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Christina Aguilera: a garota suja dá o troco

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
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GAROTA SUJA SE LIMPA
De princesinha do pop para símbolo sexual para pinup, Christina Aguilera tem uma carreira de reinvenções. Mas com um passado turbulento e um bom homem do lado, a garota de ouro está indo de volta ao básico.

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DOR É GRATIFICANTE, em todas as capacidades”, Christina Aguilera me diz depois de passarmos dois dias juntos. Ela está falando sobre a agulha de um tatuador – ela fez uma nova tatuagem para celebrar o casamento no último mês novembro – mas o interesse da Christina em dor, e prazer, está bem documentado. Eu demorei  para criar coragem e perguntar sobre o piercing genital dela. É fascinante que Christina Aguilera tenha se submetido a isso. É um ato impensado de coragem que fala muito sobre quem ela é – essa garota de destemida, sensual, única e durona. Quando eu menciono o assunto, em um restaurante em Hollywood, os olhos de Christina rodam na órbita enquanto ela gentilmente coloca a língua na ponta dos dentes. “Eu tenho uma tolerância alta para dor”, ela comenta, “Mas aquele piercing me trouxe prazer”.

Christina não perdeu essas peculiares características, mas a peça de diamante que ficava no meio de suas pernas foi removida – está em um arquivo, catalogada junto das calças de cowboys e das lingeries ousadas da obscura e introvertida fase de “Dirrty”. Nada disso é mais necessário. Inspirada pelo amor de uma vida inteira que sente pelo soul, blues e jazz, e pelo próprio casamento, Christina, 25 anos, passou muito dos dois últimos anos vivendo sob a alegria mútua de satisfação pessoal e profissional que ela tanto buscou por anos.

Christina fala de maneira calma e aberta. Igualmente, raramente me olha nos olhos. Quando ela conversa – em tons baixos que mostram o contentamento que ela buscou tão arduamente nos últimos anos – os olhos vasculham o ambiente. É claro que ela confia no que ela está falando; é menos claro se ela confia com quem ela fala. Ela usa duas expressões com bastante frequência: “e tudo mais” (algo que serve para preencher qualquer espaço em qualquer contexto, como “Eu cantava e fazia minha danças, e tudo mais”); e “amor” (um refrão sempre repetido, aplicado para as seguintes situações: pessoas coloridas, vasculhar a coleção de CD de outras pessoas, trilhas sonoras de Danny Elfman para os filmes de Tim Burton, bagunças organizadas, separador de rótulos, assistir as reprises de Roseanna no Nick at Nite e – mais frequente – o marido, Jordan Bratman).

Quando Christina atingiu o ápice do sucesso aos 19 anos, com Genie In A Bottle, ela se sentiu presa em todas as regras do pop adolescente. Ela se rebelou no segundo álbum, Stripped, participando da composição de 14 das faixas, se envolvendo na produção, empurrando limites sexuais e se transformando no escandaloso alterego Xtina. Nesse caminho, foi amplamente criticada por se vestir como uma vagante de rua e – na memorável representação de um dos quadros do Saturday Night Live – por constantemente sacudir a “armadilha gulosa de homens”. Mas enquanto os ataques pessoas se tornavam populares, sua música fez sucesso. Stripped vendeu mais de 9 milhões de cópias no mundo, e o single influencidado no hip-hop, Dirrty, foi seguido de Beautiful, a balada que fala que “palavras não podem me derrubar” acompanhada de um vídeo que comentou sobre problemas com o corpo e a identidade secual. O mundo começou a perceber que Christina não era qualquer uma.

O novo lançamento, Back to Basics, é um CD duplo cheio de novos truques em que ela acrescenta um toque único e moderno à música negra que ela cresceu escutando, e se estabelece como uma garota pinup com paixão pelo antigo glamour de Hollywood. Foi durante a turnê mundial do Stripped que Christina estabeleceu o plano para o novo visual e som, que ela descreve como uma “tentativa de perceber o que me faz querer dançar, cantar, amar, apreciar, sentir e criar música.”.

Ela achou esse lugar em festas em churrascos na cidade em que cresceu. Christina passou parte da infância em Pennysylvania, Texas e Japão – onde quer que seu pai, Fausto, fosse designado pelo exército. Os pais se divorciaram quando ela tinha 7 anos. Ela contou sobre o abuso que passou em uma canção do Stripped, “I’m Okay”. Música era a forma de lidar com as dores da vida – aos dois anos, ela já alinhava os bichos de pelúcia para cantar para eles. Às vezes, ela aumentava o tom para tampar o barulho dos pais brigando.

