Revistas / 2006 / Allure (Setembro)

A Allure é uma revista de dicas de beleza e moda voltada para o público feminino

Christina Aguilera: “Estamos na terapia, agora?”

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
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O QUE UMA MULHER QUER. Mesmo quando ela era apenas uma Mousequeteira, Christina Aguilera sabia que estava destinada a fama e a fortuna. A cantora só não sabia o quão difícil isso seria quando chegasse no topo.

“Ontem, eu estava escrevendo no meu diário – não quero parecer cliché – sobre como eu estou feliz com a minha vida por ter tanta gente positiva do meu lado. Eu esperei tanto por esse momento”, Christina Aguilera conta. “Eu sei que é um pouco triste dizer isso, mas é a verdade. E eu nunca fui o tipo de garota que mal podia esperar para se casar, mal podia esperar pelo vestido branco. Essa não era eu. Eu sempre senti que minha carreira vinha em primeiro lugar e nada iria me distrair. Esse é outro motivo que me levou a achar que eu não estaria casada aos 25 anos”.

Estranhamente, vestindo um casado de lã azul, a cantora parece exatamente o tipo de loira que, nos anos 40, suspirava por Frank Sinatra e sonhava com o vestido branco e o homem que, nos votos de casamento, concluiria por apoiá-la sempre e sempre. É um visual que ela cultiva: jeans abraçando um pequeno quadril, olhos alongados por uma fina camada de delineador, lábios vermelhos brilhantes. Tudo isso é calculado – não para transpirar romance, mas sim sua própria carreira: aquilo que sempre vem na frente para Christina Aguilera.

“Você deve ver os lábios vermelhos aparecendo em todos os lugares, porque eu amo esse glamour antigo, e é onde eu estou com minha música e criatividade. É divertido visitar este visual”, ela conta, ignorando a imensa tijela de sopa que pediu no restaurante Ivy, em Beverly Hills, um de seus favoritos. Ela gosta de interpretar um papel, ela diz, quando lança um novo álbum, como agora. Desta vez, é uma visão pessoal do estilo dos anos 20, 30 e 40, com um CD duplo de músicas originais, chamado Back to Basics. Daí, o visual retrô: o loiro loiríssimo na altura do ombro, enrolado para trás para revelar grandes brincos de diamante e uma bochecha branquinha.

No entanto, a aparência de Aguilera não é a única coisa que mudou. Também tem o gosto por homens, por exemplo: ela não se interessa mais pelo cantor nem pelo apresentador de TV, dentre outros. “Os homens deste meio tendem a se achar um pouco, ao menos os que eu conheci”. Desta vez, Aguilera conta, ela escolheu “um homem que não se intimida pelo que eu faço, o que é outro problema para uma mulher bem sucedida – encontrar um cara que saiba lidar com isso. É sério, um anjo veio até mim no dia que eu conheci Jordan”.

“Minha rocha” é como ela chama Jordan Bratman, de 28 anos, executivo que a conheceu há quatro anos em Atlanta. Mas, em momentos diferentes de nossa conversa, ela também o chama de “meu melhor amigo” e “meu terapeuta”. O tudo dela, em síntese. É uma expectativa com ramificações distintas que ainda não estão muito claras para ela.

O casal se casou em novembro, em um casamento em Napa Valley que custou estimados 2 milhões de dólares, preparada para não passar despercebida. Aguilera, em um vestido da alta costura de Christian Lacroix, segurando um rosário decorado com diamantes, trocou votos na frente de 130 familiares e amigos em um templo encomendado, com teto pintado à mão e detalhes brilhando a ouro. Já que “os feriados de inverno são os meus favoritos”, como a cantora me conta, candelabros com suportes de cristal iluminaram as árvores da decoração que compunha a parede; as mesas eram cobertas com hortênsias, amarílis e rosas banhadas em prata. Uma orquestra de 17 instrumentos tocou enquanto a própria Aguilera subiu ao palco para cantar At Last, a música que sua ídola Etta James fez famosa. “Ok, foi um pouco extravagante”, Aguilera reconhece com uma irresistível risada feminina (ela faz isso o tempo inteiro), “mas eu não fico preocupada com o preço das coisas”.

E quem a culpa? Por anos, a cantora tem escapado do passado – por um motivo excelente. “Acho que a experiência de ver minha mãe tão vulnerável e tão frágil na presença do meu pai, me ensinou a nunca parecer desprotegida na mão de um homem”, ela diz ferozmente. “Definitivamente me inspirou a pensar por mim mesma, fazer as coisas sozinhas e trabalhar para me sustentar. Eu queria fazer meu próprio dinheiro para nunca depender de homem nenhum”. E Bratman entende isso, eu pergunto à cantora.

“Sim, eu acho que ele entende perfeitamente”, vem a resposta. Então, ela repete essas palavras, balançando a cabeça. Aguilera é, como ela geralmente diz, honesta demais para segurar frases dóceis por muito tempo. “Bom, ele nunca poderá entender completamente, porque ele nunca passou por isso na vida dele”.

