Revistas / 2004 / Elle UK (Março)

A Elle é uma revista de moda e beleza voltada para o público feminino

Christina! Você é linda – Ms. Aguilera fala sobre seu estilo selvagem e como é amar um homem de verdade

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
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ADORÁVEL E INCRÍVEL – De mal-vestida para bem-vestida, de mais discutida para mais amável, Christina Aguilera finalmente conquistou todo mundo. Do jeito dela. Ela conta à Kate Finnigan porque o tanquinho fez mal a ela, porque as calças cortadas revelam menos do que mini-saias, e porque quebrar pratos faz bem para a alma.

É hora do coquetel em um escuro saguão do hotel L’Emirtage em Beverly Hills, em uma sexta-feira de novembro. O ambiente não podia ser mais Tinseltown. Um canto tem uma gangue de vinte e poucos trocando piadas sobre a prisão de Michael Jackson nesta tarde. Por perto, um produtor barbado grita no celular, ‘Eu sei! E se o clone for malvado?’. Hoje à noite, como toda noite, LA está fazendo uma paródia gratuita dela mesma. E a qualquer minuto, Christina Aguilera vai parecer para se unir ao show.

Na realidade, Christina e eu já nos conhecemos antes. Mas não vai ser nada como se fosse um grande reencontro. Eu era apenas um em uma fila imensa de anônimos e envergonhados convidados pela gravadora dela para conhecer uma nova diva adolescente que iria estreiar o primeiro single, Genie In A Bottle, em Londres em 1999. O poder do vocal ao vivo que ela tinha acabado de cantar, inacreditável por vir desta garota minúscula, foi apagado de mim pelo pobre e incrivelmente fraco aperto de mão da Christina. Trêmulo, sem vida, era uma mão morta. Ela nunca iria sobreviver nesse meio, eu pensei.

Christina sobreviveu. E muita coisa. Fazem quatro anos e mais de dez milhões de álbuns vendidos. A Christina, de 1,58m, está entrando no saguão, conversando empolgada com a assistente pessoal e me cumprimentando com um sorriso irresistível. ‘Oi. Eu sou a Christina’, ela diz de forma doce. Ela está somente meia hora atrasada, o que é praticamente cedo – o tempo de Aguilera é famoso por ser mais atrasado do que o do resto do mundo. Ela ainda é minúscula, e apesar da considerável quantia de produtos cosméticos no rosto, esta garota de 23 anos ainda parece uma adolescente.

Ela gosta do ambiente misterioso deste saguão, ela diz enquanto desliza em uma cadeira e joga as pernas bem torneadas e enormes saltos brancos  por cima dos braços do assento. “Luz forte é um pouco abrasiva para mim”, ela explica com a fragilidade que só alguém muito, muito famosos consegue transparecer. Uma garçonete aguarda do lado, esperando pelo pedido da pessoa famosa. “Colleen? O que eu costumo beber aqui?”, pergunta Christina à sorridente assistente, que para minha tristeza, está sentada com outro membro do time de empresários há apenas aglumas mesas de distância, suficiente para ouvir nossa conversa. “Hmm.”, diz Collen, pensativa. “Sexta-feira? L’Ermitage? Deve ser… ‘The Pinot Noit’. Então, Christina pede uma taça de Pinot Noir.

Faz mais de um ano desde que o orgulho de Pittsburgh lançou Stripped, o segundo maior trabalho dela (apesar de que também tiveram a versão em espanhol do álbum de estreia, Christina Aguilera, e o geniamente clichê álbum de natal, My Kind of Christmas). Depois de três anos da estreia, ele é o que Christina chama de “álbum da liberdade”. Apesar dela já ter ganhado três Grammy’s, ela começou a planejar a escapatória da imagem de parecida-com-a-Britney quando estava em turnê, escrevendo músicas na mesma velocidade com que colocava piercings em tudo que é lugar.

