escrita pela ex-vocalista do 4 Non Blondes, Linda Perry, a alma da voz de Aguilera é audível em You Lost Me. Soa como um antigo disco por vezes, se une em determinados momentos e sobressai em outros. Respira, suspira e se contorce. É grande demais para falhas, mas sem orgulho para deixá-la sem hesitação. “Foi difícil para mim. Eu sou muito perfeccionista”, Aguilera conta. “Eu gosto de aperfeiçoar um vocal e deixar cada nota certa. Até quando sai bem, eu tento fazer de novo para ver se fica melhor. Mas quando eu entro no estúdio com alguém como Sia ou Linda, eu consigo achar inspiração dentro da música de formas diferentes. Consigo achar beleza nas imperfeições”.

SE VOCÊ NÃO A CONHECEU, não gostar de Christina Aguilera é fácil. A loira que desafiou cobrir os umbigos apareceu na cultura pop em 1999, quando ela cantava ‘I’m a genie in a bottle baby/Gotta rub me the right way, honey’. A música se espalhou como uma epidemia, aparecendo em boates e bares, taxis e carros, alcançando classificação platina, depois dupla platina, depois tripla platina, até  platina sêxtupla. Nossos corpos estavam dizendo vamos lá, mas o coração dizia não, a poeira abaixou e nós fingíamos não conhecer a música ou a cantora por vergonha. Mas dispensar Aguilera desta forma é evitar uma corajosa e séria artista. Se recusar a ouvir sua música para esnobar com desdém é se depravar de uma das grandiosas vozes do pop.

A casa de hóspedes de Aguilera não é uma cabine no meio do bosque. Sem ser uma compositora por natureza, Aguilera depende de outros como Sia, Perry e uma pouco da indústria moderna para lapidar as palavras e a armadura melódica da voz dela. Muito do sucesso ou fracasso do trabalhado dela não está somente na voz – que apareceu quando ela tinha 6 anos de idade, uma combinação de habilidade ginasta, tom rico e sensualidade muito além da idade dela – mas como ela a usa e o que ela diz com ela. Peguei a tradução no iloveaguilera.wordpress.com

No onipresente álbum de estreia, quando Aguilera era nova em Los Angeles e com pouco controle, sua voz era utilizada para transmitir refrões fáceis de murmurar. “Genie in a bottle” e “What a girl wants” a tornaram uma estrela, mas o alcance vocal foi direcionado para baladas ou breves repetições de palavras que colocaram sua voz em uma maneira esquisita e fora de contexto. No álbum seguinte, Stripped, Aguilera repudiou a máquina de fazer pop e transformou o gênio em sexy. “Naquele primeiro álbum, eu estava limitada”, ela diz. “No Stripped, eu pensava, ‘estou pouco me fudendo’. Com uma parte de Dear Prudence e uma mensagem distante da fantasia, Beautiful foi a música que libertou o gênio de Aguilera.

CONHECENDO O PASSADO DELA e a cobertura pela mídia, é fácil não duvidar da declaração que diz ‘estou beijando todos os garotos e garotas’, feitas no single de Not Myself Tonight, como uma das inevitáveis e ousadas confissões de um popstar. Afinal, foi a própria Aguilera, acompanhada de Britney Spears, que começou uma onde de beijos na televisão, com Madonna no Video Music Awards de 2003. Mais tarde, Katy Perry  beijou uma garota e cantou sobre isso. Gaga se agarrou com uma bodybuiler no recente clipe de Telephone.

“Eu não chego a beijar todas as garotas e garotos”, Aguilera diz. “Mas meu marido sabe que eu curto elas. Acho que é divertido se abrir desta forma e brincar. Esta frase é real para mim. Meu marido e eu beijamos um ao outro, mas eu definitivamente amo as mulheres. Acho que elas são atraentes ao olho nu”, ela diz antes de acrescentar, “eu não consigo ficar literalmente com uma mulher porque é muito… como se diz? Os homens têm testosterona, e as mulheres…” Estrogênio? “É, é muito estrogêneo e eu já sou problema demais para lidar naquela época do mês, então eu não consigo imaginar isso multiplicado por dois”. Aguilera pausa e balança a cabeça. “E sabe, eu amo pênis. Para ser sincera, sem isso eu não consigo viver”. Ela chupa a pastilha Ricola com força.

