Revistas \ 2002 \ Rolling Stone (Novembro)

A Rolling Stone é uma revista sobre cultura pop

Dentro da mente suja de uma princesa do pop

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
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ALGUÉM VIU A CHRISTINA? – Era tarde da noite em Miami, no final do ano passado, quando Christina Aguilera descobriu a felicidade terapêutica de quebrar as coisas. Ela tinha acabado de terminar com o namorado, Jorge Santos – um dos dançarinos da turnê e primeiro amor – e não estava feliz. Ela levou todo o ressentimento e a raiva para uma boate, e agora que ela estava lá, ela não sabia o que fazer com eles. “Minha cabeça estava em um lugar estranho”, ela lembra. “Eu não era mim mesma, certamente. Eu estava correndo, louca, experimento as coisas pela primeira vez.”.Um amigo dela, percebendo o dilema, a levou até uma das salas reservadas da boate e a entregou um copo de champagne. “Quebra”, ele disse. “O que?”, ela perguntou. “Joga na parede”, ele instruiu, pegando outro copo e jogando com força contra a parede. Ela imitou, e enquanto o copo se despedaçava, algo se liberou dentro dela.

 “Foi a primeira vez que eu quebrei alguma coisa, e me fez sentir tão bem”, ela disse. Naquela noite, ela quebrou aproximadamente duas caixas de copos de champagne. Depois, ela se sentiu “bem para a porr*”.

 Aguilera não se livrou de toda a raiva que tinha depois daquela noite, nem é uma alma sem conflitos a ponto de não sentir outras agonias (amargura, paranoia, insegurança, desespero por aprovação), dos quais a vida seria bem mais simples se não existissem, mas talvez ela esteja aprendendo a lidar com tudo isso. As gravações do nosso álbum, Stripped, não foram um processo simples, constante ou rápido, e tiveram diversos momentos difíceis no caminho. Em um dia em particular, ela se achou incrivelmente irritada, e o sentimento não passada. Ela aprendeu várias formas de liberar o stress dentro do estúdio: esmagar sacolas de chá contra as paredes, por exemplo, ou fingir que ela estava em um filme de terror e sair correndo e gritando. A compositora Linda Perry, que trabalhou em quatro músicas do Stripped, sugeriu que Aguilera simplesmente gritasse do fundo do pulmão. Mas às vezes, nada disso era o suficiente. Ela tinha aprendido outra técnica, agora. Ela pedia que um assistente fosse ao shopping mais próximo e comprasse diversos copos e pratos. Ela se encarregava do resto.

 Hoje, tinha uma reunião em Los Angeles, nos escritórios do empresário de Christina, Irving Azoff, para escolher as fotos do encarte do CD. Ela se atrasou, mas até onde eu percebi, ela sempre se atrasa. (Eventualmente, eu a pergunto sobre isso. Ela se mostrou surpresa, riu e disse: “Oh, essa deve ser minha pior característica.”, apesar de que depois ela me explicou que sempre demora para acordar e depende de outras pessoas para levá-la aos lugares, porque apesar de ter uma carteira de motorista, ela não gosta de dirigir em Los Angeles, com medo de “processos e outras coisas”, e…). Depois de uma hora e meia, ela chega. As fotos que estão sendo consideradas para a capa do Stripped mostra ela de topless, com o cabelo cobrindo os seios para dar um ar mais decente. Ela estuda as imagens. Cobre, com uma das mãos, o rosto de uma foto. Com a outra, cobre do quadril para baixo. “Minha barriga está bem, nessa”, ela diz. “Está tão curvilínea”. O designer, Jeri, contraria os close-ups que Aguilera gosta. “Sua cabeça parece muito pequena”, ela diz. “Mas eu gosto da expressão”, rebate Aguilera. “Me faz parecer atormentada, como se eu estivesse pensado em alguma coisa”. Aguilera então rejeita uma foto que Jeri gosta. “Eu não acho que se parece comigo”, ela diz. “Parece uma cantora de ópera, sei lá.”. “É muito bonita.”, Jeri comenta desinteressada. “É.”, diz Aguilera. “Eu não gosto do bonito. Foda-se o bonito.”.

