Revistas / 2010 / InStyle UK (Dezembro)

A InStyle é uma revista para mulheres, com foco em moda

Christina Aguilera – Bem vindo ao mundo dela…

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
Não copie, direcione o link

RAINHA DO POP – Você acha que conhece a Christina? A garota estilo pin-up, toda cabelos platinados e lábios vermelhos, com a voz que desafia a gravidade. Mas, às vésperas da estreia de seu primeiro filme, Ms. Aguilera mostra que ela é cheia de surpresas.

Cada passo que dou em direção da Christina parece uma caminhada no tapete vermelho. Esse tapete imaginário começa nos imensos portões de madeira da mansão em estilo espanhol localizada em Beverly Hills, espremidos no meio de 4 ônibus cheios de turistas querendo ver a casa que a família Osbourne fez famosa na TV (Christina mora na antiga casa deles).

Ao passar pela porta principal, chegamos a um cômodo que parece um eclético mundo mágico de Oz, com uma colorida coleção de arte e design: um Le Corbusier  misturado com cadeiras Luis XV listradas em estilo zebra, em cima de um tapete  com estampas vermelho e branca; e tem um Shepard Farey (o artista por trás do quadro Hope de Barak Obama) em uma parede, e um pôster de Burlesque – o filme que ela estrela com Cher – encostado em outra.

O tapete continua pelo corredor, onde um livro de fotos de tamanho grande está aberto em uma página com uma foto da Christina. Do lado, duas fotos do casamento, incluindo uma da estrela e do marido Jordan Bratman posando com um grupo de geishas.

Para as passadas finais, somos levados por uma escadaria magricela em curvas, cercada de uma dúzia de colagens de fotos casuais, incluindo uma de Christina e Jordan de bonés se beijando. No topo da escadaria, onde o pequenino cachorro da Christina, Stinky, nos espera empolgado e saltitante, tem um salão – um casulo luxuoso e glamuroso que parece uma loja de roupas particular. É aqui que o tapete termina.

Eu me sento em uma das duas cadeiras  brancas de salão na frente de espelhos com luzes que lembram os bastidores de um show da Broadway.Tem uma parede de estantes rosas lotadas de sapatos e botas até o teto, três prateleiras de chapéus e, no sofá circular rosa no centro do cômodo, uma bandeija de óculos. Também tem artes mais excêntricas, como torsos enfeitados de manequins até um porta-lenços de porcelana, criado por Jonathan Alder, com a palavra ‘ÓDIO’. Existem cortinas vermelhas imensas separando o cômodo em dois. E então, por trás de uma dessas cortinas, chega o ato principal: a própria Christina.

Ela pode fazer parte da monarquia musical aos 29 anos (ela fará 30 anos no dia 18/12 – dá para acreditar que ela ainda é tão jovem?), mas ela conhece bem a boa educação. Ela estende a mão para me cumprimentar, senta na outra cadeira branca, e cruza gentilmente as pernas, elevando um pouco um dos sapatos vermelhos de Louboutin. Christina tem o rosto atrás de rímel, base, lábios vermelhos que combinam com o sapato e uma mecha laranja nos cabelos loiros que vão até a altura do peito. Apesar disso, ela garante que é muito casual. “Eu tenho curtido bastante ser mais grosseira no meu estilo”, ela diz, pulando para pegar um par de botas no estilo de combate. “Eu fiquei com inveja de todos os garotos no set de Burlesque, porque eles sempre tinham botas de combate, que nunca são lançadas no meu tamanho”, ela diz, fazendo um pouco de biquinho. Ela só tem relaxado mais, quanto ao próprio estilo. “Nem tudo tem que ser empurrado e levantado”. Quando fala isso, ela olha para o próprio decote e dá uma risada.

Hoje, nada está muito “apertado”. Ela está usando uma blusa de duas camadas sobre um sutiã vermelho brilhante, com um cordão com pendante de prata, meia dúzia de pulseiras no pulso esquerdo e um anel do jolaheiro favorito dela, Stephen Webster. Além disso, usa um par de leggins azuis escuro da Denimocracy, que ela se recusa a chamar de “Jeggings”. “Eu não gosto dessa história de se conformar com coisas pelo um apelido”, ela ri novamente, “tipo gravidinha”.

