Revistas \ 2003 \ Q (Abril)

A Q é uma revista britânica sobre o mundo da música

A garota suja abre o jogo

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
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SEGREDOS E MENTIRAS – Você conhece Christina Aguilera. Quase que conhece. A diva destruidora enloquecendo em uma escandalosa dieta de bebidas e sexo de celebridades, certo? Não mesmo. A verdade é ainda mais chocante do que isto.

CHRISTINA AGUILERA tem uma pergunta. “Como você achou que eu seria antes de me conhecer?”. Ah, você sabe. Uma completa vaca. As sobrancelhas dela sobem, o queixo cai e ela dá uma risada trêmula. São por volta das 3 da manhã de uma quinta-feira em uma boate cara em Londres, e nas 5 horas anteriores, que passamos entrando e saindo de diversas das boates mais exclusivas da capital, Aguilera não deu nem sinal da reputação temerosa de ser uma diva.

Na verdade, ela é despretensiosa, conversadora, pronta para contar alguma fofoca de celeberidades e mesmo bem adorável.

Aguilera não tem medo de se divertir, algo que outras famosas de 22 anos geralmente fingem não gostar porque preocupam-se demais com a imagem que o público pode tirar, e vê algumas bandeijas de mojitos chegarem na mesa onde ela e os amigos estão sentados. “É melhor que isso não seja água”, ela me avisa, batendo com uma unha bem feita na lateral do meu copo cheio de vodka e tônica. Hoje, ela está vestido um top rasgado, jeans e um boné dos Rolling Stones. Uma jaqueta de denim e um cachecol estão colocados na cadeira do lado dela.

Apesar das matérias de jornal do dia seguinte, que falavam que ela andou com um time de seis guarda-costas exclusivos, só existe um – o amigável mas imenso Vern – bem útil, hoje à noite. Enquanto as pessoas olham para ter certeza de que é realmente ela, Vern deixa que eles olhem por um momento e depois, educadamente, pedem que eles não encarem e sigam se divertindo na noite. Os passageiros ocasionais gritam o nome de Aguilera, que responde com uma técnica perfeita de olhar e sorrir em cumprimento sem atrapalhar o ritmo da conversa.

É difícil ver nesta Aguilera aquela imagem caricaturesta dos tabloides de safada das boates saída dos infernos, ou aquela que veste calcinha fio dental na ousada colaboração com Redman, em Dirrty. “Lançar Dirrty fez exatamente o que eu queria que fizesse”, ela conta. “Eu estou aqui, esta sou eu, e gostando ou não, você prestou atenção. A sociedade é tão rápida na hora de julgar uma mulher – se ela quer ser sexual ou mente-aberta, logo é chamada de vagabunda, ou o que seja. Eu digo, D’Angelo fez um clipe que parece que ele está recebendo um sexo oral! As pessoas não levam em consideração que eu sou uma entertainer. Eu não estou sempre usando aquelas roupas”.

Você tinha alguma outra calcinha para cantar Dirrty além das que têm escrito Dirrty ou Nasty na parte de trás?

“Bom, Filthy apareceu na jogada mas eu não quis usá-las [risos]”.

Você parece ser mencionada em muitas listas de mais mal vestidas…

Eu te digo – e juro para você – que o dia que eu ganhar uma prêmio de mais bem vestida eu vou xingar, porque significa que serei mundana e comum. Se você olhar na sessão de mais mal vestidas, é onde as pessoas estão mais interessantes e se divertindo”.

QUATRO ANOS ATRÁS, Aguilera era, junto com Britney Spears, o estereótipo da princesa pop americana comportada. Ela ganhou o primeiro gostinha de exposição nacional aos 12 anos, ao lado de Spears e Justin Timberlake no programa de TV Clube do Mickey. Genie In A Bottle, o primeiro single do álbum de estreia, em 1999, gerou uma série de vendas que ultrapassou a marca dos 8 milhões. Em 2000, ela cantou na Casa Branca, no Superbowl, e ganhou um Grammy de artista revelação, encerrando o ano com mais dois álbums, o cantado em espanhol Mi Reflejo (ela ganhou um Grammy Latino por ele), e o lotador de estoques My Kind Of Christmas. Eram tempos que deveriam ser felizes, mas Aguilera estava miserável.

