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A Advocate é uma revista sobre estilo de vida voltada para homens e mulheres do público gay

Christina Aguilera: revelando segredos em sua primeira entrevista na Advocate

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
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Christina na intimidade – Em uma entrevista íntima, Christina Aguilera revela que já namorou um homem gay, divide a fonte da felicidade, e se posiciona a favor dos direitos de gays e lésbicas.

Christina Aguilera acabou de lançar o grande e ousado Back To Basics. Ela também está controlando a própria carreira, aproveitando o casamento, e defendendo os direitos dos amigos gays e lésbicas.

CHRISTINA AGUILERA também é capaz de te detonar em Donkey Kong. “Eu sou muito boa em video games!”, se gaba a cantora nascida em Staten Island e criada em Pennsylvania, entre goles de Pellegrino em um movimentado bar no Hotel L’Ermitage em Beverly Hills. “O pessoal vai até a minha casa depois de sairmos à noite para tentar ultrapassar meus recordes. Todos os recordes são meus!”.

Passe um tempo com Aguilera – depois de escutar o novo CD, Back To Basics – e você vai sair da conversa acreditando que a minúscula loira com os vocais poderosos pode fazer o que ela bem entender. E macaco nenhuma vai fazer ela parar. “Eu adoro absorver informações”, ela explica, apontando para um livro em cima da pequena mesa de café sobre o artista Alberto Vargas, que está servindo de inspiração para o próximo vídeo, Candyman. “Eu busco sempre me aventurar por novos caminhos. É difícil, às vezes, porque você está se preparando para que as pessoas te amem ou te odeiem, mas eu quero atrair esse risco”.

E se o assunto é se arriscar dentro do pop, Back to Basics é um vencedor: um álbum conceitual puro dividido em duas partes inspiradas por soul, jazz e blues. O primeiro disco traz sons e trechos retrôs mixados com batidas mais modernas; já o mais teatral segundo disco reune Aguilera com Linda Perry, a compositora-produtora por trás da balada vencedora do Grammy de 2003, Beautiful.

“Eles são meus bebês, meus gêmeos”, Aguilera comenta dos discos. “Eu quis usar elementos da música que me influenciaram, dos anos 20, 30 e 40, e reinventá-los com um toque moderno. Eu consegui fazer exatamente o que eu queria fazer”.

As letras de Back To Basics refletem uma Christina mais esperançosa, mais romântica, em grande parte por causa do casamento com o executivo Jordan Bratman, no ano passado. “Eu estava em um lugar muito pesado enquanto gravava Stripped”, Aguilera admite, referenciado o polêmico disco de 2002. “Com Back To Basics, eu me foquei em um espaço mais iluminado, mais leve da minha vida”.

Como se tivesse sido combinado, Bratman entra no bar para lembrar a esposa que eles têm uma reserva para jantar em alguns minutos. Aguilera sorri. Eles estão claramente enlouquecidos um pelo outro – mas de uma forma que parece sã, especialmente para os padrões do showbusiness. Antes de irem jantar, Bratman confirma que a nova esposa tem habilidades incríveis para o vídeo-game. Então Aguilera se põe de pé em sapatos que combinam com o batom vermelho e anuncia: “Eu tenho que ir ao banheiro, mas enquanto isso, Jordie pode falar no que mais eu sou boa – se você me entende”. Ao falar isso, ela dá um sorriso engraçado. Ela anda em direção ao banheiro e diz: “Eu estava brincando”. Uh-huh, tá bom.

O que tem na música antiga que te deixa tão motivada?
Ela é muito sincera. Tem conteúdo, coração e emoção. Quando eu era criança, minha mãe e minha avó quem me apresentaram à música. Nós costumávamos ir a lojas em Pittsburgh para ouvir discos antigos. Toda vez que eu comprava um disco antigo, eu corria para o meu quarto, colocava no aparelho e aprendia a letra imediatamente só para descer e dizer: “Vovó, já aprendi!”, e começava a cantar na nossa sala de jantar. Eu acho que também me conectei com a dor que aquela música transportava. Eu só tinha 6 ou 7 anos, mas já tinha lidado com uma quantidade absurda de sofrimento por suportar e observar o abuso e caos em minha casa. Eu me liguei com aquele tipo de música e sempre mantive isso comigo.

