Revistas / 2004 / Elle (Julho)

A Elle é uma revista de moda e beleza voltada para o público feminino

Novo visual, novos conceitos. Christina Aguilera finalmente se abre

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
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O que Christina Aguilera quer. Ser grandiosa. Ser vulnerável. Ser amada. Ser sincera. Proteger a mãe. Ser verdadeira. Ser calorosa. Fazer um dueto com Eartha Kitt. Não guardar rancor do pai. Ser somente… ela mesma.

Decorando os corredores do Estúdio 8 da NBC, estão fotos autografadas e emolduradas dos convidados anfitriãos do Saturday Night Live. Os mais recentes incluem uma série de ídolos adolescentes: Jessica Simpson e Nick Lachey, se abraçando com sorrisos ultrabrilhosos; Britney Spears, que assinou o primeiro nome embaixo de um coração, um smile sorridente, uma flor e uma estrela; e Justin Timberlake, que escreve “Como eu vim parar aqui?”.

Passando por três caixas de Red Bull no corredor do primeiro piso, está um guia da NBC com cara de bebê, guiando um grupo de bocas abertas e empolgantes fotógrafos pela fábrica de comédia do canal, apontando aqui e ali. Passando despercebida na fila por trás deles, Christina Aguilera, de 23 anos, vai em direção às largas portas do estúdio para ensaiar com o elenco do Saturday Night Live. Ela tem os cabelos negros e é minúscula, vestido uma calça jeans apertada, um camiseta apertada e uma jaqueta apertada. Quando ela me encontra para uma rápida apresentação, eu a cumprimento pela vitória no Grammy algumas semanas antes e digo que estou empolgado para fazer esta matéria, sendo um fã da música dela e tudo mais.

“Isso é o que todo mundo me fala”, Aguilera diz, com um tímido sorriso. “E aí, vem o artigo.”

Uma semana depois, Aguilera está no bar do saguão do Hotel L’Ermitage, em Los Angeles, relaxada e rindo com um grupo de amigos. Eu estou aguardando em uma mesa com Vern, o imenso guarda-costas. Vern jogou futebol para os Raiders e os Cowboys até sofrer uma lesão em um dedo. Então, ele montou um negócio de guarda-costas, dando emprego a outros jogadores afastados. Ele está equipado com uma 9 milímetros (nunca se sabe quando é necessário atirar em uma garçonete). Eu digo que é uma arma para mariquinhas e ele ri. Vern é legal.

O equipe de Aguilera vai até os sofás próximos da imensa lareira e deixa ela sentada entre os pratos sujos e xícaras vazias de cappuccino. Um dos membros da equipe, uma loira bonita, se aproxima e diz, “Christina está pronta para te receber agora”.

“É possível nós sentarmos na cabine do canto?”, eu sugiro. “Está limpa e não tem tanto barulho, além de podermos jantar em uma mesa de refeições, ao invés de uma mesa de bebidas”. A garota vai até ela, pergunta, e volta com a resposta: “Christina quer ficar aonde ela está”. Vern abaixa a cabeça e sorri.

O suflé de chocolate da Christina derreteu e se tornou uma mancha marrom. Ela já jantou? “Eu queria beliscar alguma coisa”, ela diz. “Ela se amolda na macia cadeira de veludo, jogando as pernas – cobertas por jeans rasgados e um par de saltos pretos – por cima do braço da cadeira. Ela parece ainda menor. Talvez seja a gola preta, ou o fato do cabelo estar escondido sob um boné de couro, cuja coloração negra combina com o forte delineador sobre o olho. Ela está com a maquiagem completa e passando uma humor meio ‘já fiz isso, fiz aquilo, vamos-acabar-com-isso-logo’. “Eu faço bastante entrevistas aqui no L’Ermitage”, Aguilera diz. “Eu gosto da iluminação fraca. Gosto da lareira. Gosto que não é nem muito barulhento, nem muito quieto”. Eu gosto que ela está usando Norma Desmond.