Depois do divórcio, Christina, a irmã mais nova Rachel e a mãe se mudaram para a casa da avó, Delcie Fidler, em Rochester, Pennysylvania, um pequeno subúrbio em Pittsburgh. “Minha avó foi a primeira a perceber que cantar era algo que eu fazia o tempo todo”, diz Christina, “algo que eu amava. Para mim, minha voz e música foram sempre uma escapatória. Crescer em um ambiente instável e tudo mais, música era minha maneira de fugir.”

Quando Christina começou a cantar em pública, a vó Delcie se impressionava com a reação chocada da plateia ao ver Christina entonar canções anos além da sua idade – músicas dos repertórios de Billie Holiday, Otis Redding, Ella Fitzgerald e Pearl Bailey. “Tem muito conteúdo nesse tipo de música”, Christina fala. “Eu me conectava com aquela espécie de sofrimento. E eu me relacionava com isso desde uma idade bem jovem”. Christina e Delcie viajavam para Pittsburgh para vasculhar lojas antigas em busca dos vinis recheados de soul e blues. Christina aprendia as músicas imediatamente e cantava em uma máquina de karaokê para a avó, que listava uma série de críticas construtivas. “Ela sempre me falava para ir mais fundo em mim mesma”, ela lembra feliz. “Se eu aumentava o tom muito perto do microfone, ela falava, ‘Finja que seu pai está dormindo ali no sofá e você não quer acordar ele’. Ela sempre me dava algo para pensar. Até hoje, ela considera essa música como “a música divertida” dela”.

Assim que a turnê Stripped acabou, Christina sumiu do olho do público. Sem ver ela na TV ou nos noticiários, a avó ligou para perguntar o que tinha acontecido. Christina estava vivendo uma vida mais discreta, metodicamente planejando o retorno aos holofotes. Ela também estava passando tempo com o marido, Jordan Bratman. Mas logo ela compilou um CD duplo de músicas que ela cantava no passado para ajudar a definir o som que os produtores deveriam buscar. Os discos tinham desde “Boogie Woogie Bugle Boy”, das Andrew Sister, até “I Put a Spell on You”, cantada por Eartha Kitt e a versão de Nina Simone. Também tinha Tramp, de Otis Redding e clássicos mais modernos como “Ex-Girl to Next Girl” do Gang Starr e “Get ed Up With Me” do Xzibits.

Ela enviou os dois CDs aos produtores com um objetivo: “É hora de fazer um álbum mais soul. Eu quero o sentimento do antigo com a ousadia das batidas modernas”. Ela também sabia que não queria recorrer à rota óbvia de usar produtores hiphop em alta, como Kanye West ou Timbaland, porque ela achou que eles faziam batidas em interesse na capacidade vocal de quem canta. (“Rappers não precisam de muitas variações no instrumental para fazer o som sair certo”, ela diz.). Ela precisava de alguém que reagisse à inspiração colecionada nos dois CD.

DJ Premier do Gang Starr entendeu tudo o que ela planejava. “Eu descobri que ele usou pequeno strechos de “I Put a Pell on You” para fazer a “Kick in the Door”, do Biggie. Muita gente nunca pensaria nessa possibilidade. É coisa de gênio.”. Ela começou a trabalhar com ele e com a velha colega Linda Perry, que escreveu e produziu faixas para o Stripped. Não demorou muito até Christina ver o projeto se desenvolver em dois caminhos distintos: As músicas rápidas de Premier, criadas com máquinas de bateria e pedaços inusitados de outras músicas; e a dinâmica instrumentação ao vivo de Perry, incorporando cordas, saxofones e até um coral gregoriano. Quando as faixas foram tomando forma, Christina decidiu que o álbum seria duplo.

“A gravadora disse que um CD duplo era um erro imenso”, disse Perry. “E ela disse – ‘Não me importa’. Se o álbum falhar ou for bem sucedido, ela vai ter que viver com essa decisão nas costas. Tudo o que eu sei é que esse trabalho não parece com nada lançado no mercado – ela não escolheu o caminho mais seguro. Isso, para mim, já significa que o álbum é um grande sucesso.”. Christina tenta fazer a discussão com a gravadora parecer menos séria, como ela faz com todas as discussões atuais que tem, na busca por paz de espírito. Mas é claro que houve um confronto direto com o presidente do selo, Clive Davis. “Definitivamente, eles hesitaram no início.”, Christina conta. “Como uma decisão comercial, é como se eu estivesse atirando no meu próprio pé, lançar um disco duplo. Foi uma conversa muito longa, mas no final, Clive achou que eu merecia. Então fizeram do meu jeito.”.