 Como muita gente percebeu, a Christina Aguilera que apareceu em 1999 cantando “Genie In A Bottle” – a última menina de olhos brilhantes, cabelo loiro, inocentemente sensual, comportada, e cantora adolescente que dominava o mundo – não existe mais. No primeiro dia de nossa conversa – quando, ela diz, está confortavelmente vestida, o cabelo está arrumado em um coque bagunçado, parcialmente coberto com um pano sob um boné de baseball da Pony, usando uma blusa rosa com a palavra “Gotcha”, calças camufladas largas, um pouco abaixo da cintura na frente, o suficiente para revelar um pouco da calcinha. (“Não é nada fio-dental”, ela comenta. “É do meu namorado, é uma daquelas porcarias bem confortáveis”). No braço esquerdo, um pouco acima do cotovelo, ela usa uma faixa que diz 69. (“É engraçada”, ela comenta.). “Eu não uso saias floridas abaixo do meu calcanhar. Eu sou assim, eu acho”.

 Recentemente, suas escolhas no vestiário foram alvos de muito comentários. A colunista Liz Smith disse que ela e Britney Spears foram ao MTV Video Music Awards vestidas de “as últimas prostitutas”. “Eu sei, eu ouvi algo a respeito disso,” Aguilera fala. “Quem se importa com o que eu vesti em uma droga de uma premiação? É o VMA’s. Eu estava feliz com minha roupa e vestiria de novo.”. Lendo sobre essa roupa, eu digo, foi a primeira vez que eu ouvi o termo “decote ao contrário”.

 “Ah é, era isso mesmo”, ela diz. “Droga. Eu estava lá fazendo o que tinha que fazer, e era confortável. Era só um pedaço de roupa. Se eu tivesse em um beco à meio noite, usando algo daquele tipo, tudo bem, era meio de prostituta. Mas eu estava em uma porcaria de uma premiação! Eu sou uma artista! Estou interpretando um papel. Eu não me visto daquele jeito para ir à uma boate. Eu só me visto dessa forma para ocasiões assim. Prostituta. Que seja.”

 Quando eu a pergunto o que ela faz com esse tipo de comentário, ela responde: “Eu gosto de ser diferente. Eu nunca segui a moda e não vou mudar só porque em uma revista disseram que eu era uma das… como eles chamaram? – uma das celebridades com os piores cabelos”.

 Aguilera está sendo levada em uma SUV para os estúdios de gravação com Allison Azoff, a filha do empresário da Christina e guardiã diária dos negócios da cantora. Aguilera quer tocar um mix de uma das músicas, mas ela não consegue fazer o tocador de CD funcionar. A frustração é evidente. “Eu odeio essa porra desse carro.”, ela diz. Se senta em silência por um minuto, então começa a passar pelas estações de rádio, sem parar por nenhuma delas por mais de alguns segundos.

 Nos estúdios Enterprise, ela se encontra com Scott Storch, que co-escreveu e produziu muito do Stripped  e é um dos colaboradores essenciais nos melhores trabalhos de Dr. Dre, apesar de reclamar que “Ninguém sabe quem eu sou…”. Ela foi até lá para ouvir o que espera ser a versão final de “Keep On Singin’ My Son”, a balada que deve fechar o álbum. Ele coloca a versão mais recente para tocar.