“Eu tinha 17 anos e estava feliz por conseguir um contrato e ter fãs. O sonho tinha se tornado realidade”, ela explica. “Mas não era quem eu queria ser e a mídia me viu como algo manufaturado, e para ser honesta, eu estava sendo morta de trabalho”.

Então Aguilera resolveu assumir o controle. Ela terminou com o empresário, Steve Kurtz – dando origem a uma série de ações judiciais que só terminaram recentemente – e deu adeus à imagem de boa-vizinha ao se vestir como uma prostituta ao lado de Lil’ Kim, Mya e Pink no clipe de 2001 do cover de sucesso de Lady Marmalade, de Patty Labelle. A roupa em si não era muito chocante, o problema foi o contraste com o conservador guarda-roupas da Christina até então.

Era ela quem sempre vestia as saias que iam até o joelho e enquanto Britney Spears usava a personalidade aparentemente inocente e a pública declaração de virgindade para fazer roupas como o uniforme colegial ou o macacão vermelho parecer uma garotinha brincando de fantasiar-se. Não mais. Não há nada recatado nas lingeries e meias calças de Christina, e não há dúvidas de que os dias como princesinha do pop acabaram.

Christina odeia o apelido “Chris” e ninguém a chama de “Tina”. A estilista refere-se a ela como “o pouquinho”, mas Christina não sabe se gosta do apelido. Geralmente é só Christina ou X, abreviação de Xtina – um nome criado em razão do significativo pulo da adolescente chiclete para a jovem mulher provocante. “É só um apelido que meu gerente de gravação me deu no primeiro álbum. Como Christmas vira Xmas, Christina vira Xtina. Pegou tanto que acabei fazendo uma tatuagem do nome na minha nuca. O que começou como algo mais interno acabou virando… tenho certeza que você já leu sobre isso… essa história de personalidade dupla. É bobeira”.

A tatuagem e o clipe de Dirrty são dois dos três assuntos que Christina rotineiramente enfrenta em entrevistas. A outra é sobre os piercings – ela tem, contando em voz alta, 9 ou 10 até o momento – incluindo aquele que ela usa no mamilo direito e no meio das pernas. “É tudo normal para mim, é entretenimento”, ela explica. “Tudo isso já foi feito por outras pessoas antes. Quem faz é que causa o choque. Pegue uma estrela do rock, isso não é nada. Pegue a… aquela que é vista como uma pequena garota do pop… e todo mundo reage meio, Oh o que é isso! É isso que os incomoda”.

Já se aproximam das 4 da manhã e é quase hora de encerrar a noite. Aguilera – com alguns drinks dentro dela, mas de forma nenhuma bêbada – é levada por meio da multidão até a saída da boate. “Ei! Christina! Dirrty! Música ruim!”, alguém diz enquanto ela vai até a saída. Aguilera, sem saber direito o que ouviu, olha por cima do braço do guarda-costas com uma voz crescendo em irritação: “O que você disse?”. Mas ela já está na metade das escadarias e longe dos ouvidos.

O cara lá atrás disse que gosta da sua música.

“Que cara?”, pergunta Aguilera distraidamente, enquanto uma explosão de flashes e 20 fotógrafos gritam “Christina! Christina! Christina!” ao sair do pavimento.

DEZ DIAS ANTES, meu primeiro encontro com a Christina foi em uma tarde de sábado horrendamente quente, no Sky Bar em West Hollywood, parte do igualmente exclusivo hotel Mondrian, onde Jennifer Aniston passou a manhã tomando Sol na piscina. Agendada para chegar às 3 da tarde, Aguilera – contrariando as expectativas – chega na hora, sem alarde e na presença do onipresente Vern, que senta de costas para nós em uma cadeira por perto. Fica abundantemente claro que a Senhorita Aguilera não quer ser interrompida até terminar a nossa entrevista, apesar dela assinar alegremente alguns autógrafos quando terminamos.

A primeira coisa que você repara é que ela é muito minúscula – 1,58m. “Muita gente fica surpresa quando vê como sou pequena”, ela diz quando me cumprimenta com um delicado mas firme aperto de mão. “Sempre me conheceram como a pequenininha da voz grande”.