É SEMPRE CLARO para a mãe de Aguilera que o hábito da filha em “viajar”, mesmo com pessoas em volta, era mais do que sonhar acordado – era porque ela tinha, como sua mãe diz, “muita bagagem nas costas”. Na época em que o pai, um sargento equatoriano do exército chamado Fausto, começou a abusar da mãe, a jovem Christina corria para o quarto dela. Lá, colocava uma fita cassete da A Noviça Rebelde, o filme com Julie Andrews onde uma jovem mulher descobre que não está destinada a ser uma freira. “A música sempre era minha forma de escape da realidade”, Aguilera disse uma vez. Na verdade, você nunca teve uma infância, eu sugiro a ela. “Não, não tive”, ela concorda.

Eu ouvi que, quando você era criança, antes de seus pais se divorciarem, você viu as marcas da luva de seu pai no pescoço da sua mãe.

“É, foi muito difícil”, ela sorri, mas sem se divertir. “Estamos na terapia agora? Eu acho que quando você sobrevive alto tão traumático emocionalmente, como o que minha mãe e eu passamos, nós criamos um laço muito especial”.

Nada dava certo para a garotinha por um longo período. Não era fácil, por exemplo, ser Christina aos 12 anos: “Eu estava passando por mudanças físicas, e minhas memórias não daquela época não são nada boas, para não dizer coisa pior”. Da mesma forma, foi difícil para Shelly quando Christina se casou. “Nós duas estávamos tão acostumadas a sermos magoadas que ela ficou muito protetora”, Aguilera explica.

Para escapar das dores da infância, Aguilera jogava toalhas no chão da casa da mãe para formar um palco, e juntava uma série de gravetos para formar um set de microfones. Fora de casa, ela cantava em todos os lugares – festas locais, casamentos, festas de família. Aos oito anos, ela competiu no Star Search e perdeu. Aos 12 anos, ela estava na 7ª série da escola em Pittsburgh (onde outras garotas a achavam remotamente intocável) e, ao mesmo tempo, estava no Mickey Mouse Club da Disney. Ela nunca fez aulas formais de canto.

Foi sua primeira grande escapatória. Todo ano, de maio até outubro, Aguilera ia até a MGM da Flórida para gravar o programa da Disney, uma das 20 Mousequeteiras que colocava o coração no palco durante as músicas ou, alternativamente, que aprendia com os demais membros do elenco. “Todos nós somos unidos – somos como uma grande família”, Christina comentou uma vez, sobre o que a experiência significou para ela. Dentre aqueles que ela considerava parte da sua trupe da Disney: Britney Spears, que era bem próxima dela, e Justin Timberlake, com quem ela faria uma turnê no futuro. “Eu espero me tornar uma pequena Annette Funicello, porque ela conseguiu o que queria”, Aguilera contou a um jornalista quando ela ainda era adolescente. “Um dia, eu quero ser tão bem sucedida quanto ela”.

Ela não estava brincando. Ela contava para todo mundo que mal podia esperar pelo momento de fazer um dueto com, por exemplo, sua ídola Mariah Carey. Ela aguardava ansiosamente o momento de começar a andar na rua e ser reconhecida por todos. “Eu sei que muita gente odiaria isso”, Aguilera reconhecia na época. “Mas não eu. Eu esperei a minha vida inteira por este momento”.

Cinco anos depois, chegou esse momento com o lançamento do sucesso Genie In A Bottle”. Tudo era muito gratificante: aos 18 anos, ela estava mais do que pronta para a fama, reconhecimento e clamor público – e ainda assim, por debaixo daquela ambição e vontade, ela estava despreparada para o que viria. Ela percebe que não tinha, em dose suficiente, o que precisava para buscar apoio e suporte nas decisões que envolviam sua sonoridade.

“Eu tinha imensos problemas de confiança, não só com homens, mas com as pessoas em geral”, ela relembra. “Especialmente por ter alcançado sucesso bem nova, você vai ter um monte de cobras ao seu lado. Pessoas que querem tirar de você tudo o que conseguirem tirar. Pessoas que se aproveitam. Eu já tive tanta loucura ao meu redor…”, ela suspira infeliz.

Um dos elementos do sucesso precoce que mais incomodaram Christina era a imagem de garota bonitinha, criada pela equipe e pela gravadora. “Eu tinha que ser jovem e inocente. Não podia ser nada além de” – ela sorri amarelo – “provocante mas bem comportadinha, ou queridinha com um toque de sensualidade com a barriguinha de fora, que era o que estava em alta na época. Foi divertido. Nas primeiras semanas”. Outro suspiro.