Esse parece ser um tema fixo com a Christina, como ela não gosta de se conformar com… coisa nenhuma. “Eu gosto de ter opções. A mesma história de sempre me deixa entediada”. A única coisa que ela não abre mão é o batom vermelho forte, de uma marca chamada Lip Sense. “Se tornou minha marca, sabe? Uma das minhas assinaturas”. Ela gesticula para o cômodo a nossa volta. “Tem uma presença tão forte, o vermelho é uma das minhas cores favoritas e está espalhada pela casa. Você pode ver toques de vermelho em todos os cômodos, do suporte dos candelabros até os tapetes”.

O salão, ela explica, é o antigo quarto de Jack Osbourne. Ela então aponta para um rack de roupas cheio de figurinos branco e preto: “Isso é o que sobrou da minha fase Bionic. Agora, eu estou no estúdio gravando meu novo álbum, que tem uma imagem diferente; essas roupas já são um pouco de notícia velha”. O resto das roupas dos álbuns anteriores estão guardadas em arquivo. Deve ser uma coleção e tanto, porque Christina, que sempre exagerou no sentido “ou chama a atenção ou vai embora”, já vendeu mais de 30 milhões de discos e tem uma carreira e tanto.

O álbum de estreia, Christina Aguilera, vendeu mais de 12 milhões de cópias no mundo. O segundo álbum, Stripped, vendeu mais de 9 milhões. O mais novo, Bionic, foi número 1 aqui no Reino Unido. E então chegam as 11 indicações ao Grammy, com cinco vitórias. Os quatro perfumes, as turnês gigantescas (a Back To Basics Tour rendeu mais de 55 milhões de libras em 2007), e o trabalho social com o Programa Mundial Contra a Fome, que a fez viajar até o Haiti neste ano.

Agora, ela adiciona “Atriz” ao currículo, com um papel no musical Burlesque. Com isso, vem uma trilha sonora cheia da voz alta, ousada e poderosa, que nos faz arrepiar a coluna. É como o cover de 2001, Lady Marmalade, só que desta vez, a luz ilumina apenas uma cantora talentosa de Nova York.

Nascida em Staten Island, Christina mudava pelo trabalho do pai, que era sargento do exército e morou no Texas e no Japão. Depois de um período de violência doméstica nas mãos do pai, ela e a mãe se mudaram para a Pennsylvania, onde ela cantava em festinhas locais e apresentava o hino nacional em jogos de hockey no gelo. Aos nove anos, foi ao Star Search (e perdeu), e aos 13 anos, era um membro artista do Clube do Mickey (ao lado dos amigos famosos Justin Timberlake e Britney Spears). E, apesar da perseguição pelos colegas de classe, essa infância intensa ajudou a construir sua personalidade.

“Eu acho que isso realmente me fez ser mais forte e me preparou para o meu futuro”, ela diz. “Até no meu passado com meu pai e todo o abuso que eu vivia, eu desenvolvi uma visão de guerreira. Eu sou uma daquelas pessoas que é incentivada por aqueles que tentaram me derrubar, ao invés de ser desistimulada por eles”. Foram esses anos difíceis, ela diz, que a ajudaram a escolher como marido Jordan Bratman, um executivo do mundo da música que ela conheceu em 2002. Ela foi sugada pela honestidade e sinceridade dele (“Minhas paredes estavam todas levantadas”, ela conta, “então se alguém conseguiu passar por elas naquela época da minha vida…”).

Em 2005, ele a pediu em casamento em uma noite chuvosa na Califórnia. “Ele me levou para jantar em um quarto com uma lareira. Tinha um cardápio inteiro para prova de vinhos e comida. Quando voltamos para o nosso quarto, tinha balões vermelhos e rosas no teto inteiro. E ele se lembro de uma história que eu contei, quando eu era criança, de que eu adorava buscar dicas de presentes espalhadas pela casa, com papeis contando o próximo passo e um presentinho em cada canto onde eles estavam. Ele me levou ao anel dessa forma. Foi muita consideração e honestidade com o momento”.

