Revistas / 2007 / Nylon (Abril)

A Nylon é uma revista com foco em moda e cultura pop voltada para o público feminino

Christina Aguilera: linda garota sujinha

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
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AGENT PROVOCATEAUR – Christina Aguilera, um prazer a ser escondido? Não mais.

“Suja. Imunda. Safada. Suja demais para me limpar”, a voz sussurrante de Redman declara enquanto as lentes de David LaChapelle dão um close na traseira de Christina Aguilera, que está coberta apenas por uma faixa de lycra vermelha emoldurada pelas famosas calças cortadas de couro, que inspirariam inúmeras manchetes. A câmera segue ferozmente a minúscula popstar enquanto ela entra em um clube de luta underground, assistindo ela correr em uma moto duas vezes maior do que ela, atravessar um pavimento com disturbiantes poças turvas de água e competir em um round de luta com uma competidora mascarada, tudo com uma bravura agressiva, desafiadora e masculina.

O vídeo de Dirrty causou controvérsia na imprensa em cima da supostamente inocente estrela pop, todos comentavam sobre o que havia se tornado a não-mais adolescente do Clube do Mickey. Agora, quase cinco anos depois, Aguilera se mantém sem pedir desculpas a respeito deste assunto.

“Dirrty foi minha forma de expressar minha maioridade”, diz uma decidida Aguilera às sombras da fraca luz da nossa mesa, em um canto no bar do Hotel L’Ermitage em Beverly Hills. “Foi uma música sobre estar livre das inibições e simplesmente liberar o que tinha dentro de mim, sem amarras. Eu me diverti tanto naquele clipe, e me senti tão no poder. Se alguma coisa, eu olho para ele e percebo que independente da sua opinião, se você amou ou odiou, as pessoas comentavam”.

Aguilera não se intimidade em levantar as sombrancelhas de algumas pessoas, e na verdade, a vontade que ela tem em fazer isso à torna facilmente comparável à Madonna, cujo nome aparece repetidamente no curso de nossa conversa. Pensar que um par de calças cortadas e uma luta livre em biquini poderia espantar as pessoas depois de Madonna ter beijado um Jesus negro em Like A Prayer e brincado com todas as formas andrógenas em Justify my Love é chocante por si só. Mas com Aguilera, o choque não foi causado apenas por uma transformação física, mas pela teórica queda da inocência. O que tinha acontecido com a adolescente beijada pelo Sol, movimentando o quadril na praia para o vídeo de Genie In A Bottle?

Bom, de acordo com Aguilera, essa garota praticamente não existia. “Eu me sentia tão reprimida e trancada dentro daquela imagem, pelas pessoas que estavam à minha volta me controlando”, ela explica. “O pop estava em uma explosão imensa na época em que eu apareci no cenário musical. Todo mundo dizia o que você tinha que fazer, vestir, falar e como tinha que ser. Foi demais para mim, depois de um tempo”.

Com o lançamento do segundo álbum, Stripped, Aguilera estava determinada a se afastar o máximo possível da imagem grudenda e limpinha em que ela estava confinada na estreia. Ela certamente foi bem sucedida ao criar um absimo entre as duas imagens, e apesar das críticas públicas que ela teve que suportar em razão da ousada escolha de estilo na era Stripped, poucos podem negar a qualidade das músicas. Can’t Hold Us Down foi um hino do estilo ‘arrebente, garota!’, aparentemente em resposta às baboseiras que eram ditas por figuras públicas atualmente irrelevantes como Carson Daly e Fred Durst; Walk Away trazia uma noção íntima do estilo blues que tomaria o palco central no álbum seguinte; Singing My Song era uma desafiadora de várias oitavas, e Beautiful, a comovente simplicidade e honestidade escrita por Linda Perry que foi escolhida como uma das 10 músicas mais tristes da história, segundo Dr. Harry Witchel, pela habilidade em levar a maior parte das pessoas às lágrimas. Mas como Aguilera aponta rapidamente, “Eu não sou a mesma pessoa que lançou Genie, e depois Dirrty”.

Uma olhada para Aguilera hoje e o fato é claro. Se foram os 9 piercings (pelo menos os visíveis) que a Rolling Stone já tentou mapear. Se foram as sombrancelhas desenhadas e escuras e os lábios permanentemente brilhosos com gloss. Se foram os longos apliques loiros com destaques pretos. Se foi, bem, Xtina.

