Revistas / 2004 / Jane (Setembro)

A Jane era uma revista de moda voltada para o público feminino

Christina Aguilera: “todo cara mentiu, me traiu ou se aproveitou de mim – menos um”

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
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“DEIXE A MULHER FINALMENTE CHEGAR AO TOPO” – 
Christina Aguilera abre a mente neofeminista de Esther Hayne.

“Marilyn!”, ela exclama, correndo para imensas telas de Marylin Monroe penduradas nas paredes do piso térreo do Andry Warhol Museum em Pittsburgh.

Christina Aguilera e Andy têm mais coisas em comum do que você poderia imaginar. Primeiro, ambos cresceram aqui. Segundo, as pessoas raramente dizem não para eles. Na verdade, este museu é normalmente fechado nas segundas-feiras, mas as regras são burladas para a Senhorita Aguilera, e nós conseguimos uma passagem pelo local. Eu estou espantada.

Christina também. Caso você não tenha reparado, ela está passando por uma fase Marilyn no momento. Christina está vestida em um top de lã rosa, jeans baixas e botas pretas. Ela é muito bonita, limpa e  pequena. Ela suspira quando para na frente das Marilyns multicoloridas. “Ninguém mais consegue alegrar uma câmera como ela conseguia, sabe?”, Christina diz. “E eu li sobre como ela odiava o fato de que os homens pensavam que ela era quem interpretava nos filmes, e todas as personagens dela eram tão, tipo, loiras burras e superficiais”. Ela respira fundo. “Eu acho que ela tinha muito mais na cabeça do que as pessoas percebem”.

Christina, aos 23 anos, está na cidade para filmar o especial MTV Choose or Lose sobre política sexual – ela vai entrevistar jovens sobre direitos de reprodução, educação sexual e violência doméstica. Eu acho isso interessante, porque quando penso em mulheres políticas, eu não imagino exatamente a Christina como uma delas. Parte do motivo de eu querer escrever este artigo é porque eu não sei muito bem o que pensar dela. Ela está ajudando as mulheres ou nos prejudicando? Ela é esperta ou superficial? Ela é uma cesta de basquete ou um gênio?

Nós pegamos o elevador até o quinto andar, onde um auto-retrato de Andy nos espera. Christina comenta como ela está decepcionada com o fato de que a performance que tinha marcada em Pittsburgh foi repentinamente cancelada na semana anterior, depois que os promotores do evento pediram falência. Seria a única performance dela neste verão, já que ela cancelou a turnê que faria para descansar as cordas vocais de uma lesão. “Eu pensei, ‘você está brincando comigo?'”, ela diz sobre o show cancelado. “Eu estava muito empolgada para cantar aqui, porque eu sou uma coruja noturna e só apareceria para cantar às 3 da manhã. Eu ia abrir com ‘I’m Coming Out’, da Diana Ross”.

Eu também havia planejado ir no fatídico show das 3 da manhã, e daquele momento em diante, tudo deu errado: ela ficou com o estômago ruim no dia da nossa primeira entrevista e quatro dos meus voos foram adiados enquanto eu tentava me encontrar com ela. Mas no primeiro dia, eu acabei conversando com alguns fãs da Christina tão frustrados quanto adoradores. Uma estudante chamada Rachel, de 19 anos, me mandou por e-mail 8 inteligentes perguntas para fazer à Christina, incluindo uma que dizia que, enquanto muitas jovens são inspiradas pelas letras e pelo fato de que Christina não tem medo de ser honesta e sexual, quando elas começam a falar o que pensam, são criticadas. “Mesmo quando você não se veste de forma sexy, o simples fato de ser uma fã da Christina te torna em uma vadia, porque ela também é considerada uma”, Rachel resume. “Que conselho Christina dá para as fãs que empurram os limites e enfrentam a negatividade, tudo para se transformar no que elas acreditam?”.