Você se lembra de cantar alguma música específica?
The Thrill Is Gone, do B.B. King, era uma que eu sempre cantava. Mas tinha algumas mais modernas, como Old Time Rock And Roll de Bob Seger, e eu cantei I Wanna Dance With Somebody da Whitney Houston no meu primeiro show de talentos na escola.

Como você se preparou para criar Back to Basics?
Eu juntei um CD de músicas que me inspiravam. Chamei ele de “pacote dos produtores” e escrevi uma carta que dizia, “Essas são as músicas que me inspiram. Por favor, ouçam elas, usem como referências, separem trechos, experimentem e entrem nesse mundo comigo”. Muita gente não entendeu o que eu queria fazer, mas quem conseguiu são os principais colaboradores nos dois discos. Na verdade, eu fiquei surpresa com a forma com que Linda (Perry) compreendeu tão bem. Ela mergulhou de cabeça e ouviu cada detalhe do que eu tinha a dizer.

Uma frase foi creditada à Linda dizendo que vocês duas só tiveram uma briga durante a produção desse disco. O que houve?
Oh, não foi nada. Não foi nem uma briga. Às vezes a gente fica cansada e quando chega no estúdio, principalmente sendo duas garotas, a gente desconta uma na outra, mas isso acontece com grandes amigas e é isso que grandes criadores fazem quando estão juntos. Eles baixam a guarda e o que sair de lá, saiu. São pessoas muito apaixonadas. Coloca a gente juntas em uma sala e vários humores diferentes vão se chocar.

Você acha que o fato de Linda ser lésbica ajudou nessa conexão de vocês duas?
Seria errado dizer que aconteceu por conta de um certo rótulo ou estereótipo, mas eu acho que é porque ela tem um passado difícil com algumas coisas que ela experimentou, que nem eu. Nós nos relacionamos.

Você se lembra da primeira vez que foi exposta aos gays?
Ah, nem me lembro. Eu aceitei imediatamente. Nunca vejo cor. Nunca vejo raça. Eu só julgo as pessoas baseadas em como elas me tratam, basicamente. No mundo do entretenimento, você acaba encontrando muita gente gay e eles são os mais talentosos – como minha equipe de cabeço e maquiagem – e sempre são muito simpáticos e doces comigo.

Em 2003, você foi homenageada pela GLAAD pelo clipe de Beautiful, que incorpora imagens de um casal homossexual se beijando em praça pública, e um homem se transformando em mulher. De onde veio a ideia do clipe?
A letra fala sobre amar em você mesmo o que as pessoas podem repudiar ou zombar. Muitos gays que me escrevem dizem que o fato de eu me aceitar como sou e colocar isso em minhas músicas os inspira. Então é como se fosse meu tributo a eles, deixar eles perceberem que as dúvidas que eles sentem porque são tratados como excluídos são OK.

Quando você fala sobre exclusão, parece que suas palavras saem de um passado muito profundo.
Absolutamente. Quando eu cresci, sempre me senti excluída. Como eu queria ser cantora, eu não me encaixava em lugar nenhum. As outras crianças não eram muito legais quando meu nome aparecia no jornal ou quando fiz o Star Search, aos 7 anos. Minha mãe era ameaçada. Eu era ameaçada e sempre ignorada só porque eu amava fazer o que eu fazia e era quem eu queria ser. Então eu entendo plenamente qualquer um que se sente na necessidade de esconder tudo o que eles são só para agradar os outros. Eu aprendi em uma idade muito tenra que jamais seria assim. Apesar de ter me sentido péssima em vários momentos, eu sempre me encorajava a fazer o que eu acreditava. Essa disposição surgiu quando eu era muito nova.

No seu álbum tem uma música chamada Oh Mother, em que você canta sobre o abuso que acontecia na sua casa e os sentimentos com que que sua mãe convivia. O que ela acha da música?
Eu queria tocar a ela pessoalmente, mas minha agenda estava muito caótica e eu conseguia achar tempo, então eu liguei para ela e disse, “Tem uma música no próximo álbum…”. Quando ela ouviu, ela me ligou e disse, “Eu nunca soube que você sabia como eu me sentia naquela época”. Eu respeito muito o fato dela ter sido forte o suficiente para tirar a gente daquela situação.

A decisão foi gradual ou foi repentina, do tipo – pegar vocês no meio da noite e ir embora?
Teve uma época em que nós estávamos indo e voltando por um tempo. Ela deixava ele e e ele começava a falar em espanhol sobre como ela passaria a tratá-la como uma boneca de porcelana. Ele sabia como ganhar ela de volta e ela voltava, até conseguir se livrar completamente e não olhar para trás. Nós duas consideramos importante espalhar essa mensagem e mostrar que esse tipo de abuso é algo que fica com você. Dá para curar e entender no futuro, mas é uma jornada contínua.