Muita da maturidade aconteceu entres os álbums um e dois. Após dispensar o ambicioso empresário, um suposto amigo que estava escrevendo um livro sobre a vida dela, se apaixonar pela primeira vez, com o dançarino Jorge Santos, e começar um romance com um galinha, o segundo álbum prometeu ser um pouco diferente. Em novembro de 2002, ela lançou o primeiro single, um bonitinho dominador de paradas chamado Dirrty. Uma das performances mais memoráveis aconteceu na MTV, onde a artista previamente conhecida como tímida balançava a bunda quase nua em calças de couro cortadas, para o deleite de vários pré-pubescentes. Sombrancelhas, dentre outras coisas, subiram.

Esta não era a garota que lançou o pop-que-todos-gostam Genie In A Bottle. Ela estava mais durona, brava e crua. A mídia adotou o apelido que uma amiga deu à ela, Xtina, algo que causou um pouco de incômodo nela. “Todo mundo começou a falar, ‘Ooh, Christina começou a se chamar de Xtina porque ela tem esta personalidade dupla e os piercings e tatuagens representam isso'”, ela conta com uma voz feroz que você imagina sair de uma garota às três da manhã. “Eles tiraram essa ideia de lado negro, lado calmo, diabo-ou-anjo”, ela diz sem respirar. “Eu pensei, ‘Caras. Por favor’.”

Seja Christina ou Xtina no trabalho, as opiniões mudaram. Christina Aguilera não é mais uma megaestrela, mas sim uma intrigante megaestrela. A turnê mundial foi um sucesso enorme, e em novembro ela roubou o show como a primeira cantora da história a apresentar o European MTV Awards. As pessoas pararam de rir das roupas dela. Christina é fabulosa agora. E aqui vão alguns dos motivos porquê:

ELA NÃO NAMORA CELEBRIDADES

“Meu relacionamento é algo que não irei comentar”, Christina diz firme. “É um aspecto da minha vida que eu aprendi que a imprensa vive dando opinião”. Eu perguntei se é verdade que ela está saindo com Jordan Bratman, 25 anos, um homem misterioso da firma de empresários dela, com quem ela tem sido fotografada em várias situações nos últimos oito meses. “A única coisa que eu digo é que eu estou muito feliz agora”.

Isso é tudo que ela fiz sobre a situação amorosa dela. Eu me sinto bem convencida das minhas suspeitas quando, cinco minutos depois,  nós estamos falando sobre algo completamente diferente e eu vejo Jordan Bratman se aproximando do Acampamento da Christina (nosso pequeno grupo foi aumentado por um imenso guarda-costas). Christina está de costas quando ele suspira um “Oi” em cima do ombro dela, fazendo-a virar para trás com uma expressão de choque. “Oh… oi”. Eles não se beijam. Não se tocam. Ela só olha para trás confusa.

“Distraída?”, eu pergunto.

“Hmm”, ela pensa. “Distraída”. Por dez segundos, ela ficou sem palavras. Parece que Jordan chegou cedo demais.

Moreno e um pouco barbudo, não tem nada de showbusiness no pretendente de Christina. Mas isto só me confirma algo que ela comentou mais cedo. Ela não namora homens bonitos. Bronzeados da Califórnia e sorrisos ultra-brancos não fazem o estilo dela. “É isto que eu gosto”, ela diz quando estamos trocando conversas apenas de garotas. “Eu sou extremamente atraída por inteligência e individualidade, gosto de alguém que tem uma boa cabeça em cima dos ombros”. Ela para e ri um pouco com a possibilidade de existir um cara sem cabeça em cima dos ombros.

“Eu não ligo para uma barriga tanquinho. Não ligo para um corpo perfeitamente delineado”, ela insiste. “Se alguma coisa, quando eu conheço alguém assim, fico desinteressada. Não estou colocando um estereótipo em todos eles, porque é óbvio que existem homens bonitos que têm um cérebro. Mas eu gosto de ter uma conversa muito boa. Eu sou mais ligada à mente. Eu consigo me estimular de outras formas sozinha”, ela diz com as sombrancelhas levantadas. “E eu não conheci muitos bonitões de Hollywood cuja conversa tenha me impressionado intelectualmente. Ou impressionado e ponto. Eu também acho que eles tendem a ser muito imaturos, muito cheios de si mesmos. Eu gosto de um cara com mais pé no chão. É por isso que eu geralmente escolho não-celebridades. Eu gosto mais de caras vividos, com experiências na rua”.