Christina parece impressionada com a profundidade da pergunta (eu omiti a parte da ‘vadia’). “Wow, que fã!”, ela diz. “É por isso que eu faço música, para abrir a mente das pessoas. A mensagem que eu tento passar é para incentivar as mulheres  a serem fortes e não terem medo das críticas que vêm com isso. Se eu faço um vídeo onde eu estou flertando e sendo provocante sexualmente, ele pode ser visto de duas maneiras diferentes. Para mim, esta é minha expressão em estar na posição do poder. Eu nunca segui um homem nos meus vídeos. Ninguém vê nesta segunda ótica, e foca só dizendo que é “uma p*** completa” e espalha esta mensagem à toda força”.

“Eu escrevi uma carta para os executivos da MTV – fiquei surpresa quando vi que a pessoa responsável era uma mulher – que tiveram problemas com o clipe de Can’t Hold Us Down. Você sabe, eu estou provocando garotos, e a cena foi vista como, ‘Oh meu Deus, ela está colocando uma mangueira no meio das pernas’. Mas antes de tudo, foi uma cena onde as mulheres estavam tendo poderes sob os garotos. Além disso, foi meio divertido brincar com a mangueira daquela forma”, ela ri.

“Então isso causou um pouco de chateação”, ela continua, “e eu dei 10 exemplos de outros vídeos – como Lil’ Jon, por exemplo, no clipe do Usher ele está fazendo aquele gesto [ela simula masturbação] com uma garrafa de champagne. Ok, eu não vi eles banirem este. Deixe a mulher finalmente chegar ao topo um pouco”. Agora, nós estamos na frente de umas mulheres nuas pintadas por Warhol. Christina aponta na direção delas com a mão: “Digo, o corpo feminino é tão bonito. Eu tenho tantos nus femininos na minha casa. Acho que muitas mulheres que criticam as que não têm medo da sexualidade o fazem porque elas mesmas têm medo da própria sexualidade”.

A coisa com a Christina é que ela pega uma única pergunta e continua respondendo, expandindo e explicando até fazermos outra perguntas. Dez minutos depois ela volta para a primeira e cinco minutos depois continua com a segunda, até que no final, toda a entrevista é uma grande linha de DNA formada por perguntas interlaçadas. Vamos voltar para “… Então, se esta menina, Rachel, estivesse na minha frente, eu diria: Se você escolher abrir a mente das pessoas, e as limitações delas em geral, você vai receber críticas. E você tem que ser forte o suficiente para manter o que você está dizendo, manter o que você acredita e se posicionar mais forte e mais alto”.

Muito pessoas realmente desprezam Xtina. Eles a chamam de vadia, dizem que ela usa roupas indecentes e muita maquiagem, e odeiam o fato de que às vezes, ela parece soltar um sotaque gueto da mesma forma que Madonna faz aquele sotaque britânico. Mas também, tem aquelas mulheres que a adoram porque ela faz o que lhe vem a mente e fala contra as formas de abuso.

Até mesmo a música I’m Ok – sobre como o pai da Christina batia na mãe dela – aparece no último álbum, Stripped. Ela fala abertamente sobre a infância perturbada. “Primeiro, eu tinha medo da ideia de ceder completamente a um homem”, ela diz enquanto passamos por mil flores coladas no chão do museu, “especialmente também com o segundo casamento da minha mãe, algo que eu nunca falei antes. Minha mãe está pedindo o divórcio, o que vai ser ÓTIMO para ela”. Christina joga palavras como “controlador” e “manipulativo” quando descreve o padrasto, e está feliz em vê-lo ir embora.

“Quando eu tinha 15 anos, eu pensei, ‘Ok, eu estou sozinha porque este cara está com minha mãe. Eu vou tentar ganhar dinheiro para tirá-la desta situação e fazer alg para que as ajudar as outras pessoas que passam por este mesmo ciclo de problemas'”, ela diz, soando bem similar à Missy Elliot (veja página 75).

Além de fazer o evento Choose or Lose, Christina está trabalhando com a campanha eleitoral da Declare Yourself e pela campanha da MAC para ajudar a vida de pessoas com HIV e AIDS. Ela também doou dinheiro para casas de proteção contra a violência doméstica e outras causas pró-mulheres. Parece que ela tem feito tudo iso porque ela passou por muito na vida e quer ajudar, não porque pode reverter em reputação positiva. Mas é claro, ela pode estar me enganando neste exato segundo. Mas realmente não parece, para ser sincera.