Em The Right Man, você canta sobre o seu casamento e o fato de que você decidiu entrar na cerimônia sozinha, ao invés de ter o pai ou outra figura paterna ao seu lado. Como você se sentiu quando isso aconteceu?
Foi um momento decisivo na minha vida. Eu passei toda a minha vida sem se importar ou querer uma figura paterna, mas quando a hora chegou e todo mundo começou a perguntar “Quem vai entrar com você na cerimônia?”, me deixou triste não ter uma resposta boa. Eu acho que tenho boas respostas para tudo. E é loucura que eu não tenha alguém que represente aquilo para mim. Eu tenho alguns amigos próximos, mas no final do dia, eu pensei, eu sou uma mulher forte, eu consigo fazer isso sozinha. Meu marido está logo lá no final. Eu vou olhar para ele. Mas quando a hora mesma chefou, eu não imaginei que eu ia me sentir da forma como eu me senti. Foi emocionalmente exaustivo. Eu estava tremendo e pensando como seria maravilhoso ter aquele homem que lembrasse um protetor de minha vida, esse homem que falasse aquelas palavras do tipo “Não magoe minha garotinha”, e eu senti a dor por não ter isso do meu lado. Eu quis escrever sobre isso porque pensei em quantas outras mulheres devem pensar dessa forma.

Foi uma grande alívio emocionar deixar de ser aquela que cuida de si sozinha para ter Jordan do seu lado te ajudando a tomar conta?
Esse pensamento vem na hora. Eu sustentei minha família por anos e sempre achei que eu segurava o barco sozinha. Eu era a capitã do time. E seu eu deixar isso para trás, quem que vai fazer isso no meu lugar? Esse momento é bem terapêutico – quem vai estar lá por mim? [Risadas] – mas agora, com meu marido, eu sinto fortemente que tem alguém comigo.

Você se imaginava casada – e feliz – aos 25 anos?
Não. Eu nunca fui o tipo de garota que fantasiava com o casamento branco e a cerca baixinha no gramado verde, com os cachorros. Eu estava super focada na minha carreira e nunca parei, mas Jordan e eu nos conectamos imediatamente e eu sabia que não queria ser ninguém sem ele.

Considerando que você é uma recém-casada, o casamento gay é algo que você acredita?
Sim. Minha personal casou com a namorada no final de semana passado e nós fomos. Foi muito bonito. Eu fiquei emocionada com os votos, chorei mesmo. Elas tem familiares que as desaprovam e decidiram ir ao casamento mesmo assim. Depois da cerimônia, eu pensei, será que eles entenderam? Eles viram o amor? Eu nunca entendi que pensa que ser gay é uma espécie de opção. Você pode conseguir reprimir, mas porque viver dessa forma? Me entristece mesmo. Eu já ouvi história de pais que dizem, “Eu vou estar lá, mas não vou tratar como se fosse um casamento de verdade”. Legal ou não, ainda é a união do amor de uma pessoa pela outra.

Você já se apaixonou por um cara gay?
[Risadas] Essa pergunta é muito interessante. Agora que eu já casei, posso dizer que eu acho que já namorei um. Talvez. Eu me envolvi com alguém que tinha um passado gay. E eu sabia disso quando estava nesse relacionamento.

Isso não era algo que te faria terminar o namoro?
Não. Eu sou basicamente uma pessoa de mente aberta.

Você acabou se magoando?
Às vezes, era meio paranoico, tipo, você entra em uma sala com um cara que você sabe que sente atração por outros homens, e acaba pensando, “ele está olhando para aquele homem ou para aquela garota?”. Eu não sei se ele já se resolveu nesse sentido.

Eu imagino que tem um monte de gente gay na equipe da sua turnê. Você vai à boate com eles?
Absolutamente. Você está brincando? Se eu trabalho muito, eu me divirto muito depois. É muito legal. Meu melhor amigo no mundo todo, Steve Sollitto, é meu maquiador e foi uma das damas de honra no meu casamento. Ele tem uma energia tão grande, o espírito mais honesto e sincero. Tiveram uns boatos um tempo de que eu estava ficando com ele, porque sempre nos fotografavam juntos. A gente morria de rir, falando “Eeeeew, somos irmão e irmã!”. Nós gostamos muito de sair juntos e nos divertir, mas as vezes ele gosta de ter o “momento de homem” dele.