Pessoalmente, Aguilera é surpreendentemente delicada – ao cumprimentá-la com aperto de mão, eu me senti um urso pegando a pata de um pequeno cachorrinho – e apesar da grossa camada de maquiagem, ela é muito bonita. Os cachos soltos são de um tom entre o champagne e o alabastro, os olhos turquesa contornados por cílios tão longos que fazem sombra na bochecha, e muito embora os lábios delam pareçam estar permanentemente vermelhos ultimamente, hoje eles estão ao natural.

Mesmo vestida casualmente, salvo pelos saltos Louboutins escarlates marcando presença debaixo dos jeans, uma camiseta branca e um cardigã argila, ela ainda exala um senso de glamour da antiga Hollywood – uma Jean Harlow dos tempos modernos, que certamente faria parte dos sonhos molhados de Vargas.

Ao conversar com Aguilera, você percebe que ambos os estilos musicais e pessoas estão evoluindo. Para cada álbum, ela parece entrar em uma nova personagem, que se desenvolve com o tempo – no curso de uma carreira de 9 anos, ela lançou apenas 3 álbuns. “Eu acho que para fazer algo realmente especial e de coração, eu preciso gastar um bom tempo com ele”, ela diz. “Eu não quero atrapalhar o resulto final porque apressei tudo para deixar a gravadora feliz ao ter algo para vender. Eu gosto de parar por um minuto para conhecer a mulher em que eu cresci entre um trabalho e outro. E para esse, em particular, eu quis pesquisar e mergulhar de cabeça naquele mundo, eu realmente quis explorá-lo inteiramente e viver nele. Não só cantar as músicas, mas fazer parte dele”.

O resultado do tempo e pesquisa de Aguilera foi, obviamente, o bem recebido Back to Basics, um álbum duplo profundamente envolvido com vintage jazz, blues, e cantoras de soul que o influenciaram – música que a recém falecida avó dela (“uma senhora feroz”) a apresentou quando pequena – mas não apenas pela nostalgia. “Eu amo a riqueza e o tom destes discos antigos”, ela diz. “Naquela época, você tinha que conseguir tocar as pessoas puramente com o som e qualidade da sua voz”. Algo que, na indústria de hoje, não passa de um conceito novelista. Billie Holliday e John Coltrane são tão mencionados em álbuns pop modernos quanto o nome de Etta James em um episódio do TRL.

“Quando eu fui estrear meu clipe no TRL, eu olhava para a plateia pensando, ‘meu Deus, será que eles vão me entender?'”, Aguilera conta. “Foi um pouco louco, mas foi especial poder mostrar para aqueles meninos um pouco desse som antigo, de uma nova forma”.

O som distinto desse álbum é cortesia de alguns produtores, notadamente DJ Premier e Linda Perry, recrutados para fazerem a visão de Aguilera uma realidade. Premier, melhor conhecido pelo trabalho com Gangstarr e Notorious B.I.G., trouxe um toque hip hop e sinsível aos vocais massivos e bakground soul de Aguilera, melhores mostrados na comercial Ain’t No Other Man  e em Back In The Day.

O segundo disco pertence inteiramente à produção da atualmente cobiçada Linda Perry, que contribuiu para as perfeitas baladas que se tornaram sua assinatura, e para harmonias do estilo anos 20, 30 e 40 inspiradas no ritmo burlesco. Hurt é tão bela e honesta quanto Beautiful; os vocais abafados e os saxs em I Got Trouble fazem a música se sentir em casa nos anos 40; Save Me From Myself mostra que Aguilera também é capaz de conter a voz; e Candyman é uma homenagem moderna ao clássico das Andrew Sisters, Boogie Woogie Bugle Boy”.

Back To Basics pode ter empregado técnicas elementares de gravação, mas o longo resultado final está longe disso. “Eu não pretendia fazer um disco duplo”, Aguilera comenta. “Não foi uma decisão de negócios, mas sim criativa. Eu sabia que, em certo nível, iria dar um tiro no meu pé”. Porque? O fato é que, desde que Aguilera emergiu no cenário musical, a música e a indústria musical mudaram drasticamente. “Com o avanço rápido da tecnologia e com tudo tão facilmente acessível, você não precisa mais pagar pela música”, ela lamenta. “Por causa disso, os selos estão indo pelo ralo… fica tudo muito difícil para todo mundo. Olha, o primeiro lugar vendeu quantas cópias na semana passada? Seiscentos mil? É loucura, quando eu lancei meu primeiro álbum, os Backstreet Boys vendiam um milhão por semana!” Mas enquanto Aguilera está confiante que muitos fãs irão sempre procurar os trabalhos dela na forma completa – um CD de verdade com as anotações e encarte – ela está preparada para, pelo menos financeiramente, que eles não estejam.