Apesar de poder dizermos que atrás de toda popstar existe uma armação gay, regularmente eles estão presentes na forma de cortesãos, não de colaboradores. Mas no caso de Aguilera, cada um de seus triunfos musicais nasceu de um relacionamento gay, ou pelo menos de um relacionamento com um gay. Beautiful de Perry; Ricky Martin, com quem ela colaborou em Nobody Wants to be Lonely; neste álbum, Sia e a namorada JD Samson, do Le Tigre. “Eu sinto como se Aguilera estivesse mantendo metade da população lésbica de Los Angeles, porque ela realmente curte trabalhar com elas, como a mulher que anda com os cachorros, a personal trainer, os compositores”, brinca Sia, mas não longe demais da verdade. Bissexual ou não, Aguilera é gay no sentido mais literal da palavra.

NÃO MENCIONAR LADY GAGA em um artigo sobre música pop em geral, e sobre Christina Aguilera em particular, é como escrever uma monografia sobre omeletes e não falar dos ovos. Gaga, quer gostem ou não, atualmente dita os termos de uma conversa sobre pop. Ela é a estrela no qual o universo pop gira. Além do mais, as duas têm histórias juntas.

Rivalidade não é nenhuma novidade para Aguilera, que passou anos da infância dominando os shows locais de talento na área metropolitana de Pittsburgh e parte da adolescência como parte do elenco do Clube do Mickey, ao lado de Britney Spears e Justin Timberlake. O fim da adolescência e começo dos 20 anos foram disputados contra a ex-melhor amiga, Britney. Mas, quando o assunto é Lady Gaga, alguns acham que as comparações são especialmente odiosas. “Oh, a novata?”, Aguilera pergunta. “Acho que ela é muito divertida de se olhar”.

Apesar disso, Aguilera tem sido alvo de críticas que dizem que ela roubou o estilo de Lady Gaga e as comparações a pegaram em cheio. Em 2008, quando questionada pelo Los Angeles Times a respeito das comparações, Aguilera negou todos os traços da existência de Gaga. “Eu sou um tanto quanto alienada com relação a algumas coisas”, ela disse na época e repete hoje.

Gaga versus Aguilera tem potencial para ser o El Aleimein da música pop. O legado de Gaga é uma alavancada ao topo, uma corrida que conta com apenas um álbum (e meio) para apoiá-la, enquanto Aguilera uniu as forças por mais de uma década, unindo-se com hits e produtores, rádios e engenheiros musicais. Cada álbum de Aguilera nasce com um planejamento lento e meticuloso. Apesar dela não admiter uma influência, Bionic é uma guerra à Gaga; uma luta onde ela tenta superar Gaga – hit por hit – e sair por cima. É uma estratégia perigosa. Uma faixa em particular, produzida por Cristopher “Tricky” Stewart, chamada Glam, se destaca como um borbadeio direto às posições de Gaga.

Mas ela é um simples soco, ou uma peça fundamental em um álbum importante? É difícil dizer. Certamente é memorável, mas a vitória é mediana. A voz de Aguilera é mantida refém, confinada em uma única oitava, reduzida a um mero instrumento, um denominador comum. É frustrante ouvi-la em músicas como Not Myself Tonight ou Glam, operando em capacidade reduzida. Para fazê-la alcançar aos Jonas ou às Gagas, ela tem que ficar mais lenta. Felizmente para Aguilera, as músicas com Sia, como You Lost Me, são provas da técnica superior que ela tem.

Gaga escreve ritmos com rimas fáceis e infantis, fáceis de murmurar e difíceis de esquecer. Aguilera ultrapassa os ganchos grudendos para acompanhar a virtuosidade da voz, apesar dela admitir que “é mais brochante para o público, porque não é fácil de cantar junto”. Gaga fala de arte e canta sobre telefones celulares e discos. Aguilera não cede à anúncios públicos distantes da sua área de conhecimento, e canta sobre vulnerabilidade e ansiedade, perda e força, abuso e aceitação. Gaga diz que ela é a própria arte dela. Aguilera diz que, “eu costumava pensar que minha arte era eu, mas não é assim que funciona. Não dá para ser tão egoísta”. Gaga é topiária, altamente podada e estilizada. Aguilera é uma selva, selvagem e crescida.

EM ALGUNS MESES, Burlesque, o filme estrelando Cher, Stanley Tucci, e na estreia na telona, Aguilera, entrará nos cinemas. Max vai estar saindo dos seus terríveis dois anos, mas Bionic já terá alcançado número 1 nas paradas pop, provavelmente carregado lá por Not Myself Tonight. Já Aguilera, sentada na minha frente brincando com a ponta do salto, provavelmente será outra. Quando ela voltar, pode ser que não a reconheçamos. O cabelo deverá ter mudado de loiro para ruivo, o visual, de futurista para psicodélico. Mas assim que ela abrir a boca para cantar, não haverá dúvida. Christina Aguilera retornou.


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