 “FOI MUITO DIVERTIDO“, Aguilera comenta sobre a triunfante atuação no SNL, cujo ponto alto foi a perfeita personificação de Samantha em Sex And The City. “Muitas pessoas disseram ter achado que minha voz da Kim Cattral foi dublada. Eu acho que realmente acertei nessa. Ninguém nunca me viu atuar de verdade antes. Eles sabem que eu sou uma cantora, mas sabem que sou uma atriz? Não. Eu quis mostrar para as pessoas o que eu consigo fazer do outro lado do espectro”.

Ela fala que ia usar um terno listrado no monólogo de abertura e em determinado momento ela sairia do palco e entregaria o sutiã e a calcinha para alguém por perto, como uma piada, porque “muitas pessoas tem essa noção preconcituosa na cabeça, achando que eu sempre me visto de forma provocante”, Aguilera conta, “E isso é parte por culpa da imprensa, porque eu já me vesti dos pés à cabeça em vários ternos. É claro que ninguém publica isso, porque a mídia basicamente escolhe qual será a imagem que você vai ter – quer goste ou não”.

A estrela pop tem algumas ideias sobre ela mesma que torna a tarefa de entrevistá-la e escrever sobre ela uma proposta arriscada – até mesmo derrotante. A antecipação que ela tem em achar que vai ser derrubada por todo jornalista se manifesta de forma disfarçada. Quando responder as perguntas, ela fala para o vento, como se não conseguisse te olhar diretamente. Agora, por exemplo, “Eu não acredito nas palavras fashion faux pas”, ela conta olhando para o teto, passando a mão em um brinco de diamante na orelha, “porque é tudo auto-expressão. É como Van Gogh ou Basquiat olhando para uma peça de arte que acabaram de fazer e dizerem, ‘Oh, essa é uma arte faux pas’. É a mesma coisa com a moda. Qualquer um que não concorda comigo, está ao menos abrindo a mente. Estou os empurrando para pensar do lado de fora da caixa que eles vivem, obviamente”. Yoo-hoo! Eu estou aqui! Talvez ela seja simplesmente tímida. Mas se é tímida, porque eu tenho a impressão de que a qualquer minuto ela irá explodir algo? Cadê Vern?

A garçonete se aproxima com a lista de vinhos. “Eu espero que você esteja aquecida agora”, ela diz, sorrindo para Aguilera, “porque eu estou suando”.

“Oh, perdão!”, Aguilera diz. “Não, não, estou só brincando”, responde a garçonete, sem realmente estar brincando. “Desde que você esteja confortável”. Aguilera pede uma garrafa de Carbanet e um Turkey Club, “sem abacate”.

O próximo projeto de Aguilera seria uma turnê simplificada de seis semanas pelos Estados Unidos, o mais novo álbum multi-platina dela, que tambêm compôs e produziu. Mas isso foi cancelado após ela ter arranhado as cordas vocais enquanto gravava um jingle para a Mercedes Benz. Agora, ela está trabalhando em uma música para a trilha sonora de Shark Tale, a resposta que a Dream Works achou para Procurando Nemo, da Pixar, e também pensando no próximo álbum. “Eu adoraria fazer um dueto com Eartha Kitt, porque ela foi a maior do tempo dela, “Aguilera diz. “Algumas músicas foram banidas, como I Want to be Evil. É loucura, porque me perguntam em entrevistas se eu acho que a música está mais ousada, e eu penso – quando ela não foi ousada? Digo, Elvis Presley causou euforia na época dele, apesar de hoje não parecer nada…”

Quando Aguilera mostra sinais de estar se abrindo para mim – falando empolgada sobre como a maior parte das cantoras pop “vem de uma linha específica de fabricação: lindas, empacotadas e polidas. É um termo que eu criei por ter sido espectadora de tudo isso” – a assistente aparece e põe fim à entrevista, respondendo meu protesto com um “Christina só dá entrevistas durante uma hora”. “Acredite, você já tem o suficiente”, Aguilera diz, com a sombrancelha subindo, “Eu já fiz isso antes”.