Crescer na indústria da música, como Aguilera aprendeu, significa “sempre ter que ir contra o fluxo, dando minha opinião para homens 20 anos mais velhos do que eu. Até hoje! Eu ouço uma música do produtor, e se não tem o que quero, digo ‘Não!’. Ela olha desconsolada para a banana split que apareceu na nossa mesa (“Eu gosto de banana em qualquer sobremesa”, foi um comentário que ela soltou antes de pedirmos nossa comida). Mas, mais uma vez, ela não come quase nada.

Vai entender. Aguilera parece estar plenamente no controle da sua aparência, roupas, peso, arte. Alguns problemas com pessoas que trabalharam com ela no novo clipe causaram a ela um pouco de ansiedade. “É muito difícil, as vezes!”, ela diz enfática. “Eu estou nessa há muito tempo, e eu sei como gosto da iluminação em mim! De qual ângulo me filmarem! Quais ângulos não são bons. Foi um pouco de batalha, às vezes. Um homem que é mais velho do que eu não é suficiente para abafar a opinião de uma mulher pequenina de 25 anos!”. Ela pensa sobre o que disse. “Garota pequenina!”. Outra pausa. “Não, mulher! Era garota quando eu tinha 18 anos. Já paguei minhas dívidas”.

MAS CONVENHAMOS. Até mesmo os homens com idade próxima e bem mais despreocupados causaram dor de cabeça em Aguilera. Tem algo naquela voz forte se libertando daquele corpo feminino que enloquece esses caras. Veja Eminem, que acusou Aguilera de ser a vadia de um trio de garanhões famoso: Fred Durst, do Limp Bizkit, Carson Daly e, é claro, o próprio e grandioso Eminem.

Humilhada, mas em controle, Aguilera respondeu com a eloquente música Can’t Hold Us Down. “When a female fires back / Suddenly big talker don’t know how to act / So he does what any little boy would do / Making up a few false rumors or two / … You must talk so big, to make up for smaller things”.

Ela pensa um pouco sobre isso, agora, especialmente porque suas várias incursões em novidades geralmente foram acompanhadas de críticas, cinismos e controvérsias. Algumas dessas experiências foram, verdade seja dita, bem bobinhas. Calças cortadas, cabelão afro, tranças brancas – Aguilera fez de tudo para apagar a imagem de garotinha engraçadinhas e fofinha que marcou na mente de todos. “Eu gosto também de me expressar pela sexualidade”, ela conta. “Quando lançamos Lady Marmalade, foi a primeira vez que fizemos um clipe mais provocante. Foi uma grande festa a fantasia e foi divertido ser confiante, e exibir sua sensualidade de forma poderosa e feminina”.

Mas a cantora não sabia que essa forma “mais feminina” afetou um monte de homem. “Quando uma mulher quer provocar ou ser sensual, ela é criticada e xingada de vários nomes”, ela continua. “Mas, sério! Qual o nome que se dá ao homem que quer ser sexual ou até mesmo explícito? Não existe nenhum. Nada como os nomes dados às mulheres”.

No entanto, não dá só para culpar os homens, Aguilera acredita. “Digo, o que tem na cabeça das garotas? Sempre sentindo a necessidade de competir com outra?”, ela pergunta. “Um dos meus vários objetivos é tentar e ajudar as mulheres se gostarem. Eu acho muito triste que as mulheres sentem a necessidade de ser tão competitivas, invejosas e ameaçadas”.

O que nos leva a um, hmm, pequeno momento de desamores entre Aguilera e sua ex-ídolo, Mariah Carey. Sobre a cantora, Aguilera recentemente disse em uma entrevista para a revista GQ:  “Ela nunca foi legal comigo. Ao ponto de estarmos em uma festa uma vez e eu acho que ela bebeu demais, e começou a falar coisas muitos pesadas para mim… Mas foi naquela época em que ela estava tendo aquele colapso, então podia estar muito medicada” (Mariah respondeu que Aguilera não foi convidada para a tal festa, mas que a perdoava e a “manteria nas minhas orações”).

Me parece que Mariah não foi inteiramente legal com você, Christina? “Não, ela não foi legal comigo. Mas honestamente, eu não quero mais dar atenção para ela ao sequer comentar sobre isso”, ela diz segura. “Como eu disse, minha honestidade é meu grande problema”.

E quando você disse tempos atrás, quando tinha somente 13 anos, que queria demais a fama? Que a queria de toda a forma, independente das críticas? Isso ainda é verdade? Um discreto balançar de cabeça. Ela não hesita hora nenhuma. “Se eu voltasse no tempo, francamente, diria a mesma coisa”, ela responde. “Eu estaria pronta demais! Ainda estou! Ainda não estou completamente satisfeita – nunca vou perder isso”.

Os lábios vermelhos se partem em um sorriso. “Enquanto eu gravava meu novo álbum, eu tirei da prateleira todos os prêmios que já ganhei. Porque queria manter a vontade. O foco. Quero muito conquistar isso novamente”.


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