Outro colaborador seu que também é gay é o fotógrafo e diretor David LaChapelle.
Eu amo trabalhar com David porque ele tem um espírito muito livre. Jogue uma ideia para ele e ele imediatamente vai jogar de volta cinco novas ideias com o mesmo conceito mas com mais ousadia. Ele vai mais longe do que só pensar além dos limites.

Ele dirigiu vários vídeos seus, incluindo Dirrty, que muitas pessoas criticaram pela sexualidade tão aberta e explícita.
O motivo de eu fazer esse tipo de coisa não é criar polêmica ou deixar os outros com raiva, mas sim colocar esse assunto na boca das pessoas. Eu sinto que tem tantas regras, regulamentos e estereótipos por ser quem você é. Tem tantos rótulos, principalmente para as mulheres. Se você não é sensual o suficiente, é recatada. Se você é sensual demais, é uma puta. Eu não acho que qualquer pessoa deva ser julgada contanto que elas não estejam ferindo os outros. Eu acho que quem tem problema com a própria sexualidade é quem tenta atacar aqueles que estão vivendo a própria vida.

Quando que você aprendeu sobre sexo?
Minha mãe sentou comigo e teve uma conversa franca a respeito. Eu acho que quando você conversa com crianças de uma maneira madura elas vão te surpreender. Minha mãe sempre foi incrível.

Falando de sexo, sua imitação perfeita da Kim Cattral em Sex and the City no Saturday Night Live alguns anos atrás impressionou todo mundo. Ela entrou em contato com você?
Não, mas alguém me falou que ela gostou. Alguns acharam que eu estava dublando.

Você acha que seu ouvido para a música ajuda a imitar pessoas?
Eu acho, na verdade. É interessante. Eu faço vozes de cachorros e todo mundo diz que eu deveria fazer um personagem de desenho algum dia. Eu imito a Shakira e faço uma personificação muito boa da Cher.

E também muitos do que leem essa revista.
[Risadas] Eu imito a Cher de “Do you believe in life after love”, mas eu não faço mais isso.

Como que você descreve seu relacionamento com sua voz? Você acha que é algo que te separa dos outros? Um dom que lhe foi concedido?
Vem de um lugar – eu não sei descrever – aqui [toca o estômago] na minha alma. Quando eu me conecto com ele, é como se eu estivesse me libertando. É a voz da minha alma e eu sinto ela tão fundo no coração que eu acho que ela transparece na minha música. Assim eu espero. Não é nada forçado. Quando eu era pequena, no entanto, eu ficava irritada às vezes e dizia, “Quando eu abro minha boca e canto do meu coração, porque tem que ser tão alto?”, mas era a única coisa que eu sabia, saía muito natura.

Sabendo tudo o que sua voz é capaz de fazer, é desafiador para você cantar em tons baixos? Os seu produtores te dizem que “menos é mais, Christina”?
[Balanla a cabeça]. Eu prometi a mim mesma que faria isso nesse álbum. Em Save Me From Myself, eu não acho que já me ouviram cantar são quietamente e delicado, mas a emoção que eu queria passar era tão vulnerável, honesta e sincera. É a única música que eu literalmente dediquei à meu marido. Estou agradecendo a ele por ser a única pessoa na minha vida que consegue alcançar lá no fundo e me tirar que qualquer momento obscuro que eu esteja vivendo, me fazendo perceber todas as belas e incríveis coisas ao meu redor.

O que Jordan pensou quando ouviu a música?
Ele ficou emocionado. Ficou repetindo no carro dele por meses. Ele dá muito valor à ela. Ele é muito doce. Desculpa, eu estou falando demais, mas eu ainda sou recém-casada e é grande parte na minha vida. Eu sempre coloco meu coração em cima da mesa.

Quando vocês começaram a namorar, foi dícil para você derrubar certas paredes e se abrir a ele?
Eu ainda estou derrubando essas paredes, é um processo gradual. Eu nunca tive nenhum modelo masculino positivo em minha vida – nenhuma imagem paterna, nenhum irmão mais velho – e quando eu saí de casa, eu fui apresentada a um mundo onde homens da indústria ficavam dando em cima de mim quando eu ainda era menor de idade. Era um reflexo negativo constante, e as paredes continuavam subindo.