Ela menciona estar interessada em atuar em um projeto que valha a pena, sem envolver somente interpretar ela mesma, e ainda acaba de assinar um contrato com a Proctor & Gamble, se preparando para entrar na multidão de celebridades que lançam perfumes. É um movimento que ela própria, apesar da inteligente e bem ensaiada resposta ao meu questionamente, parece estar levemente hesitante em dar – principalmente porque ela nunca foi alguém que entrou no meio da multidão, particularmente  com o estilo pessoal e música. Apesar disso, ela está bem ciente de que, apesar da prioridade ser fazer música, atualmente o dinheiro pesado vem com multi-tarefas.

O que é inquestionável é que Aguilera é uma garota esperta. Ela lidera nossa entrevista com a atitude de uma velha profissional – a confiança com que responde todas as nossas perguntas chega a ser desconcertante para nós, bem como a habilidade em seguir uma linha lógica de raciocínio, raramente permitindo pontos vagos para que eu possa interromper o fluxo de pensamentos dela. E discute feminismo e sexualidade com a mesma pose das músicas dela. Aguilera é, claramente, uma mulher com, bem, bolas. “Há um certo medo quando as mulheres ficam  muito confortáveis ou confiantes com a sexualidade”, ela diz. “As pessoas olham para elas com o nariz em pé. E é preciso um pouco de coragem para enfrenter esse tipo de críticas”.

A indústria musical é, certamente, recheada de comportamentos ambíguos – os movimentos pélvicos de Aguilera sempre irão ser olhados com um jeito denuncioso que não acontece com os colegas homens – mas é uma batalha que ela está disposta a lutar. “Eu sou ultra-sensitiva e tenho meus institos em alerta porque testeminhei muita merda acontecendo entre meu pai e minha mãe, e eu quis ter certeza de que eu nunca iria me sentir indefesa e dependente de um homem”, ela diz. “Por isso, eu coloco essa superconfiança na minha sexualidade, porque me sinto no poder e eu gosto de ter o controle de todas as facetas da minha vida”.

E é precisamente por isso que é difícil não prestar atenção em Aguilera – ela requer isso. E ao contrário da maior parte das cantoras pop, ela realmente merece isso. Quando ela chegou na cerimônia do Grammy Awards desse ano (onde ela ganhou o prêmio por melhor vocal pop feminino) por debaixo do palco, vestida em um terno branco, cantando It’s a man’s, man’s, man’s world, de James Brown, a audiência ficou absolutamente sem palavras. Apesar de outras como Mariah Carey serem capazes de contorções vocais semelhantes, Aguilera deu um toque a mais: colocou a alma lá.

Talvez esse seja o motivo dela ter seguido um caminho tão diferente da ex-colega de pop-com-umbigo-de-fora, Britney Spears. Quando elas apareceram, a imprensa rapidamente tentou colocar uma contra a outra em uma batalha falsa para a aprovação do público. E Spears – cujas alegações inocentes e declarações de virgindade eram mais fáceis de digerir – parecia ser a vencedora por um tempo – duas mulheres beijaram Madonna na televisão, mas só uma era comentada no dia seguinte.

Mas a obssessão de Spears com a própria imagem, que sempre superou a música dela de qualquer forma, acabou causando sua queda, e hoje, quanto mais ela se expõe – figurativa ou literalmente falando – mais se esvazia o interesse público. Além disso, mesmo quando Aguilera estava cantando sobre gênios na garrafa quando era adolescente, sempre foi claro que a voz dela tinha riqueza e poder que as outras estrelas pop não tinham nem como chegar perto.

Parece que, com o passar dos anos, Aguilera entendeu uma lição que Madonna aprendeu anos antes – os artistas mais famosos nem sempre são os mais gostados. Além disso, que provocar é o que faz uma grande artista. E Aguilera vai estar preparada para isso, com o instinto em alerta.


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