Revistas / 2010 / Latina (Junho)

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A reinvenção de Christina Aguilera

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
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DERRAME DE UM GÊNIO – Com um novo álbum e o primeiro papel no cinema, Christina Aguilera mantém a família em foco enquanto leva sua auto-expressão a novos limites.

SE A VIDA DE CHRISTINA AGUILERA fosse uma obra de arte, o tema dominante seria vermelho. Entre na mansão de 1.000m² em Beverly Hills – a mesma que pertencia ao próprio Príncipe das Trevas e foi cenário do The Osbournes da MTV – e você vai se descobrir nadando nesta cor: Vermelho cereja, vermelho sangue, vermelho flor. Ele vive na seda delicada, em candelabros de cristal e nas rosas frescas que ela encomenda para troca toda semana. Ele agracia os belos lábios dela, até mesmo a sola dos sapatos, e só é interrompido pela ocasional faixa de rosa ou estampa animal, como uma escada coberta por um tapete de zebra dentro do salão dela, uma espécie de closet gigante.

Centenas de sapatos estão alinhados na parede e agrupados por designer. Qual deles ela salvaria em um incêndio, eu pergunto. Ela caminha até um par de Louboutins de veludo preto, coberto em cristais. “Estes”, ela diz, amável.

Dentro deste cômodo mágico, que só pode ser descrito como o lar de um artista, a meticulosa mania por organização vive em paz com a prazerosa anarquia dos “quadros de ideias”. Estas colagens artísticas são feitas de imagens que ela recorta (a maioria, de revistas) para buscar inspiração, porque antes de gravar qualquer vocal, Aguilera tem que se sentir inspirada. E quanto mais bagunçados os quadros – caveiras! lábios vermelhos! clássicos nus! – melhor.

Até mesmo fora do salão, não há nada menos do que arte. Algumas são políticas, outras engraçadas, mas a maioria é original. Pendurados nas paredes dos estúdios, estão vários quadros de “Poder e Equalidade”, criados por Shepard Fairey, o homem por trás da icônica campanha “Hope”, de Obama. Há uma tela cadavérica de John Lennon, feita por D*Face, um artista de rua famoso por rir da cara das celebridades ao destruir o rosto de ícones da cultura pop. A ideia da recatada Rainha Victoria sentada sob o rosto de uma mulher vem de um Banksy original, comprado por Aguilera bem antes do artista britânico se tornar um nome de poder nos Estados Unidos.

Não é nenhuma coincidência o fato da minúscula cantora de 29 anos – com mais de 30 milhões de álbuns vendidos – ter escolhido a casa dela como cenário para esta entrevista; o ambiente em que ela mora se expressa melhor do que mil palavras jamais poderiam. “Eu amo entrar na casa das pessoas”, ela diz, enrolada em um sofá no estúdio. Ela está vestindo um sweater justo branco, calças cinzas e sapatos de couro vermelho. A maquiagem é básica, mas glamurosa: as unhas são preto brilhante, uma pequena linha esfumaçada nos olhos e lábios vermelhos. “Eu acho que a casa transparece a personalidade. É importante ver como as pessoas são ao se expressarem”.

Caminhando pela casa de estilo mediterrâneo, fica claro que a arte é a vida de Aguilera, e que esta vida tem tantos compartimentos quanto o closet dela: mãe, esposa, música, criadora de fragrâncias e, a partir das próximas Ações de Graças, atriz.

Aguilera se encaixa dentro de todos estes papeis, mas cada um inspira e se conecta com o outro. Pouco importa se as pessoas entendem o que a artista já conhecida como Xtina está fazendo, desde que ela entenda a si mesma. “É sempre legal ser validada pelos outros, mas eu já tive aquele sucesso inacreditável quando fui lançada, no auge da explosão pop”, Aguilera diz hoje. “No final do dia, é muito importante que eu esteja feliz com esta situação porque é a minha forma de expressão. Eu me odiaria se, não importa o quão bem sucedido ele fosse, eu lançasse outro álbum que não nasceu em um lugar honesto para mim”.

Isto não significa que ela seja fácil de trabalhar. Pergunte a qualquer colaborador, seja um produtor ou alguém do “esquadrão da beleza”, e todos eles concordam: quando ela gosta de algo, ela ama; quando não gosta, ela odeia. Dito isto, você nunca se perguntará o que ela pensa de você porque ela não é tímida para falar o que lhe vem à mente.

O engenheiro de gravação Oscar Ramirez, que trabalha com Aguilera desde o álbum Stripped (2002), sabe exatamente do que ela gosta no estúdio. Enquanto ele toca faixas do Bionic – o quarto álbum de estúdio gravado por Aguilera e o primeiro a ser feito dentro da casa dela – ele usa grandes monitores do estúdio para passar a música título, escrita com John Hill. Mas quando ele toca You Lost Me, uma das quatro baladas compostas com a cantora/compositora australiana Sia, Ramirez as toca através de pequenas caixas de som para capturar melhor o som.