Quando alguém pensa em jovens garotas na indústria, todas parecem ser parentes como parte da equipe – pais-empresários, mães-assistentes-de-palco, pequenas irmãs. Você parece, pelo menos vendo de fora, como um show de uma pessoa só.
E eu sou mesmo. Quando eu atingi a idade para dirigir, eu não tinha ninguém para segurar minha mão. Foi difícil, mas moldou muito do meu caráter e eu sempre me acho mais velha que minha idade real. Eu não me sinto com 25 anos. Todos os meus amigos mais próximos são mais velhos. Hoje, nada é aprovado sem minha ciência e assinatura. É muito peso sob meus ombros, mas eu não me vejo trabalhando de outra maneira.

O quão competitiva você é quando compara as vendas e posições dos seus álbums com os de outros artistas?
É claro que eu vigio essas coisas e aprendo com elas. Mas todo mundo está aqui por um motivo e cada um está fazendo o que acha melhor. Eu tento focar só no meu caminho. Se meu álbum não vende tanto quando o anterior, tudo o que eu sei é que eu fiz o melhor que pude e com base no que eu acreditava com todo o meu coração.

Eu tenho que te perguntar sobre a faixa FUSS.
É um título legal, né?

Meu palpite, baseado nas letras, é que ela significa “Fuck You Scott Storch” [o extravagante produtor de Miami com que Christina colaborou em grande parte do Stripped].
Basicamente, mas eu não quis direcionar ela totalmente a ele. É algo que eu precisava desabafar. É uma música que celebra o fato de eu ter conseguido conquistar algo sem a ajuda de alguém que obviamente não considerava isso importante o suficiente para querer fazer parte dele.

Na Rolling Stone, ele disse que se insultou porque ele queria um avião particular para trazer ele e o equipamento até Los Angeles para trabalhar com você, e você não quis fazer isso por ele. Que história foi essa?
Eu não sei. Eu acho que estamos em sintonias diferentes. Eu só acho que algumas pessoas realmente se deixam levar pelo sucesso. É triste.

A sua colaboradora em Ladu Marmalade, Pink, lançou uma música esse ano, Stupid Girls, sobre o vácuo que ela diz existir na cabeça de algumas celebridades mulheres mais jovens. Você também acha isso?
Eu não acho elas burras. Mas eu tenho um problema quando elas querem passar essa imagem… acho que o termo é “se emburrecer” para ganhar alguma forma de popularidade ou sucesso com essa imagem. Como mulher, eu acho que esse não é o jeito de se comportar, e como pessoa, você sabe… a questão é que você tem que ser esperto para fazer isso, também. As fotos que você vê dessas pessoas nos celulares ou dirigindo, elas estão trabalhando. Talvez no tempo livre elas gostem de ir às compras. No final do dia, todo mundo tem um motivo para fazer o que faz. Então eu não as julgo.

Mesmo assim, a gente não costuma ver você falando no celular enquanto faz compras em Beverly Hills.
Eu não sou o tipo de garota que sai de casa e fala no celular o dia inteiro. Eu curto meu BlackBerry, mas odeio o telefone. Eu não vou à lugares só para ser fotografada. Não é quem eu sou. Quando é hora de criar, eu vou até minha caverna criativa e me escondo para quando eu voltar, tentar empolgar as pessoas com isso.

Você gostaria de emular a carreira de que artista?
Eu estou lendo a autobiografia de Etta James no momento. Essa mulher já passou por tanta coisa e sempre as encarou tipo, eu estou pouco me f****** para o que você pensa de mim. Vou fazer as coisas do meu jeito, então não atrapalhe. Eu adoro essa atitude corajosa, especialmente nas mulheres. Na época dela, o racismo estava atingindo o  extremo e ter a força para encarar as coisas dessa forma é muito poderoso para mim. E claro, eu amo Madonna pela força e disciplina. As ideias dela são incríveis e ela tenta ir por cima e além quando quer se superar. Eu sou apaixonada pelas pessoas que ficam firmes no que eles acreditam profundamente e não desistem.

Qual seu relacionamento pessoal com Madonna? Vocês duas dividiram aquele beijo famoso no Video Music Awards alguns anos atrás.
Aquela foi nossa experiência de trabalho mais próxima. Ela é sempre muito simpática comigo.

Você se surpreendeu com as reações daquele momento?
Não, na verdade. Quando você faz algo daquele tipo, você sabe que as pessoas vão se chocar. Blá blá. Eu achei que deu um toque interessante à performance. [Risadas] E foi muito divertido.