Christina é a produtora executiva de Back to Basics, e ela assina a composição de todas as 22 faixas. “Ninguém fala o que ela deve fazer.”, diz Perry. “Ela está tomando todas as decisões”. Músicas como Makes me Wanna Pray, Slow Down Baby e o primeiro single, Ain’t No Other Man, são inspiradas pelo companheiro Bratman. Oh Mother é um testamento à mãe, que tirou as filhas de um relacionamento abusivo com o pai. Back in The Day elogia Etta James, Lady Day, Coltrane e Aretha da mesma forma que Stevie Wonder faz na música “Sir Duke”, comentando de Ellington, Ella, Basie e Satchmo.

E aí, no meio do nada, tem uma faixa de ataque chamada F.U.S.S., uma pequena mensagem de “f-ds” ao produtor Scorr Sortch, que produziu 7 músicas no Stripped mas não participou desse novo álbum. Depois de citar quase todos os hits que fizeram juntos, Christina esfrega Back to Basics na cara dele, terminando a música com o verso “Parace que eu não precisei de você/Consegui lançar esse álbum”.

Quando eu pergunto sobre isso, ela está surpresa que eu consegui decifrar sobre quem a música é. “Eu escrevo essas coisas pessoais porque é como terapia para mim”, ela conta. “Eu não quero começar nenhuma guerra. Eu realmente estou em paz e feliz. Não foi escrita para ninguém. Eu nunca daria tanto crédito para alguém dessa forma. Eu só precisava desabafar.”. Eu conto para ela que Storch recentemente reclamou na Rolling Stone que Christina não queria mandar um jatinho particular buscar ele, a equipe e os equipamentos e levá-los até Los Angeles para trabalharem em Back to Basics. “Um jato particular?”, ela comenta baixo. “Eu achei que ele era um dos grandões da música”. Apesar das evidentes mudanças, um pouquinho de drama nunca está longe demais.

Mas chega de drama e tudo mais. De volta ao assunto da vez: Back to Basics. Christina gosta de beber, e usou o álcool como arma secreta nas sessões com Linda Perry. Em “Save me from myself”, outra faixa para o marido, Christina queria um timbre rouco e vulnerável. “Nós bebemos Makers Mark nessa.”, ela diz. Outras faixas pediam algo que soltasse as cordas vocais. Às vezes, ela só ficava conversando até altas horas com Linda Perry, enquanto tomavam vinho. (Christina é uma coruja e odeia as manhãs, preferindo dormir nesse horário se a agenda permitir.). Mas quando era hora de trabalhar, Christina se dedicava totalmente. “Na hora de nos divertir, nós nos divertíamos – tivemos várias noites só para beber vinho e conversar), diz Perry. “Mas ela sempre se mantia calma e em foco”.

Durante as gravações, Christina chocava a veterana Perry com seu requinte musical. “Ela não toca nenhum instrumento, mas sabe explicar precisamente o que tem em mente”, Perry conta, adicionando que a ambição da Christina constantemente a motivava. “Eu nem sei de onde parte dessas músicas saíram. Quando nós estávamos gravando Candyman, eu morria de rir. É música swing com uma batida hip hop! Quando essa música for lançada como segundo single, as pessoas vão imaginar “Que p é essa? É incrível!””. Perry também diz que as aspirações da Christina vão décadas além do Back to Basics. “Ela tem um plano imenso em mente, e sabe exatamente como ele é. E eu sei que daqui a vinte anos, as pessoas vão falar dela como falam de Aretha, Nina Simone e Billie Holiday. Ela sabe que para fazer isso, ela tem que ousar.”. Pense o que quiser do Back to Basics, mas é impressionante ver Christina e toda a ambição que ela tem. Ela pensa na imagem, conceitualiza o disco, e acompanha de perto todas as facetas da produção até a montagem do encarte do álbum – é um perfeccionismo controlador digno de ser comparado ao da Madonna.

No dia anterior ao nosso encontro, Christina recebeu a primeira cópia finalizada de B.T.B., “com o papel de plástico em volta, o adesivo na frente, tudo”, e fez ela transbordar de orgulho. Quais as expectativas? “Eu não gosto de comprar meus álbums de projeto para projeto”, diz Christina. “Eu só espero o melhor. Espero que as pessoas ouçam com a mente aberta. Espero que ele as transporte para outro lugar. Mesmo que seja só durante três minutos de uma música.”.

Christina não consegue descrever a paz que tomou conta dela nos últimos anos. Na última capa para a Rolling Stone, em 2002, Christina cantava sobre os prazes do sexo casual – literalmente, em uma música chamada “Get Mine, Get Yours” – e ela dá gargalhadas altas quando eu lembro que ela disse que os namorados ideiais eram os “caras com recheio”.  Se ela procurava recheio, estava em sorte. “Eu consegui um bom rapaz judeu!”, ela diz de Bratman, com os dentes arregalados.