Em vários sentidos, Bionic é uma melhoria do álbum Stripped, oferecendo uma volta de 360º pela mente, corpo, coração e alma da Aguilera. “Eu cobri muitas áreas naquele álbum”, ela diz, pegando uma pastilha para voz de uma pequena vazilha e colando na boca. “O lado vulnerável em Beautiful, o lado agressivo que superou dificuldades em Fighter, o lado ‘cansei-de-ser-reprimida’ em Dirrty. Este álbum também conta várias histórias diferentes, e meu lado sexual volta um pouco mais selvagem, o que é muito divertido para mim. Sempre vai haver alguma forma de sensualidade no meu trabalho”.

Caso prático: no primeiro single, Not Myself Tonight, uma faixa pop-dance produzida por Polow Da Don, Christina canta sobre tomar doses e beijar todos os garotos e garotas. Mas é tudo só por diversão, você não vai ver Aguilera abandonando o filho Max, de 2 anos de idade, para voltar às boates. E se ela sair à noite, vai ser com o marido Jordan Bratman, casados há cinco anos, e só depois que o filho fechou a noite passando tempo com a mãe, o que significa, atualmente, lerem juntos os livros de Berenstain Bears. (“Eu sou aquele tipo de mãe que se arrasta no chão e enlouquece um pouco”, ela diz. “Estou voltando a ter 12 anos de idade”).

Para o novo álbum, Aguilera listou uma série de produtores e compositores ecléticos: Santigold, M.I.A., Ladytron e Le Tigre, para nomear alguns. É a primeira vez que ela teve tantos colaboradores – no passado, a maioria do trabalho foi com Linda Perry, e no álbum Back to Basics (2006), com DJ Premier – mas ela diz ter gostado do processo. “Eu corri atrás de várias pessoas cujos trabalhos eu ouço e admiro”, ela diz. Christina se deu especialmente bem com Sia, a quem ela se refere como “definitivamente a chefe” e “na verdade, uma das pessoas mais simpáticas do universo”.

Para receber uma nova sinergia criativa, Aguilera tirou do estúdio tudo o que lembrasse a era Genie In A Bottle. “Tem estas placas, troféus e prêmios que eu ganhei, e eu me enjoei deles. Se eu estou vindo aqui para me inspirar, eu preciso que este cômodo seja uma espécie de santuário, e não uma mostra do que já consegui”, ela conta rindo. “Eu ficava com vergonha e não suportava isso”.

Apesar dela ter se livrado das barreiras adolescentes há anos, a evolução de Aguilera está longe do final. “A beleza da busca pelo autoconhecimento da Christina é que ela vai se procurar em todos os lugares, todas as saídas”, diz Perry, que escreveu Lift Me Up em Bionic, uma balada cantada em uma oitava mais baixa que o normal. “Ela queria fazer um álbum com a maioria das músicas eletrônicas, e queria escrever faixas que a fizesse se sentir bem. Aonde ela vai depois – quem sabe? Eu não acho que ela se importa”.

Aqueles que se sentem tentados em comparar Aguilera com outra loira ousada que encontrou um sucesso recentemente não está prestando muita atenção no que ouve. “Se você perguntar para Christina o que está nas rádios, ela não tem a mínima ideia”, acrescenta Perry. “Ela só escuta sons. Na maioria das vezes, as pessoas me trazem músicas inteiras e dizem, ‘eu quero fazer algo assim’. Basicamente, eu viro os olhos e bocejo. Christina, por sua vez, aparece com uma música obscura, toca, e aponta para um som esquisito que passa aleatoriamente, algo bem rápido e pequeno no meio de uma música. Eu falo, ‘isto é um melotron com um pouco de delay’. E ela responde, ‘A gente consegue criar uma música que traz o sentimento daquele som?’. Eu olho para ela pensando, ‘esta garota é uma louca’, e eu amo isso”.

CHRISTINA AGUILERA GUARDA TUDO O QUE TEM, sem nenhum motivo aparente. De forma bem organizada, mas ainda assim, sem nenhum motivo aparente. Ela mantém praticamente tudo que já foi escrito sobre ela – até mesmo o que a magoa – uma condenação fashion aqui, palavras ofensivas do Eminem ou da Mariah ali – e de vez em quando, ela pega tudo e as lê. Mais do que pela nostalgia, mas para lembrá-la do caminho que ela já percorreu. “Às vezes, eu acho que deixo as coisas me machucarem mais do que deveria, porque elas não valem o meu tempo ou minha energia”.

Parece que faz tanto tempo que os colegas de classe de Aguilera a ridicularizaram porque ela era talentosa. Em casa, as coisas não eram melhores. A mãe irlandesa-americana, Shelly, suportava o abuso nas mãos do pai equatoriano, Fausto, resultando em um divórcio quando Aguilera tinha 7 anos. Apesar de tumultuada, a infância forçou Aguilera a encontrar uma escapatória criativa que, de várias formas, a preparou para o estrelato em um meio onde eles te colocam em um pedestal apenas para te derrubar.  Copiei a tradução de iloveaguilera.wordpress.com.