Estudando o menu, Aguilera decide não comer e pede um Bloody Mary. Hoje ela está vestida com chinelos camuflados, boné de baseball, e jeans rasgadas. Uma camiseta preta dos Yankees não chega a cobrir a bronzeada barriguinha, o que instantaneamente acaba com os boatos de que ela é anoréxica (“Tenho que trabalhar um pouco a região da barriga!”).

Enquanto você conversa com Aguilera, tem a sensação de que ela sabe que o que quer que ela diga será postado em letras grandes em tabloides pelo mundo, apesar de que nunca temos a ideia de que ela limita os assuntos. Mencione algo que ela não quer conversar – como se é verdade que ela gosta de ir à clubes de striptease – e ela vai oferecer uma resposta curta e diplomática (“Claro, às vezes. Quem não faz isso?”). Ela então dá um sorrise e aumenta os olhos azuis, dando a impressão de que tem mais na mente dela mas este é o máximo que você vai conseguir ouvir.

Nos últimos dois anos, Aguilera tem aproveitado a vida dela da forma como quer. Nenhum tabloide fica completo sem uma foto da cantora em um tapete vermelho, mostrando as roupas que quase não estão lá, sem uma história de horror sobre o comportamento dela ou sem os detalhes de uma noite embriagada com qualquer namorado famoso que ela devesse estar saindo. Em contraste, a transição de Britney para uma adulta – ela é um ano mais nova que Aguilera – tem sido cuidadosamente orquestrada para os palcos, de forma ingênua, por meio de músicas como I’m Not A Girl, Not Yet A Woman, até às festas de adultos com pessoas como Fred Durst, do Limp Bizkit, ou o astro de Hollywood Collin Farrell.

Aguilera pode não ter chegado aos 21 anos de forma tão tranquila – e tem suportado ser alvo de trocadilhos cruéis no caminho – mas após ser vista como alguém que tentava alcançar Spears na corrida pelo tedioso na maior parte da carreira, ela parece estar rindo por último. É Christina, e não Britney, que está tendo os hits. Na verdade, a não ser que você conte o fato dela estar servindo de apoio para os braços de famosos bêbados, Britney não está em lugar nenhum hoje.

Apesar disso, bem sucedida ou não, Aguilera ainda tem que enfrentar um curioso comportamento ambíguo. Outras cantoras já usaram o visual e o corpo para vender discos, embora ninguém receba tanta imprensa negativa quanto ela. Jennifer Lopez conquistou algum nível de respeito, ao mesmo tempo que lançou o hilariante Jenny From The Block, cuja promoção trazia o namorado Ben Affleck aproveitando as maçãs encravadas pelo biquini.

No ano passado, Pink fotografou nua e lambendo um disco na capa da revista americana Spin, e ninguém questiou a integridade dela. Aguilera pousou nua para a Rolling Stone, com uma guitarra cobrindo as modéstias, e foi largamente criticada como uma puta. Não que ela se sinta vitimizada ou sequer incomodada com esta situação, mas sim curiosa com o motivo. “É engraçado – uma pessoa pode fazer algo e se eu fizer o mesmo, todo mundo comenta. Talvez porque eu tente ousar, ou ser honesta, e basicamente, eu estou pouco ligando”.

Destacamos que  a frase “eu estou pouco ligando” termina de maneira estranha – talvez seja uma ressaca da persona da época de revistas adolescentes – e Aguilera insiste que ela não tem uma “boca muito suja”. É verdade. Até mesmo quando eu desligo o gravador, ela raramente xinga.

Aguilera conta a honestidade – ao lado de ser uma boa amiga – dentre suas maiores qualidades. Esta honestidade, no entanto, é equilibrada com alguns problemas que ela tem com confiança. “No começo, eu sou definitivamente fechada”, ela diz, movendo os cubos de gelo da bebida com um canudo. “Sério, eu sou meio introvertida, e isso é estranho porque, como sou uma performer, as pessoas esperam que eu seja o contrário. Eu já confiei demais no passado e isso realmente me magoou”.

Além do desentendimento com o antigo empresário, as mágoas deixaram algumas marcas de dente quando ela descobriu que duas pessoas que trabalhavam com ela não eram tão amigos quanto ela imaginou. Um estava escrevendo um livro, e o outro, gastando rápido e sem controle o dinheiro dela. “Ele contratou uma stripper para fazer uma festa que ele ia dar e colocou dentro das minhas despesas de academia ou algo assim”, ela explica.