Christina e Bratman se conheceram em Atlanta, quando ela estava no estúdio trabalho em Stripped; ele trabalhava para os empresários dela. “Eu estava pronta para desistir dos homens”, ela diz. “Naquela época, eu nunca tive uma figura masculina positiva, nunca. Construí vários muros em torno de mim. Mas Jordan insistia em provar para mim que ele estava do meu lado.”. Ela lembra da época do Stripped como “um caminho difícil, com piercings e etc.”. Além da turbulência de uma infância tumultuada e homens problemáticos, ela também estava lidando com as consequencias de trocar o time de empresários, porque considerava que os antigos gananciosamente forçavam ela a trabalhar mais do que conseguia apenas para lucrar na onda pop da época. “Naquele ponto, eu simplesmente cansei, em todos os sentidos da palavra”, ela conta. “Eu estava passando por muita pressão pessoal. Até quando pintei meu cabelo de preto. Eu estava em um lugar negro, escuro.”.

Bratman estava um pouco afastado disso tudo. Ela escreveu uma música no Back to Basics sobre como ela finalmente cedeu a ele, chamada de Understand. “Tinha muitos muros para escalar/Se você realmente queria ser meu”. Ele nunca a negou, tornou-se amigo confidente e único ombro onde ela chorava. Logo, o par estava inseparável. Uma tatuagem no antebraço esquerdo diz, em espanhol e hebraico, “I amo J.B., sempre”. “Essa eu fiz no começo da turnê Stripped, bem no início do nosso relacionamento”, ela diz antes de se virar e abaixar um pouco das calças para me mostrar a última de todas as tatuagem, no final das costas. “Essa é minha tatuagem de casamento, Em hebraico, diz ‘Eu sou o meu amado, e o meu amado é meu'”.

Os dois se casaram em Napa Valleu, na Califórnia, em uma cerimônia emotiva. Ela se considera mais espiritual que religiosa – “Eu acredito em Deus, e sou muito conectada com minha alma”, ela diz – por isso, não se importou em fazer uma cerimônia judaica. Possivelmente pela primeira vez na vida dela, ela estava desengonçada na pista de dança. “Nós dançamos a hora, e eu não tinha nenhuma noção do que estava fazendo. Mas ser jogada pelas cadeiras no alto foi uma das coisas mais divertidas do mundo!”. Christina se considera a metade mais sortuda da dupla. “Eu não me namoraria”, ela diz.

Eu pergunto a ela como ele é. “Ele tem um calor superconfortável e honesto nele.”, ela conta. “Eu tenho tantas variações de humor, mas ele sempre consegue me segurar e me tirar das crises.”. Ela está em um lugar melhor, mas mesmo com o marido do lado, ainda tem alguns pesadelos. “Alguns são muito violentos”, ela comenta. “Outro dia, eu sonhei que estava presa sob a mira de uma arma. E um muito bizarro que eu tive mostrava animais arrancando a pele uns dos outros. Foi muito explícito, insano”. Então ela foi atrás de um livro de interpretação de sonhos. “Eu não sei porque, mas o livro disse que um desses sonhos significava que eu estava destinada a ser alguém grande. Com o álbum sendo lançado, me deixou muito feliz”. (Eu perguntei aonde eu consigo encontrar esse livro estranhamente otimista). Independente da forma como você interpreta os sonhos, é claro que Bratman a resgatou de um lugar profundamente escuro, onde ela sempre se colidia com ela mesma.

 Ela também é muito protetora. Na primeira vez que nos encontramos – na boate Deux em Hollywood – eu perguntei se Jordan se juntaria a nós. “Só se você for legal com ele”, ela disse cuidadosamente. Essa noite, nós fomos jogar minigolf na varanda deles (ela e Bratman alugaram um duas noites antes de eu ir até lá, para uma festa de aniversário de um amigo). Christina adora esse tipo de diversão nerd e passa várias noites jogando jogos de tabuleiro com a família ou os amigos.

Enquanto o motorista dela vai até à limosine pegar uma garrafa de champagne que nós compramos, Jordan faz um ponto, e Christina sorri. Ele se solta lentamente, não muito, mas é obviamente um rapaz cuidadoso, confiante, e como todo bom parceiro, tenta mudar o placar uma ou duas vezes para fazer ela ganhar alguns pontos. Já passava da meia noite, e os recém casados correm como crianças. No vigésimo buraco do minigolf, quando o jogador deve girar um grande pilar, eles se abraçam. Enquanto eu preparo minha tacada, eles cochicham algo e ela dá um leve beijo nos lábios dele. Naquele pequeno momento, atrás do pilar, eles têm o mundo inteiro para eles.


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