Aguilera já suportou sua parte de facadas traiçoeiras na indústria musical, a começar pelo primeiro empresário, Steve Kurtz. Em 2000, ela ajuizou uma ação contra ele, alegando fraude. “Como uma jovem menina crescendo neste meio, seu latido seja maior do que sua mordida”, ela diz. “Algumas horas, você tem que falar um pouco mais alto, empurrar um pouco mais forte, e eu definitivamente fiz isso quando o caminho ficou mais difícil. Tiveram momentos em que eu fui passada para trás porque confiei nas pessoas erradas. Meus instintos se aprimoraram no caminho, e eu sou grata por isso”.

Estes instintos mais aprimorados são, em parte, graças à Bratman, quem ela chama de “minha pedra”. Os dois se conheceram em 2002 quando Bratman trabalhava para a nova equipe de empresários de Aguilera, comandada por Irvin Azzoff. “Jordy foi a calmaria após a tempestade, quando todo o resto estava me enlouquecendo”, Aguilera conta. “Tinha gente muito mais velha que estava conivente com tudo – e estas pessoas fazem isso para que você dependa delas. Ele foi a pessoa que me buscou lá embaixo, me tirou de lá e me trouxe de volta à razoabilidade. Eu tenho muita sorte em ter ele”.

Bratman também encarnou o papel de “tarefas do papai após às 10 da noite”, enquanto Aguilera filmava o primeiro longa no último inverno, o musical contemporâneo Burlesque, de Steve Antin. Não apenas os horários eram sofríveis, mas Aguilera estava estreando na atuação ao lado de um elenco intimidante, que incluia Cher e Stanley Tucci.

Para desenvolver a personagem Ali, uma garota do interior contratada para dar nova vida ao clube burlesco liderado por Cher, Aguilera contratou uma técnica em atuação. Ela até mesmo pediu ao estúdio para retrabalhar a personagem “com um pouco mais de conteúdo, um pouco mais de crueza”, o que fez com que ela voltasse ao passado para trazer à tona lágrimas e raiva reais.

Quanto aos boatos de rivalidade no set entre ela e Cher, Aguilera os achou cômicos. “Eu morri de rir com eles, porque Cher e eu nos sentimos como velhas amigas”, ela diz. “Na verdade, eu acho que as pessoas que estão neste meio há mais tempo são as mais legais, já que eles não tem mais nada para provar e podem deixar o ego e a estupidez para lá”.

O mesmo pode ser dito para Aguilera, que apesar de não ter 30 anos ainda, está começando a se sentir como uma veterana. Com um coreógrafo de 19 anos e dançarinas burlescas de 22 anos no set do filme, Aguilera ficou mais consciente da idade. “Eu pensava, ‘calma! Sou uma avó aqui?'”, ela brinca. “Eu estava tão acostumada com todo mundo mais velho do que eu. Mas eu adoro a sabedoria que a idade traz, eu não daria nada para voltar no tempo”.

Mesmo com tantos anos passados, Aguilera diz que nunca tentou criar um relacionamento com o pai. “É, ele quase não existe”, ela diz do relacionamento com Fausto, olhando para o chão momentaneamente. “Estou num ponto da minha vida que eu não vejo mais motivo para isso. Sempre tem espaço para perdoarmos – e eu perdoo – mas você cresce e faz escolhas para sua família”. Ser mãe fez com que Aguilera apreciasse ainda mais Shelly. “Quando eu lembro do caos que ela passou, o abuso, eu não sei como ela conseguiu superar. Mas é incrível o quanto você consegue trabalhar sua mente para conseguir sobreviver”.

A própria Aguilera é um mix curioso de força e vulnerabilidade – um constraste de cores que só pode ser inteiramente apreciado de perto. O amigo e maquiador Kristopher Buckle destaca esta como a coisa mais importante que tem a se saber dela: “Ela parece ser mais forte e durona que o coração dela. O coração dela é carinhoso e gentil, doce e consciente. Ela é uma guerreira, tem a armadura e o rosto pintado para a batalha, mas é uma combinação de muita força e muito doce”.

Lá em cima, no salão, fotos de uma sessão recente com Alix Malka – que a fotografou para o Bionic – estão colocadas por todo o chão. Ela tira os sapatos e caminha na ponta dos pés empolgada, passeando pelas imagens. É difícil caminhar sem pisar nas coisas, então Aguilera pede perdão pela bagunça. Quando eu a lembro que as mentes mais criativas são caóticas, ela ri. É a forma que ela tem de dizer ‘Obrigada pelo apoio’ – o que ela aprecia. Mas ela não precisa. Porque assim que as portas se fecham, ela volta a fazer o que ela domina de melhor: criar.


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