Na mesma época, após ter terminado com o namorado Jorge Santos, que morava com ela – também um ex-empregado, como dançarino – ela foi destruída em um relacionamento ruim com um produtor com quem ela planejava trabalhar. Ela não nomeia ele. “Ele não merece ter o nome mencionado. Na verdade, este relacionamento foi uma lição para mim, como esse meio pode ser traçoeiro”. No começo do ano passado, estes eventos conspiraram para que ela ficasse, como ela diz, “doidinha”, ao ponto de que a mãe teve que voar de Pittsburgh para cuidar dela um pouco.

“Não foi um colapso – esse termo tem sido exagerado recentemente. Eu só senti a necessidade de entrar em uma bolha e me esconder das pessoas à minha volta, porque eu não sabia no que ou em quem acreditar. Eu prometi à mim mesma de que jamais confiaria em alguém novamente”.

Essa não é uma decisão triste de se fazer aos 20, 21 anos?

“É, é sim. Mas ao mesmo tempo, eu tento manter a mente aberta. Eu tento [risadas]. É algo que eu tenho que melhorar em mim”.

AQUI VÃO algumas das coisas que Christina Aguilera te conta sobre ela. Ela come besteiras – nachos e tortillas são as favoritas – antes de ir para a cama dormir, onde ela dorme com a TV ligada. Ela tem uma pequena cicatriz no cotovelo direito, por causa de um corte com um vidro que ela quebrou 7 anos atrás. Perto da cicatriz tem um ponto verde embaçado, onde a ponta de um lápis ficou enterrada quando ela tinha 8 anos. As melhores matérias na escola eram inglês e ciência, e a pior era matemática.

Ela não gosta de perguntar aleatórias em uma entrevista, como, se você estivesse em uma ilha deserta, que três itens e discos você levaria? (o pager dela, um microondas, e um tocador de CDs portátil para ouvir o Legend de Bob Marley, Illmatic do Nas e New Form de Roni Size e Reprazent).

No tempo livre, ela gosta de fazer “coisas normais”, como jogar ping pong, tomar banho de espuma ou andar com os cachorros – Stinky e Chewy – apesar de que em um dos últimos dias de folga ela alugou um jato particular e levou algumas amigos para tomar vinho em Napa Valley. Ela gosta de beber aqui e ali, mas não usa nenhum tipo de drogas. Antes de fazer o próximo álbum, ela gostaria de fazer um filme – o ideal seria interpretar uma personagem “psicótica e sem limites”. Ela acha Nova York muito claustrofóbica e acabou de comprar uma casa de cinco quartos em Hollywood Hills, onde ela vive sozinha. Ela não é – prepare-se para essa – virgem.

Quando que a virgindade passou a ser algo tão importante para cantoras jovens?

“Eu nunca disse que era virgem, mas Britney disse e aí a rivalidade Britney/Christina tomou proporções imensas. Eu acho que esse novo álbum definitivamente me distancia do que ela está fazendo, especialmente na forma com que me apresento”.

Você curte ser um símbolo sexual? Um objeto de luxúria?

“Eu gosto muito de ser mulher. Nós somos seres  tão sensuais. É por isso que a ideia de duas mulheres juntas é muito mais sexy do que dois homens. É legal de brincar com esse título, mas eu não gosto de cair na onda de como as pessoas me veem porque pode te levar à loucura”.

As pessoas esperam que você seja bem carregada de sensualidade?

 “O que, o tempo todo?! Acho que sim, acho que tem bastante gente aí fora que não entende bem o que sou”.

Tem algo que você gosta de fazer mais? Em uma entrevista você disse que curtia ser algemada e jogada no quarto…

“É claro que quando você faz uma entrevista inteira, eles vão escolher exatamente o que der para usar na hora de fazer a história sobre o quão provocativa eu gosto de ser e tudo mais. Eu gosto de me divertir – isso não é mentira – mas ao mesmo tempo, nós só mencionamos o assunto por uns dois segundos.”

Te magoa quando as pessoas fazem piadas comparando você à uma prostituta?