Mais tarde, Jordan Bratman solicitamente me diz qual o melhor lugar para esperar um táxi. Eu também gosto de caras com experiências na rua.

ELA VESTE O CORAÇÃO NOS ÁLBUMS (E NO ENCARTE)

Stripped pode ser chamado de “Christina Aguilera: A Ópera”, cheio de realidades dolorosas e histórias do cotidiano. Diferente do álbum de estreia, 14 das 16 músicas foram escritas por ela. Baseado em diários que ela mantinha religiosamente enquanto estava em turnê, é um álbum profundamente pessoal de tudo que ela passou nos três anos anteriores. A X-Tina censurada em Dirrty era uma jovem de 21 anos, de coração partido e indo às boates, enquanto Fighter era a dança em cima do túmulo do antigo empresário, que tentou desviar um pouco da fortuna dela. A convidativa Can’t Hold Us Down foi uma resposta inteligente à The Real Slim Shady do Eminem – aquela música simpática que dizia que ela fez sexo oral nele.

I’m OK, uma resposta à violência e abuso do pai Fausto Aguilera em cima dela e da mãe, quando era criança, foi o grande destaque. “Me machuca ver o sofrimento no rosto de minha mãe toda vez que o punho do meu pai a colocava em seu devido lugar”. “Esta foi a música mais difícil que eu já escrevi. E criar a coragem para ir atrás daquele microfone… eu estava chorando, literalmente, quando gravei essa música. Me tocou mais do que eu imaginei que fosse tocar”. Então por que fazer? “Dá medo ficar tão vulnerável e falar tanto de você mesma”, ela diz. “Mas música é terapêutica para mim e sempre foi minha forma de expressão e liberdade. Eu não consegui evitar abrir meu coração”.

Expor-se desta forma converteu-se em respeito à ela. Apesar de Beautiful, uma música tocante para os excluídos e rejeitados, não ter sido escrita por ela, ela cantou como se fosse dela. Não queremos dizer que ela mudou o mundo ou algo assim, mas existem pessoas para quem músicas como Beautiful e I’m OK são como botes de resgate. E por ter sido uma criança que achou escapatória da violência que acontecia na sala de casa ao cantar músicas de A Noviça Rebelde para os ursos de pelúcia, é uma daquelas coisas que a incentivam. “Dar uma voz àqueles que podem passar por situações similares, que podem precisar desta voz, é muito importante”, ela conta. “Eles podem não conseguir achá-la dentro deles próprios, para conseguir sair da situação e transformá-la em uma experiência positiva. Quando eu estou escrevendo uma música, é isto que estou fazendo – transformando um negativo em positivo e me curando no caminho”.

Em um determinado momento do ano passado, Christina costumava se curar com sessões de quebra de pratos. Sério. Ela montava uma pilha de porcelana e jogava  e jogava e jogava longe. “Ooh, isso foi só uma pequena fase”, ela desconversa, como se estivesse confessando roubar doces quando era criança. “Eu não faço mais isso, mas foi divertido, uma forma de libertação. Eu recomendo a todo mundo”. Ela verifica se não falou demais como a Christina selvagem e remenda: “Contanto que você não machuque ninguém. E ache um lugar onde você não vai atrapalhar nada. Oh, e não destrua nada valioso do qual você pode se arrepender depois…”. Leitores, por favor, lembrem-se de todas estas regras. Na próxima vez que você for liderar uma terapia com quebra de pratos.

ELA RI NA CARA DA MODA

“Você sabia que você ganhou o prêmio de Melhor Vestida no European MTV Music Awards?”, interrompe Colleen do Acampamento Christina, montado ao lado. Christina vira para trás com uma boca em forma de O e então resmunga: “Tanto faz!” antes de, sem nenhum pudor, soltar: “Filhos da p***! Por qual revista? Na People? P**** nenhuma! Você está falando sério?”. Ela olha para mim balançando a cabeça. “Esta é a parte da indústria que é tão estúpida. É muito superficial. É sim. Me desculpe.”