O casamento foi em Nappa Valley, inspirado na cultura japonesa, uma outra obssessão da Christina. “Tudo vem em pacotinhos minúsculos, e eu também sou minúscula. Eles são muito ligados à apresentação das coisas e embalagens, e eu adoro uma bela embalagem. Eu amo minha fita de etiquetas. Eu me sinto organizada colocando tudo em um lugar e com um propósito. Eu sou muito ligada aos cartões e às canetas, sou esse tipo de garota”. Ela fica um pouco empolgada demais quando fala dos livros de recortes, como ela criou alguns sobre o filme dela e de Jordan, Max, que fará dois anos em janeiro* (na verdade, são três).

Ao que parece, Christina e Jordan são os perfeitos yin-yang da família. Ela vive sob os holofotes, enquanto ele apoia dos bastidores. Mas ela está determinada a mostrar ao filho que ele não deve fazer pouca coisa de nada: “Eu não sei o que é crescer com o estilo de vida que meu filho vai crescer”, ela diz, “então quero ter certeza de passar meus valores morais para ele”. Até agora, ele já escolheu alguns. Por exemplo, a letra de “Stay Awake”, canção de ninar de Mary Poppins que Christina canta toda noite, e ele também já reconhece as habilidades da voz da mãe.  “Se ele está em um restaurante e ouve outra cantora atingir uma nota alta, ele diz: ‘É a minha mãe!'”.

Mas se as fotos penduradas no espelho do salão dizem alguma coisa, é que ela não é a típica mãe. Lá, logo em cima de fotos de Audrey Hepburn, está uma fotografia de Christina fazendo uma série de poses nuas. “Oh!”, ela diz, se virando quando eu comento. “Eu me esqueci disso aqui. Eu provavelmente deveria ter tirado essas fotos daqui. Mas”, ela acrescente, “depois de ter um filho, é importante você se lembrar dessas coisas”.

Na verdade, a sexualidade sempre foi parte do estilo e performance de Christina – como Madonna, ela preparou o caminho para atos como Lady Gaga. Pegue por exemplo o mais recente clipe dela, Not Myself Tonight, cheio de imagens S&M, que ela criou logo depois que terminou as filmagens de Burlesque (a história de uma garota do interior, Ali Rose, interpretada por Christina, que revive um decadente clube burlesco). Por meio da atuação, ela explica, ela trabalhou muito para deixar sua individualidade de lado. Obviamente, não foi algo que ela considerou fácil. “Era muito claustrofóbico depois de um certo tempo”, ela admite. “É daí que veio o visual bondage e latex de Not Myself Tonight, porque expressar a sexualidade é libertador. É onde eu sinto livre para libertar minha voz. Na história, as mulheres sempre são reprimidas para se sentirem envergonhadas ou taxadas por isso, então me sinto bem por dar poder e uma voz para nos sentirmos mais forte”.

Essa liberação é muito distante dos dias mais jovens de Christina, quando aos 17 anos, dois anos antes do sucesso de Genie In A Bottle, ela apareceu em uma tapete vermelho com um poncho multicolorido. (“Eu nunca vou perdoar aquela estilista!”, ela ri.). Agora, ela trabalha com a estilista Simone Harouche, e se tornou “mais estratégica ao montar o visual que estou imaginando e quero retratar”. Foi assim que ela terminou com aquelas icônicas calças cortadas de Dirrty, o visual Marylin Monroe e Andrew Sisters para o álbum Back to Basics, e ainda, cantou no MTV Movie Awards deste ano com um coração luminoso piscando em um certo, ehrm, lugar feminino.

Mesmo longe das performances, ela não decepciona no tapete vermelho – apesar de que o momento que ela mais gosta é tirar a roupa. “É divertido brincar de me vestir”, diz Christina, “mas eu prefiro tirar o vestido assim que o tapete vermelho acaba. Eu gosto de ficar sem roupa antes de um banho de espuma, ou usar só calças largas e uma camiseta”. Na verdade, ela escolheu a campanha que fez para a Versace em 2003 como seu momento de maior estilo. “Eu não usei um grama sequer de maquiagem e meu cabelo estava meio liso e loiro, sem nada; ainda assim, me senti bem elegante”.