“Hoje, eu vejo o casamento por um ponto de vista diferente”, ela diz alegre. Nos últimos dois anos, ela tem namorado Jordan Bratman, um jovem de 27 anos que trabalha para o time de empresários dela. “Ele é o cara que pode levar o crédito por me fazer pensar no casamento sob uma ótica completamente nova, porque todo homem que já passou pela minha vida mentia para mim, ou me traía financeiramente ou levava alguma espécie de vantagem”. Eu pergunto se ela vai se casar com Jordan. “Eu não sei. Atualmente, parece que isso virou moda. Eu não quero pular no casamento por enquanto”. Oi, Britney.

“A vida é se resume a uma série de recomeços”, Christina diz, sorrindo. “Eu nunca estive mais feliz com as pessoas que estão na minha vida. Aconteceu de pouco em pouco até o ponto em que eu me senti em paz. Não parece mais como uma batalha constante. Eu me sinto bem agora”.

A próxima sala está cheia de grandes e flutuandes balões retangulares. Nós passamos por eles até réplicas de cartoons dos ketchups Heinz. “O que você pensa de Teresa Heinz-Keyy?”, eu pergunta sobre a herdeira, feminista e (cruzem os dedos) próxima primeira dama, que não apenas tem aparecido em incontáveis jornais, mas também era casada com o Senador John Heinz III até que ele faleceu em um acidente de avião em 1991.

“Perdão?”
“A esposa de John Kerry. Eu acho que ela também é de Pittsburgh”
“Ela é?”
“É, dizem que ela é bem legal.”
“Às vezes eu tenho a sensação de que se você não está no meio esportivo, é invisível em Pittsburgh”, ela responde. “Eu nem sabia que este museu existia. E ele é ANDY WARHOL”.
“Que mulher você acha que daria uma boa presidente?”
“Pergunta interessante… bem, eu vou me candidatar”, ela diz, rindo.

Nós paramos em frente a uma tela do artista Jean-Michel Basquiar, e ela descreve a primeira vez que foi à casa de Sharon Stone. “Ela tinha três lindos quadros de Basquiat, eu ficava de boca aberta. Eu amo as pinturas dele”.

Eu estou um pouco surpresa com o fato de que Sharon e Christina estão na lista de visitas uma da outra. “Ela é legal”, Christina diz. “É bom ter amigas mais velhas que eu nessa indústria, porque elas já viram e fizeram de tudo. Muitas das loucuras pelas quais eu passei, elas já passaram, então nós conseguimos nos conectar. É bom poder desabafar com alguém que realmente te entende”.

Christina odeia quando as pessoas ficam obsecadas com o estilo sempre mutante dela. “Eles sempre falam, ‘Ela saiu do visual de boa-vizinha, Genie In A Bottle, para Dirrty, com as calças cortadas. Mas esta sou eu crescendo e explorando todas as facetas disso. Qual o problema com isso? Não é como se eu vestisse aquelas calças para ir jantar, sabe? Eu sou uma performer – é isso que eu faço. Eu vou sempre mudar meu visual. Eu sou eu mesma, cara!”, ela diz sem medo de reprovação. “Eu sei que estou mudando de assunto o tempo todo. Eu faço isso quando me empolgo”.

Nós estamos de volta ao primeiro piso, passando por Marilyn novamente, enquanto a conversa continua. Eu pergunto o que ela pensa dos termos feminista, neofeminista, e etc. Christina comenta que é tudo subjetivo. “Eu li em algum lugar que aquela garota do Evanescence [a cantora Amy Lee] disse, ‘Christina diz que está promovendo o feminismo, mas representar as mulheres é o oposto do que ela anda fazendo’. Primeiro de tudo, sobre qual ponto de vista? E segundo, só porque eu não gosto de vestir preto e me cobrir o tempo todo…” ela diz rindo, “Esta não sou eu. Você seja uma mulher na sua percepção, e eu serei uma mulher na minha”.


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