 “Been feeling like nothing’s going my way lately. . . .” canta Aguilera, tristemente, pelo som do estúdio. Na metade da música, quando a bateria começa a tocar, Aguilera movimenta a cabeça em sinal negativo. “Antes, tinha uma energia meio descontinuada”, ela diz. “Era parecida com Stevie Wonder. Agora, tem um ritmo muito perfeito”. Ela vai separando os detalhes, um por um, explicando o que ela quer e o que está faltando. “Eu quero aquela nota longa completamente sem efeitos… faz aquela mágica… não parece do coração, parece de plástico… a música perdeu um pouco daquela sensação de despida.”. Storch anota em silêncio. Às vezes, ele argumenta que o que ela diz que mudou, não mudou nada. Ele defende uma alteração dizendo que a anterior era um erro, mas ela logo se manifesta.

 “Então era um erro bom”, ela diz. “Scott, eu acho que você fez um trabalho incrível, mesmo. Essa música significa muito para mim.”.

 “Mas assim está bem melhor”, ele diz. “É, mas você não ama essa música como eu amo essa música”, ela diz. Ela começa a ficar irritada. “Porra, eu odeio gente assim. Você só está bravo porque eu não gostei das suas mudanças. Eu só quero ter certeza de que essa música não vai ficar superproduzida. Antes, parecia que nós dois sentamos em uma sala e fizemos ela juntos. Agora, parece que você me deu a música pronta, só para cantar por cima.”.

 Storch fica cada vez mais desconfortável e em determinado momento sai da sala. “Eu me sinto muito mal”, ela diz para Allison, “E eu não quero deixar ele chateado, mas a música tinha umas imperfeições que trabalhavam muito bem para mim. É como se ele tivesse feito uma balada perfeita da Diane Warren, e não uma música emocionada…”.

 Depois de um tempo, ela pergunta, “Devemos ir atrás do Scott?”. Ela encontra ele em um corredor e lhe dá um abraço. Eles voltam juntos para o estúdio, abrem garrafas de Corona e brindam juntos. “Você quer fazer um brinde?”, ele pergunta.

Mais tarde, ela vai para os testes de dançarinos para o próximo clipe, do single “Dirrty” (ela está atrasada). Em uma imensa e vazia sala no Millenium Dance Complex, mais de cem dançarinos esperam pela vez. Ela fica reclamando que nenhum deles está dançando agressivo o suficiente e que as mulheres estão sendo femininas demais. “É para ser sujos”, ela diz. “Vai ser um vídeo sujo.”. Enquanto o quarto grupo de homens está se apresentando, Aguilera se aproxima de mim e aponta discretamente para um dos dançarinos, que a olha disfarçadamente.   “É o meu ex-namorado”, ela diz. Você o fez passar pelos testes?, eu questiono. “Claro, ué!”, ela sorri. Depois de dois blocos, ele ainda estão na final dos escolhidos (eventualmente, ele consegue o papel no clipe.). No carro, Aguilera e Allison discutem o que elas viram. “Alguns deles são muito lindos”, Aguilera diz. “Eu achei que aquela menina branquinha sabia improvisar bem”, diz Allison. “É,” Aguilera concorda. “Acho que pelo menos uma pessoa branquinha vai ter no clipe, certo?”.

Jorge Santos e Aguilera começaram como amigos, e ele dançou para ela por meses antes de começarem a namorar. Eu pergunto se ele foi mesmo o primeiro amor dela. “Sim. Antes disso, eu sempre achei incrível ouvir histórias de amor que deram certo, mas para mim, eu estava tão focada na carreira, que comecei a achar que só acontecia com garotinhas fracas, vulneráveis. No fim, quando eu deixei ele fazer parte da minha vida, foi uma das coisas mais belas que eu já fiz por outra pessoa também. Ele foi minha primeira experiência sexual. Digo, antes você só ficava nas brincadeiras, preliminares, etc. Mas ele foi minha primeira vez. Ele foi meu primeiro… tudo.”

 Deve ter sido estranho ter como primeiro amor um dos empregados, eu comento. “É, mas era mais estranho para ele do que para mim, porque ele era esse porto-riquenho independente, decidido, que achava que podia fazer tudo por conta própria. Então era esquisito para ele saber que a namorada era quem pagava as contas deles. E era minha casa, minha comida, essas coisas.”.