O que aconteceu para Christina sair da pior para a mais bem vestida? Não é como se ela tivesse começado a usar figurinos que agradam o público. Peguem as calças cortadas, por exemplo. Por favor, peguem elas, você pode dizer, mas aquelas calças fizeram muito a favor da Christina. “Minha estilista Trish Somerville e eu tivemos a ideia de usar elas no clipe de Dirrty. Seria a única vez, mas elas meio que chamaram a atenção”, ela comenta. Você pode repetir isso? “É, teve tanta controvérsia envolvendo estas calças”, ela diz, franzino o rosto como se não entendesse o motivo. “Mas se você pegar o tanto de pele que aparece quando você usa shorts curtos ou mini-saias que outras pessoas – cantoras muito famosas – usam nos clipes, as calças cortadas cobrem bem mais do corpo”.  Eu acho que o problema é a parte do corpo que não está coberta por estas calças, eu comento. “É, mas é engraçado pra mim”, ela diz vagamente, sem enfrentar o ponto diretamente. “Mas eu as visto com orgulho”.

E é por isso que elas funcionam bem. Como os maiôs de Debbie Harry e o sutiã de cone da Madonna, a boca pintada de Courtney Love  e o cabelo de alienígena de Bjork, são as coisas loucas usadas com atitude que transformam uma estrela do rock em um ícone do estilo.

O desejo deliberado da Christina em bagunçar a feminilidade dela é apelativo. É um alívio e às vezes uma piada. Mas ela conscientemente desafia a percepção da beleza? “Na verdade, o objetivo é desafiar minhas próprias habilidades de correr riscos”, ela diz, após pensar por um segundo. “Desafiar minha própria noção das coisas, abrir mais a minha mente. É só isso”. Eu imagino se ela pensa que a aparição na campanha de primavera/verão da Versace foi o motivo dela ter ganhado mais crédito no mundo fashion. “Sim, para os que não pensam por conta própria”, ela refuta rapidamente. “As ovelhas. Mas você sabe, este é o motivo de eu fazer o que eu quero. Eu prefiro liderar o comboio”.

ELA NÃO ACREDITA NO DESLUMBRE (NA MAIOR PARTE DO TEMPO)

Apesar da Christina estar descansando da turnê europeia, na casa dela em Los Angeles, há mais ou menos uma semana, amanhã ela volta para o verdadeiro lar. De volta à Pittsburgh por quatro dias, à casa que ela comprou para a mãe e padrasto, 15 minutos de ditância do lugar onde ela cresceu. Ela está animada. “Eu consigo dormir muito quando estou lá! Oh Deus!”. Ela dá um tapa na coxa. “Como a comida da minha mãe! E mnha mãe também faz o melhor café com canela do mundo”.

Christina Aguilera sentada em casa tomando café? Eu não consigo processar essa imagem, o que a ofende um pouco. “Eu já ouvi os boatos de que sou uma diva, eles me matam de rir”, ela diz. “Eu sou tão caseira. E minhas raízes estão tão dentro de mim que eu nem me sinto estranha quando vou pra casa. Eu acho que depende do tipo de pessoa que você é; se você é ou não atraído pelas coisas materiais, mas esta não sou eu”. Ela diz que viu este tipo de conduta quando assinou com a gravadora. “Pessoas movidas pelo dinheiro e pela fama, eu já vi como elas ficam e como a vida não significa nada para elas”. Então ela vai para casa nas ações de graças, joga videogame com a irmã, brinca com o cachorro e escreve no diário.

Ela fala de maneira tão séria que eu estou quase pronta para acreditar que Christina Aguilera é como você e eu. Então, eu pergunto qual foi a última vez que ela foi para casa. “Hmm”…, ela tenta extrair do cérebro. “Provavelmente… estou tentando lembrar. Eu não fui para casa para o Halloween…”. Ela torce o rosto inteiro, mas não lembra. Todos nós temos estes momentos onde as pessoas nos colocam sob o holofote. E a maioria de nós não tem turnês e álbuns e apresentações na frente de milhares de pessoas para atrapalhar tudo. É por isso que, eu imagino, que uma estrela internacional precisa de um assistente pessoal. “Colleen?”, diz Christina, olhando para trás novamente. “Quando foi a última vez que eu fui para casa?”.


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