SE MADONNA é a mãe de todas as estrelas pop, Britney seria a filha favorita, mas Christina é a filha que mais a lembraria. O CD de estreia de Aguilera, de 1999, vendeu 12.1 milhões de cópias pelo mundo, recheado de faixas grudentas como Genie In A Bottle, What A Girl Wants e Come On Over. Cansada das comparações fáceis à Britney Spears e de posar como uma princesa loira, Aguilera renasceu em 2002 como uma diva escura – pintou o cabelo de preto, trocou o guarda-roupas adolescente por um proibido para menores, e passou a escrever letras sérias sobre sexismo e violência doméstica em Stripped. Até agora, o álbum vendeu mais de 8.3 milhões de cópias pelo mundo, graças basicamente à vencedora do Grammy, Beautiful, um hino tão honesto e bonito quanto At Seventeen, de Janis Ian em 1975 (De acordo com Aguilera, Beautiful, escrita por Linda Perry, foi oferecida inicialmente para Pink, que a descartou).

“Ela tem muito mais ousadia se comparada à Britney e às outras”, diz o diretor Paul Hunter, que trabalhou com todo mundo desde Madonna à Whitney Houston e Jennifer Lopez. “No fim do dia, elas só querem ter a sensação de que você vai fazê-las ficar maravilhosa na tela, que a câmera está posicionada para o rosto e o corpo ficarem bonitos”. De acordo com Hunter, o ângulo favorito de Aguilera é “de frente e caminhando até à câmera de forma bem agressiva, atacando as lentes”. Ele sorri enquanto se lembra de filmar o ultravampy clipe de Lady Marmalade, em 2001, com Aguilera, Mya, Pink e Lil’ Kim: cada cantora foi para trás de portas fechadas com os próprios maquiadores e cabelereiros. “Eu ficava imaginando quem ia sair primeiro”, Hunter diz. “Mya saiu”. E Aguilera? “Ela foi a última a sair, e com o maior cabelo”.

Assim como Madonna há 20 anos, a imagem provocante e explícita de Aguilera atrai fogo de todos os lados. “Eu vejo os clipes dela e fico muito brava”, diz a vencedora do Grammy Amy Lee, do Evanescente, à uma recente entrevista para a Rolling Stone. “Eu acho que ela está contrariando tudo o que o feminismo deve ser”. Mas ao contrário do dom musical de Madonna, o de Aguilera é à prova de balas.

O presidente da A&M Records, Ron Fair, se lembra de Aguilera aos 16 anos de idade, lá em 1997, em pé em seu escritório e cantando a capella em um teste. “Foi um daqueles momentos que só ocorrem uma vez na vida, que nunca se repetirá”, ele diz sério. “Christina tem um ouvido nato. A música é medida em intervalos: o espaço entre as notas é a estrutura harmônica; a onde surge e os cantores surfam nela, e muitos caem. Christina não apenas nunca cai, como tem a habilidade de pular em cima da estrutura. Ela surfa de forma única”. Além de tudo, “ela ainda tem o ritmo, a habilidade de interpretar a batida da múysica e de cantar por cima dela”.

A avó dela foi a primeira a notar isso, quando Aguilera só tinha 7 anos de idade. “Ela olhava para minha mãe tipo, ‘Ela tem um talento aí'”, Aguilera comenta, com o rosto se amaciando com a memória. Aquela foi o ano em que o pai de Aguilera, um sargento do exército, e a mãe, uma violinista, puseram um fim no casamento. Aguilera se lembra de morar em Wexford, Pennsylvania, e “minha avó me levava para a cidade, naquelas lojas de discos antigos, e nós ficávamos procurando e comprando aquelas cantoras soul antigas. Se você quer ouvir sofrimento, tem Nina Simone – ela realmente te leva ao ponto das lágrimas. Se você quer crueza, voz, poder e ousadia, tem Etta James; ela é a minha absoluta favorita. Billie Holiday era sutil, de qualidade especial, e Dinah Washington tem o vibrato…”.

Quando Aguilera tinha oito anos, ela se apresentava em shows de talentos, cantando How Will I Know e I Wanna Dance With Somebody de Whitney Houston. Ela perdeu na final do Star Search em 1989, mas foi contratada pelo Mickey Mouse Club alguns anos depois. Fair lembra de ter assistido os vídeos antigos do Star Search e ter se chocado que “ali estava uma criança de 8 anos de idade cantando com voz de adulta”.