Quando ela terminou a turnê, eles se mudaram para a casa dela em Los Angeles. Ela amou ter alguém que a esperasse em casa. Mas não durou muito tempo. Ela me diz sobre uma das várias músicas sobre ele no próximo CD, “Underappreciated”: “É sobre uma garota que está em um relacionamento por vários anos, e a novidade acabou, ele não para de ver televisão, não se deitam mais juntos para falar sobre os sonhos ou como foi o dia. Eu acho que me senti ignorada algumas vezes, porque eu cedi demais para ele, inclusive tentando fazer ele se sentir bem.”

Ela teve outro relacionamento, por mais ou menos oito meses, desde então. “Esse foi um desastre desde o começo.”, ela diz, chateada. “O nome dele é Filho da Mãe. Não, brincadeira.”. Não parece que ela está brincando. “Começamos bem casual, mas depois se tornou algo que eu realmente queria dar meu coração. Apesar de que, no fundo, no fundo, eu já imaginava que não ia dar certo. Mas eu gostava muito dele e queria que desse certo. Eu acho que me senti irritada comigo mesma por ter aguentado ele por tanto tempo. Eu me senti desprezada, abusada… não fisicamente, como minha mãe era, mas brava comigo mesma por ter me colocado naquela posição. Foi a primeira vez que eu tive que lidar com um “galinha”. Eu descobri depois que ele estava com várias garotas ao mesmo tempo, e nunca me dava o tanto que eu dava para ele. Me mostrou como os homens podem ser porcos.”

Pouco depois desse relacionamento ruim, seguido de uma séria decepção com dois amigos confiantes, Aguilera teve o que ela descreve como uma colapso. A família dela voou para Los Angeles para cuidar dela na recuperação. “Foi uma época muito difícil,” ela conta. “Tudo me desanimava… eu quase queria, sabe, me machucar. E foi a primeira vez que eu tive pensamentos desse tipo. Tinha muita dor e raiva dentro de mim.”.

Agora, vamos falar de três outras coisas que Aguilera gosta. Primeiro: Tem uma faixa no Stripped, um das últimas que ela fez, chamada “Get Mine, Get Yours.”. Ela não tinha certeza se queria essa música no álbum porque é uma das poucas que ela considera “sem significado”. É sobre “sexo casual… é o que o título diz. Eu consigo o que quero, você o que você quer. Dá pra fazermos assim e só nos divertimos. Uma coisa meio ‘quero seu corpo, não seu coração'”.

Segundo: Várias faixas do Stripped têm letras alternativas, com piadas. Aguilera inclusive as regravou por pura diversão. Ela me canta um trecho da versão comediante de uma música chamada “Cruz”: “Slowly drifting in a mellow high/Smoke some marijuana, he kisses up my thigh.” [Lentamente se transformando em uma chapada suave/Fumando um pouco de maconha, ele beija a minha coxa”]. Ela ri e diz: “Mas eu não fumo! Eu sou uma daquelas pessoas que só curtem bebida. Estou falando sobre, você sabe” – ela fala com uma voz bobinha – “maconha. Ficar chapada não é algo que eu gosto”. Depois ela diz, “Mas todos os meus namorados fumam. Então eu consigo aguentar isso perto de mim, eu só não participo, na maior parte”.

Terceiro: Um dia eu a vi lendo sobre uma festa do pijama que Jennifer Love Hewitt fez. “Eu ia assustar ela demais se ela viesse para uma das minhas festas”, diz Aguilera. “Foda-se a sobremesa, cadê a tequila?”, ela ri. “Ela gosta de um monte de garotos branquinhos que eu não quero. Eu gosto de homens com recheio”. Você nunca namora homens brancos? “Ele tem que ter sabor e um pouco de ousadia nele”, ela diz. “Eu não discrimino ninguém por causa das cores. Na verdade, eu saí com um recentemente. Coloquei um pouco de creme no meu café”.

