Revistas / 2004 / Allure (Janeiro)

A Allure é uma revista de dicas de beleza e moda voltada para o público feminino

Christina Aguilera: excêntrica, profana e destemida

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
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BEIJA E ESPALHA – O comportamento de Christina Aguilera é suficiente para causar uma úlcera em qualquer porta-voz. Ela solta o verbo sobre Britney, dubladores e uma American Idol.

No alegre playground do pop, Christina Aguilera é constantemente mais atrevida do que as outras crianças do Sour Patch. A lista de coisas que ela odeia inclui reality shows (“Um monte de besteira sem sentido”), Las Vegas (“Tudo superficial e para turistas”), namorar outros artistas (“eles são muito focados neles próprios”), e compras (“Eu fico muito entediada rápido demais”). E também tem o mundo da moda. “Não é para mim”, diz o novo rosto da Versace e da Skechers. “Os rótulos, a superficialidade, o ‘queridas!’. Qual é a nova palavra da vez? Ah sim, ‘mara’. Terrível, terrível”.

Do contra e contraditória, e é por isso que a amamos. 30 segundos depois de conseguir o sucesso com o primeiro álbum, ela trocou o inocente e doce Genie In A Bottle pelas calças cortadas e sujas – e nos parece claro que ela continua lutando contra os consultores de imagem a cada passo que dá. “Não me interessa colocar um vestido bonitinho e cantar uma música bonitinha em um palco bonitinho. Eu poderia fazer um CD inteiro de ‘Beautiful'” – a bem sucedida balada de auto estima dela – “e usar vestidos lindos para deixar todo mundo feliz, sabe? Mas isso não me inspira, e eu não acredito que inspire outras pessoas. A palavra ‘bonito’ só representa um estereótipo que a sociedade criou para definir o que o coletivo considera bonito, o que é, basicamente, um cabelo loiro. Eu prefiro a palavra ‘interessante’ a ‘bonito’.

De alguma forma, Aguilera consegue se safar com essa atitude, que em qualquer outra pessoa poderia parecer mais como ‘nojenta’ do que ‘segura’. Na verdade, o fato dessa mulher profana não conseguir segurar a boca fechada – em mais de uma maneira – pode ser precisamente o motivo dela ter tantos fãs. Para todos os vídeos em que ela aparece rebolando e para todas as questionáveis escolhas de figurino nos tapetes vermelhos, ela tem um talento vocal mais puro do que qualquer outra artista da geração. Ela sabe disso, bem como todo o resto da indústria fonográfica.

Glen Ballard, o compositor e produtor por trás de muitos sucessos de Alanis Morissette, trabalhou com ela na faixa The Voice Within. “Com Christina, praticamente não importa como ela está visualmente.”, ele diz. “Porque o que sai dessa mulher minúscula é uma voz do tamanho do Kansas!” (A descrição que Aguilera dá para The Voice Within? “Época de natal, grande balada, blá blá blá”).

Até os magos respeitam o talento de Aguilera, apesar disso não significar que Aguilera os respeite de volta. Em uma noite recente, Aguilera se esbarrou com o executivo musical e ex-marido de Mariah Carey, Tommy Motolla, em um restaurante italiano em Nova York. “Ele mandou uma sobremesa até minha mesa, então quando eu estava indo embora, fui até ele dar tchau. E ele disse: ‘Não se esqueça, tudo se resume a isso'”, ela diz, enquanto aponta lentamente, com uma mão, para as cordas vocais. “Eu entendo completamente o que ele quis dizer, mas ao mesmo tempo, isso me chateia. Porque… é claro que eu sei que eu posso subir em um palco, abrir a boca, e eu não quero falar isso para parecer convencida, mas – é claro que eu sei que eu não preciso de fumaça, cenários, fogos e luzes, nada disso. Nada disso importa no final do dia”.

Aguilera gosta de usar a expressão “fumaças e espelhos” para descrever as intermináveis sessões de fotos e coletivas de imprensa que começam com “algo que você sempre sonhou”, ela diz, e se tornam “um tipo de fardo – você percebe que não passa de um mero produto para algumas pessoas”. No entanto, às vezes, ela gosta de se direcionar a esse marketing usando roupas, penteados e piercings chamativos. “Eu tenho 22 anos e amo explorar”, ela explica. “Eu amo brincar com as coisas. Mas se você não toma cuidado, você perde a pessoa que é por trás de toda essa imagem”.

Esse último ano foi uma mistura de imagem e conteúdo. De conteúdo, ela lançou o segundo álbum, a coleção rock-hip-hop Stripped (“Eu só queria me livrar de tudo e me despir emocionalmente”, como ela explica o título do disco, com um olhar aberto enquanto entoa o som audacioso do nome). No lado mais ligado à imagem, ela rodou a América com o velho amigo do Clube do Mickey, Justin Timberlake (“Ele tem um coração bom – mas nós não passamos muito tempo juntos”) e foi parte em um dos mais recentes golpes publicitários da história da música – quando ela e Britney beijaram Madonna (a quem ela chama de ousada e corajosa) durante uma apresentação no Video Music Awards da MTV.