UM MÊS DEPOIS do nosso encontro, nós marcamos outra entrevista. Agora, Aguilera está leve, aberta e pronta para começar, até mesmo ri das últimas histórias dos tabloides. Uma diz que Aguilera está noiva do namorado Jordan Bratman, que trabalha para os empresários dela, Irving Azoff. “Eu não sei de onde saiu esse boato”, ela diz, jurando que são falsos. “O mais engraçado é que… porque eu mudei meu cabelo de preto para caramelo, estou lendo essas manchetes, ‘De suja para elegante’, ‘Do lixo ao luxo’. Estava me matando de rir. Tipo, ‘O novo amor’, ‘Uma mudança pelo amor’. Me dê um tempo! Agora Britney é a garota má correndo enlouquecida e eu sou a boa menina se apaixonando”. Ela realmente ri agora. “Esse é o novo ângulo deles. Nós mudamos de papel, boa garota e má garota. É muito engraçado!”.

Bratman não é um novo amor; eles estão juntos por mais de dois anos, “desde que Dirrty foi lançada”, Aguilera diz. “Em todas estas mudanças, ele esteve sempre ao meu lado, me apoiando o tempo inteiro. Mesmo quando o pessoal da moda está dizendo, “‘faça isso, fala aquilo’, ele sempre diz, ‘Quer saber, Christina? F-dam-se, eles. Você faz você mesma. Já chegou até aqui'”. Aguilera comenta que “ele faz piadas sobre meu cabelo e visual, ‘Oh eu amo, é uma namorada nova o tempo todo’!”.

Aguilera só amou de verdade duas vezes, e nunca antes dos 18 anos (a primeira vez foi com o dançarino dela, Jorge Santos). Por ter testemunhado o abuso que a mãe sofreu, Aguilera se obcecou com apenas uma coisa no colegial, e não era nenhum garoto. “Eu curtia escrever minhas músicas”, ela diz. “Se um cara queria algo mais sério ou namorar por um longo período, eu pensava, ‘Bom, vou ter que sair da cidade em busca de um contrato com uma gravadora, e é isso.’ Eu não posso, minha carreira vem antes. Eu nunca quis me colocar na posição onde eu me sentiria vulnerável ou necessitada de ter um homem em minha vida sob qualquer forma para me apoiar, me dar um teto ou colocar dinheiro no meu bolso”.

Ela documentou o trauma da infância em “I’m OK”, no Stripped. “Hurt me to see the pain across my mother’s face/ Every time my father’s fist would put her in her place/ …It’s not so easy to forget/ All the marks you left along her neck/ When I was thrown against old stairs/ And every day afraid to home in fear of what I might see next….”

Em 2000, depois de ter ficado sem vê-la por 12 anos, o pai de Aguilera entrou em contato. Naquela época, ela já tinha sido indicada para um Golden Globe, por Reflection, trilha da animação Mulan, e já tinha dois singles de sucesso e uma turnê para o primeiro álbum. “O motivo dele tentar se reconciliar repentinamente e ser parte da minha vida me deixou um pouco desconfiada”, Aguilera diz de forma quieta. “Mas eu mandei ingressos para que ele e meus avós vissem um dos meus shows. Ele foi até os bastidores, tiramos fotos e tudo mais… Eu não o odeio. Eu tento perdoar. Sou uma pessoa espiritual e tendo não me amargurar com o que eu já assei. Mas eu não acredito que devo alguma coisa a ele a ponto de querer ser parte da vida dele depois que ele não quis ser parte da minha por tantos anos. Eu sempre quis me posicionar para apoiar a mim mesma. É por isso que coloco um certo ar na minha frente, algo que me separa dos outros de modo que só eu tenha controle sobre mim. Acho que sou meio homem, nesse sentido”. Ela ri. “E você tem que ser homem demais para lidar com uma mulher durona”.

Como todos os grandes, “Eu planejo fazer isso por muito tempo”, Aguilera diz. “Atualmente, eu estou muito certa do que eu quero e para onde eu pretendo ir. E não quero deixar de arriscar e me tornar a queridinha dos outros, quero somente fazer o que está no meu coração. Eu tenho uma frase no meu diário que uso para me guiar – ‘Eu não pretendo andar minha vida inteira na ponta dos pés só para chegar segura na morte'”.


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