Outro dia. Aguilera vai novamente ao estúdio. Ela está se atrasando, mas declara que está sentindo um pouco de dor de cabeça e precisa comer. Allison liga para um dos restaurantes preferidos de Aguilera, Houston’s. No carro, Aguilera coloca para tocar um dos sucessos de Redman no ano anterior, “Let’s Get Dirty”. Depois de amar essa música que Aguilera entrou em contato com o produtor, Rockwilder, e pediu um instrumental com o “mesmo tipo de intensidade e batida explosiva”. O que ele fez para ela acabou virando “Dirrty”. (Ela diz que o erro de grafia foi só para fazer algo diferente, nada inspitada na música de Nellu, “Hot in Herre”. Eles também consideraram chamar a música de “Dirtee”, “Dirrdy” e “Dirdy”.).

Essa noite, ela desliga “Let’s Get Dirty” depois de alguns minutos. “É estranho ouvir essa música agora”, ela diz – e coloca a música do Beatles para tocar, “Tomorrow Never Knows”. Ela então navega pelas rádios. “Hey!”, ela grita. É Dirrty. Ela aumenta o volume, e assim que chegamos no restaurante, fica no carro até a última nota tocar. Entrando e sentada numa mesa na esquina, Aguilera pergunta para a garçonete se o ar condicionado pode ser diminuído. A garçonete estranha a pergunta – é um restaurante imenso – e sugere que possivelmente não vai poder.

“Mas eles já fizeram isso antes”, Aguilera rebate firmemente. Ela pede uma bebida leve e um Corona. A bebida leve chega imediatamente; quando a garçonete volta para anotar os pedidos, Aguilera diz que “Eu ainda estou esperando pelo Corona”. No próximo retorno, a garçonete diz: “É uma grande coincidência, Brandy está sentada logo ali.”. “Uh-uh”, diz Aguilera. “Vocês já jantaram juntas alguma vez?”, pergunta a garçonete. Aguilera só olha para ela, evitando a conversa, para então comentar assim que a moça sai: “Só porque nós duas somos celebridades?”.

Assim que os pratos chegaram, Aguilera se alegra. “Eu estou com machucados e cortes muito feios na minha perna”, ela anuncia, para então me mostrar que no joelho tem uma gigante e irregular marca que ela diz que fez no clipe.Aparentemente, teve que lutar oito rounds de box.

Depois de comermos, ela vai para o estúdio, ouvindo a música do Peaches, “Fuck The Pain Away”. “Malucona!”, ela grita, entrando na sala de controle. “Sentiu minha falta??”. “Certamente”, diz Linda Perry. Ela perguntou porque Perry não passou nas filmagens do clipe, e Perry diz que estava ocupada. “Sei, sei. Você não gosta de mim.”, brinca Aguilera. Depois, ela pede por uma massagem. “Linda, por favor, por favor, por favor…”, ela implora.

“Não, não vou fazer nada disso”, diz Perry. “Mas você é ótima nisso!”, Aguilera comenta. E então mostra o machucado à ela. “Oh meu Deus”, Perry exlama. “O que que houve? O que você aprontou?”. “Você não viu a cena no chuveiro”, diz Allison. “O que você fez lá?”, pergunta Perry. “Me agarrei com uma garota”, Aguilera responde. “Se agarrou com uma garota?”, Perry questiona. “Cinco garotas”, Aguilera se corrige. “Eu não recebi o convite”, Perry diz.

De repente, a alegria acaba; elas ouvem a versão final de uma música chama “I’m OK”. Aguilera não fala nada. Na verdade, ela nem se mexe.

Christina Aguilera gosta de explicar que o novo álbum é chamado de Stripped porque “sou eu despida de todas as expectativas, das aparências, das controvérias, dos boatos.” Provavelmente – porque ela está semi-nua na capa do CD e porque tem uma música chamada Dirrty tocando nas rádios – muitas pessoas não vão acreditar nesse descrição. Mas se tem uma música que transcreve a sinceridade dessa declaração, é “I’m OK”.