Obviamente, todas as envolvidas nesse beijo triplo sabiam que o momento foi coreografado para garantir espaço na mídia, ainda que Aguilera se mostra espantada com todos os comentários. “Tem horas, que a MTV mostra ter a cabeça de um tablóide”, ela diz. “Claro que eles vão pensar em ‘vamos mostrar a reação do Justin! O momento em que ele vê Madonna beijando a ex-namorada dele!’. Ele não vai esboçar nenhuma reação porque sabe que é isso que você está querendo. E quer saber, eu fiquei um pouco brava com a MTV. Foi algo meio ‘Oi, estão lembrados da performance?’. Eu odeio isso, não aguento esse lado da indústria.”

Mas ainda assim, ela faz parte dela. “Eu participei por diversão”, ela comenta. “Porque certas performances são divertidas. Se eu quisesse, eu podia me afastar completamente desse mundo – e não vender nenhum álbum”, ela acrescenta. “Um rosto tem que aparecer com um produto”.

COMO UMA VIRGEM – Se alguém ainda duvida da habilidade de Aguilera em falar tudo o que pensa, os comentários a respeito daquele momento na premiação resolve a questão. “[Britney Spears] precisa da publicidade, vamos colocar dessa forma”, Aguilera diz. “O que mais ela tem no momento? Porque essa história de abrir a boca na hora não foi ensaiada”. Aguilera ficou surpresa com a parte musical da performance. Antes do show, ela teve “uma conversa com Madonna pelo telefone. Eu perguntei, ‘como vai ser a parte ao vivo?’. É importante para mim. E ela disse ‘É obrigatório que tudo seja cantado ao vivo’, então eu não sei o que aconteceu no último minuto, mas tanto faz… eu fiquei decepcionada que o público não estava ouvindo tudo ao vivo. E não foi só a Britney. É decepcionante, sabe?”

É claro que Aguilera não odeia tudo na face da terra. O mais recente filme que ela gosta é Basquiat, e ela parece se identificar mais com o pintor do que com a ex-namorada dele, Madonna. “Você vê um filme como esse e percebe a crueza de ser simplesmente um artista”, ela diz. “Você consegue perceber o tanto de gente querendo ganhar dinheiro às custas dele, ou tentando descobrir o próximo Van Gough, como um deles diz. Ele simplesmente não se importava! E é esse tipo de gente que eu admiro, quem faz o que ama só porque ama, não pelo que os outros pensam”.

Sem surpresas, ela não hesita em dividir as regras que definiu para as performances ao vivo – dela e dos outros. De acordo com Aguilera, o espírito de Milla Vanilli estava vivo e presente no palco daquela cerimônia da MTV. “Eu me decepcionei muito”, ela conta. “Eu não vou falar o nome de ninguém, mas tem uma vocalista em particular que eu sei que pode cantar, e cantar ao vivo, mas que decidiu não fazer assim. É tipo, ‘onde que foi parar a música’, sabe? Você não precisa ser uma cantora para ser bem sucedida, é muito triste”.

Os apontamentos de Aguilera continuam enquanto ela comenta sobre outro incidente musical com outra colega. Miss Independent, o single gravado pela vencedora do American Idol, Kelly Clarkson, é uma faixa que Christina originalmente desenvolveu para o Stripped. “Eu meio que superei aquela música, sabe?”, diz Aguilera, que começou a trabalhar na faixa junto a Rhett Lawrence e depois a descartou. “Eu passei a trabalhar em outras músicas, mais sofisticadas, e aquela em particular perdeu o sentido”. Até que um dia, Christina ouviu a faixa na rádio, com Clarkson creditada como uma das compositoras (Lawrence, Aguilera e Clarkson dividem os créditos da composição no encarte do CD). “Eu pensei, ‘Ok, quando foi que eu aprovei ou não aprovei isso, e a bunda de quem eu devo chutar agora?'”, Aguilera conta.  “Não foi culpa dela, e eu não a culpo, mas estamos sob a mesma gravadora, o que torna tudo uma bagunça ainda maior. Algumas pessoas receberam alguns telefonemas e no final tudo ficou bem. Está tudo resolvido.”

Aguilera parece querer diminuir o tom chocante da sua música. “O meu próximo álbum vai ser dedicado a girar em torno só da minha voz”, ela diz. (ela está no processo de colecionar ideias e escrever músicas). “Eu quero fazer ele com o que vem da minha alma. Dizzie Gilespie, Etta James – todo mundo sabe que eu a amo – e Coltrane. Eu quero muito só subir no palco, pegar um microfone sob a luz de só um refletor, e, sabe, simplesmente cantar”.

Sempre sobra o medo de que, uma vez que ela se cobrir, as pessoas passarem a perder o interesse. “Eu não consigo contar quantos ternos eu usei para cantar Beautiful, mas algum deles foi publicado?”, ela pergunta indignada. “Não. É como se todos os lugares em que as pessoas me vissem, eu estava usando as calças cortadas”.

Talvez as pessoas parem de flagrá-la nesse tipo de calças se ela parar de usá-las. Mas todos esperam que ela mantenha um pouco dessa atitude na parte do mundo da música que lhe pertence – e que mostre ser mais Chrissie Hynde e menos Celine Dion. As chances parecem boas. “Se você quer ser um verdadeiro artista, tem que perceber que nem todo mundo vai amar você”.


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