E apesar de até mesmo Angelina Jolie ter dito à Christina que é uma grande fã, a cantora jura que sua vida não é tão empolgante. Tem aquela vez, por exemplo, que ela saiu da limosine e percebeu que o bronze dela estava escorrendo pelo vestido branco. “E você sabe, as histórias mais infames são das turnês, quando você tem que ir ao banheiro”. Quando eu dou uma olhada curiosa, ela esclarece: “Em um balde. Nas trocas rápidas de roupa, bem antes de voltar para o palco e você só tem 30 segundos. Nada bonito”.

Entrar no mundo do cinema, ela diz, é de longe a coisa mais difícil que teve que fazer. “Eu nunca dancei tanto na minha vida quanto tive que dançar para Burlesque”. E ela também teve que atuar. Ela recebeu a ajuda de Cher – para quem disse, assim que a conheceu, que “é, eu sou a garota que queria beber a água em que você toma banho”. Então, foi um bom começo? “Nós tivemos bastante momentos de garotas, ao ponto onde ficávamos horas num sofá conversando enquanto pessoas gritavam “Ei, já é de manhã e temos que terminar essas cenas!”. Christina ri, então fica séria para explicar o quão grata ela é por Cher ter explicado “sobre entrar de verdade na cena, se manter focada e olhar no olho de quem faz parte do diálogo”. Christina prova esse aspecto, olhando no meu olho enquanto fala: “Eu costumo ficar muito introspectiva e me perder nos meus próprios pensamentos. Ela me ensinou a me conectar mais com a outra pessoa”.

Ela se relacionou com a sua personagem, que levou a vontade de fazer sucesso além da cidade do interior. “Eu sempre soube bem exatamente o que queria fazer”. E se as pessoas têm ideias próprias do que Christina deve fazer, sinto-lhes informar, mas ela não está dando ouvidos. “Eu aprendi essa lição bem cedo, porque eu fazia muito sucesso comercial com meu primeiro álbum, mas me senti miserável enquanto o promovia, porque não vinha de mim. Foi parte da explosão pop que parecia muito manipulada. E eu não sou uma marionete”, ela diz. “Eu gosto de fazer o que tenho no coração, então toda essas coisa bonitinha e fofa não é o que gosto de passar”.

E enquanto Christina continuará a surpreender os fãs com os próximos álbuns – colaborar com Bjork está na lista dos sonhos – é seguro dizer que os devotos ficarão satisfeitos com a voz crua de Christina detonando as melodias de Burlesque, e irão apreciar os planos para o próximo álbum. “Eu acho que nós voltamos a fazer um material mais profundo, no estilo de quando eu gravei meu álbum Stripped, que foi muito pessoal e mais introspectivo.

Christina boceja (e eu não levei para o lado pessoal, afinal, ela tem que voltar para a vida dela com o marido, o filho, um álbum para gravar, um filme para promover e livros de recortes para criar). “Tem tanta coisa que eu ainda quero conquistar”, ela diz. “Eu acho que isso é algo que eu digo a mim mesma para me manter com aquela fome. Eu tenho metas altas e sou extremamente perfeccionista. Eu gostaria de fazer mais filmes e sinto que ainda não alcancei o tipo de sucesso que desejo”. E será que algum dia será suficiente? “Tenho certeza  que existirá um momento que eu ficarei em paz, sabendo que conquistei bastantes coisas”. Então, Christina sorri como se já tivesse em paz, por ter conquistado isso tudo. “Eu espero estar como uma senhora velhinha, sentada e balançando em uma cadeira, pegando todos os meus prêmios, troféus e fotos de meus netos, e curtindo eles”. E com isso, ela fica de pé, se afasta do espelho até passar pelas cortinas vermelhas enormes, o mago de seu próprio Oz, para criar a próxima grande produção.


Voltar para Revistas – 2010 e 2011


Anúncios