Os eventos da infância da Christina não são segredo. A mãe, Shelly Kearns, casou com um equatoriano, Fausto Aguilera, que estava no exército americano. O relacionamento era violento e Shelly fugiu com Christina quando ela só tinha 6 anos. Christina foi criada só pela mãe (e, depois, pelo padrasto.). Apesar de ter pensado em ter um relacionamento amigável com o pai, ela também aprendeu como esses dias no passado afetaram ela.

Mas nada disso nos prepara para a verdade nua de “I’m OK”: “Hurt me to see the pain across my mother’s face/Every time my father’s fist would put her in her place/Hearing all the yelling, I would cry up in my room/Hoping it would be over soon/Bruises fade, Father/But the pain remains the same/And I still remember how you kept me so afraid. . .”

E isso tudo é antes do primeiro refrão acabar.  “Por isso música é tão importante para mim”, ela diz. “Eu corria para o meu quarto, arrumava todos os meus animais de pelúcia, fingindo que eles eram minha plateia, e cantava para eles. Fechava minha porta e escapava”. (Ela contava essa história nos dias de princesa pop, mas não mencionava porque ela corria para o quarto nem do que ela estava escapando). “Tudo era muito real”, ela conta da música. “As marcas no pescoço dela, que minha mãe sempre tinha depois de uma briga. Ela era enforcada com uma jaqueta do exército”, diz Christina. Essa foi a noite que a mãe dela disse que estavam partindo, apesar de ter recuado mais algumas vezes.Eu pergunto da parte que diz “Quando eu fui jogada contra as escadas”. Ela disse que isso aconteceu quando moravam no Japão. “Eu acho que atravessei a rua antes dele deixar. Ele me levou para casa e me jogou contra uma escadaria”. Então eu questiono a parte mais triste: “As sombras refletem à noite por uma rachadura na minha porta/O eco de uma criança quebrada gritando, “Por favor, não mais”.”  “Era uma época muito triste”, ela conta. “E eu ainda carrego isso. Eu acho que tenho muita raiva por conta desse passado, me faz ser agressiva ou acalorada sobre certas coisas.”. Apesar de cada refrão acabar com a frase título “I’m OK”, essa não é uma assertiva que a música tenta convencer. “Eu geralmente imagino porque eu carrego toda essa culpa/Quando foi você quem ajudou a construir esses muros em mim”, ela canta.

“É”, ela considera. “Às vezes eu me sinto mal porque não consigo me abrir mais para as pessoas, porque eu não consigo colocar um sorriso no rosto o tempo todo, porque tem algo errado comigo. Quando na verdade é meu passado e o que algumas pessoas me fizeram passar. Eu prometi a mim mesma que nada me faria tão desprotegida de novo. Que homem nenhum teria poder para me colocar naquela posição novamente. “

O pai dela mora em Nova York. “Nós não somos próximos”, ela diz. Ela não mandou a música para ele. “Tenho certeza que ele não vai gostar, mas espero que ele ouça e, já que é direcionada para ele, se sinta mal sobre o que fez. Não quero punir ele, nada disso. Eu só estou desabafando para meu próprio bem e para o bem de outros que podem estar passando pela mesma coisa. Eu espero que ele entenda isso e se torne um homem melhor. Eu não consigo evitar o que ele já fez, então espero que ele entenda que isso é parte do meu processo de cura.”.

No estúdio, o engenheiro Dave Pensado ajuda o eco em uma frase de “I’m OK.”. “A dor permanece a mesma… mesma, mesa…”, canta Aguilera.