A sua ex-colega de Clube do Mickey, Britney Spears, está passando muito tempo na imprensa nesses últimos dias, nem sempre de forma positiva. O que você pensa quando vê toda essa cobertura que as pessoas estão fazendo dela?
Eu acho que a imprensa se tornou um monstro horrível e injusto, e é muito triste. Ela está em uma época linda da vida dela, e eu acho que é injusto julgar alguém se você não estiver passando pela mesma situação.

Se tivesse uma reunião com os ex-membros do Clube do Mickey hoje, como você acha que seria?
Eu acho que seria muito doce. Muito interessante reencontrar e refletir sobre o caminho que todos nós trilhamos desde então. A motivação, determinação e talento que saiu daquele programa foi incrível.

Na época, vocês dividiam os sonhos e objetivos uns com os outros?
Sim, todos nós éramos apaixonados pelo que fazíamose estávamos prontos para fazer acontecer. Eu me lembro que Janer Jackson era tudo para nós, na época dos álbums Janet e If. E nós amávamos a capa dela na Rolling Stone.

Justin Timberlake também era um membro do elenco. Qual sua memória favorita da turnê que vocês dois fizeram alguns anos atrás?
Nossas conversas em determinadas noites. É muito legal quando você tem a oportunidade de se abrir para um artista que faz o mesmo que você. Ele é um cara incrível. É caloroso, tem personalidade e conhece a mesma ética de trabalho que eu tenho, porque ele também tem. Eu também gosto do esforço que ele faz para se manter em mudança, o que é aparente nessa nova música dele. É divertido.

Falando em músicas divertidas,  eu gosto que você colocou trechos da sua música de estreia, Genie In A Bottle, na música Thank You. De alguma forma, eu tinha a impressão que você queria distância daquela música.
Ai meu Deus, eu nunca quis representar aquela música. Eu agradeço a Deus por ela. Foi por causa dela que coloquei meu pé nesse mundo e ganhei uma voz para falar. Eu a incluí porque ela criou a minha base de fãs, e muitos deles cresceram junto comigo e me deram a liberdade criativa que eu tanto prezo.

Essa música também incorpora mensagens gravadas por fãs seus. Como vocês escolheu quais incluir?
Eu lancei um concurso no meu website pedindo para meus fãs falarem como minha música os afetou ou os ajudou a passar por momentos difíceis da vida, como eu toquei a vida deles, e as respostas foram incríveis. No começo, eu só ia colocar cinco vozes, mas acabou se tornando essa coisa incrível. Eu me afastei e deixar a música ser sobre eles.

Um dos fãs falou sobre cometer suicídio, e eu fiquei imaginando se era um adolescente gay.
Eu não acho que algum deles falou isso. Muitos comentaram como eles admiravam o fato de que eu consigo ser um indivíduo que não liga para o que os outros pensam. Isso significa muito para mim.

Qual elogio você recebeu recentemente que tocou você?
Etta James disse que eu tenho uma alma antiga e falou que eu sou muito inteligente, eu realmente a agradeci por isso.

Como você descreve essa época da sua vida?
Em paz.

Com tudo que tem acontecido com você? Seu BlackBerry não para de tocar.
Em relação à minha agenda, é muito caótica. Eu estou falando sobre paz interior. Eu estou em um lugar belíssimo agora. Sempre sinto que estou sendo cliché quando falo nisso, mas é a verdade mais honesta. Não tem mais negatividade, eu não a recebo mais em minha vida. Estou em um espaço incrível, muito feliz, muito, muito feliz.

Se você, a Christina de hoje, pudesse falar com a Christina pequenina que ouvia os discos antigos para escapar do sofrimento da infância, o que você falaria para ela?
Eu não sei se falaria alguma coisa. Apesar de tudo que aconteceu comigo, eu aprendi muita coisa. Eu não agradeço só pelos momentos ótimos, mas também pelos muito difíceis. Você ganha tanto com a experiência de se levantar e vencer os obstáculos. Por isso eu sempre acreditei em não me arrepender de nada. Cada coisa na minha vida que pareça um erro é uma lição aprendida, sem querer soar brega ou cliché, mas eu sinceramente acredito nisso. Eu acho que se eu fosse dizer algo, seria para se manter forte e continuar lutando. Eu estou começando a falar que nem as minhas músicas. [Risadas] Mas é verdade. Você tem que batalhar e continuar.


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