No corredor, Aguilera diz à Perry que ela contou para a MTV sobre as batalhas de pingpong de mais cedo. “Que eu ganhei?”, Perry pergunta. “Que eu ganhei”, Aguilera rebate. “Bom, você é a estrela.”, comenta Perry, “então eles vão acreditar em você. Eu não sou ninguém.”. (Aliás, essa não é a primeira rivalidade no pingpong que Christina tem. Nos dias de clube do Mickey, quando as crianças mais velhas não estavam ocupando a mesa, Christina e Britney competiam. “Nós jogávamos o tempo inteiro”, diz Aguilera. “Eu acho que essa foi nossa maior competição. É a única vez que eu admito falar que nós duas somos rivais. Seria engraçado disputarmos hoje, de novo. Droga, eu ia acabar com ela. Ia ser muito divertido.”).

Redman e Rockwilder estão trabalhando no estúdio Enterprise essa noite. Aguilera chega e eles discutem o clipe de “Dirrty”. “Você perdeu a cena do chuveiro”, diz Aguilera. “Não acredito que você foi embora antes de filmarmos ela! Você é uma merda, Rock!”. Ela sorri. “É quente demais para a MTV”. “Você estava incrível na televisão”, ele diz. “O que isso significa? Que pessoalmente eu não estava?”, indaga Aguilera.

Quando Aguilera crescia, a avó dela disse à mãe dela que elas seriam expulsas de casa se Christina furasse as orelhas. Todas as meninas na escolha tinham brincos, e não parecia justo. Ela acabou colocando brincos também de qualquer forma, mas parece verdade dizer que as negativas da avó de Christina implantou a ideia na cabeça da cantora de que colocar piercings significava rebeldia pessoal, uma celebração privada.

Quando Aguilera estava na turnê do primeiro álbum, ela criou uma rotina. “Se eu estava tendo um dia ruim, ou se alguma coisa estava me chateando demais, problemas com homem ou o que fosse, eu queria fazer um piercing novo. Foi uma escapatória para mim. Algo que me fez mais forte e no poder. Porque era algo para mim e para mais ninguém”.

O primeiro desses piercings foi em um dos mamilos. (Muitas vezes, não dá para evitar perceber os contornos do piercing no seio direito). Ela também tem um abaixo dos lábios e um no nariz, bem como um entre as pernas. “Pareceu erótico colocar um piercing em um lugar que a maior parte das pessoas não teria coragem”, ela diz. “Você ouve pessoas dizendo que vai ajudar a atingir novos ápices sexuais, mas tanto faz, eu só acho bonito. Destaca bem.”

O ornamento em discussão é enfeitado com diamantes. “Eu nem sei quantos”, ela fala. “Porque está em um lugar especial. É muito bonito e bem caro, e eu gosto muito dele. Já me elogiaram muito.”. Eu levanto minhas sombrancelhas, um pouco. “Minha ginecologista!”, ela exlama. “Ah não! Não leve para esse caminho! Eu estava me referindo à minha ginecologista e à minha depiladora!”. Ela também diz isso: “Eu gosto muito das minhas jóias. Minhas pequenas feridas pontudas”.

Quando Christina está com os cabelos para cima, você vê o nome “Xtina” tatuado na nuca. É uma espécie de apelido. “As pessoas dizem que é quase uma personalidade dupla.”, ela conta. “Eu ouvi algumas pessoas dizendo, ‘Mm, seu lado doce, infantil, mais inocente, é a Christina, e o seu lado mais misterioso, escuro, ousado, é a Xtina.'”.

Passar um tempo com Aguilera mostra que os dois estão em evidência. As piadas de fraldas no estúdio, os torpedos que ela troca com a irmã mais nova (“O que você está fazendo, Rainha das Gordas?”, escreve a irmã. “Entrevista para a Rolling Stone – e você, Cara Amassada?”)… essas são claramente a Christina, e tem muito dela ali ainda. Mas, no momento, eu acho que é Xtina que vai marcar mais presença. “Xtina está aparecendo”, diz Aguilera. “Ela está mostrando as cores, agora”.


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