“Não, isso não. É tudo brincadeira. Coisas que alguns artistas dizem de vez em quando, no entanto…”

Na época em que manteiga não derretia sozinha na boca de Aguilera, ela tinha se tornado o alvo inocente da moda para os garotos brancos da América. Eminem fez referências à uma fictícia atividade oral envolvendo ela, Fred Durst e VJ Carson Daly da MTV na música The Real Slim Shady. A faixa foi, aparentemente, feita em retalhação a um comentário de Aguilera sobre as letras em que Eminem falava sobre assassinar a esposa, e desde então eles já se abraçaram e fizeram as pazes.

No fim daquele ano, depois que Fred Durst se uniu à Aguilera para um dueto surpresa na performance  do hit Come On Over Baby (All I Want Is You) em uma premiação da MTV em 2000, ele alegou que “o sexo” foi a única motivação dele.

“É tudo um jogo”, Aguilera comenta calma. “Eles sabiam que se dissessem algo sobre uma ‘princesa do pop’, eles ganhariam atenção. O jeito mais fácil de ganhar novamente o respeito de pessoas que Fred tinha deixado de ser legal foi dizer que nós dormimos juntos. Ele não ganhou sexo nenhum. É engraçado porque você sabe que não fez nada com essas pessoas. O problema não é meu. É deles”.

Mais recentemente, Kelly Osbourne tem comentado tanto sobre Aguilera que a cantora decidiu esclarecer pessoalmente a história. “Esta é outra! Ela deve estar apaixonada por mim porque fala a meu respeito a cada cinco minutos. Eu a vi em uma boate e falei, ‘Olha, qual o seu problema?’, mas ela não tinha nada para dizer. Se você vai falar merda de mim, fale na minha cara, porque quando você recua mostra que está falando só por falar.

Com tantas histórias de tablóides, é fácil esquecer que Aguilera é, na verdade, uma cantora. A grande balada de auto-confiança, Beautiful, o single atual do álbum Stripped, mostra uma voz que é tanto forte quanto versátil o suficiente para para sobreviver a fascinação das rádios pela vida dela fora dos estúdios. O resto do álbum passa por uma diversidade de estilos, incluindo R&B sedutor, rock alternativo e baladas sofridas, com aparições especiais de Alicia Keys, Lil’ Kim e Dave Navarro.

Muito do Stripped – onde Aguilera divide todos os créditos de composição, exceto de duas músicas – é auto-biográfico, por vezes intenso demais, com uma nada pequena variedade de demonstração de raiva reprimida pelas experiências dos últimos dois anos. Ela explica que o título refere-se a despir-se de toda a superficialidade do trabalho anterior. A capa, no entanto, mostra o perigoso equilíbrio entre Aguilera, a artista, e Aguilera, a mulher do sangue vermelhíssimo. Ela está de pé, em topless, olhos fechados, mãos sob as cabeças enquanto o aplique loiro no cabelo é largado para cobrir os seios.

O que você pensa quando se olha no espelho?

“Algo diferente todos os dias! [risadas]. Eu não sei! Eu vejo a mim mesma, uma garota que está mais confortável na própria pele do que nunca esteve antes. Algo específico?”

Você se considera bonita?

“Oh. Não o tempo inteiro. Eu não gosto muito de olhar no espelho e pensar que… Eu meio que… é divertido me vestir de visuais diferentes, mas eu não gosto de fazer aquela coisa de Barbie bonita”.

O que te mantém acordada à noite?

“Negócios. Eu não gosto de pensar desta forma, mas além de ser uma artista, eu sou uma marca, quase um produto [risadas]. Eu deixou um pouco destas coisas invadirem minha mente às vezes. Eu sou muito focada, levo minha carreira muito à sério”.

DE VOLTA À LUXUOSA suíte de hotel da Christina em Londres, ela concordou em nos dar mais uma última conversa antes de ir dormir e descançar para o voo de volta à Los Angeles amanhã. Depois de lanchar um sanduíche do serviço de quarto, sem maionese nem frango, ela pede licença para vestir as roupas de dormir. Dez minutos depois, com pés descalços em calças largas azuis e com uma camisa vermelha, ela cruza as pernas no lado esquerdo da cama, coloca a televisão na MTV e puxa um cobertor para se aquecer.

Você está de pijamas?

Mais ou menos [risadas]. Eu vou tirar estas calças depois que você for embora e então estarei confortável. Eu não gosto de dormir com roupas demais. Vem cá, senta mais perto de mim,” – ela diz, de uma forma muito mais amigável do que flertante – enquanto ela se ajeita em um monte de travesseiros e bebe um pouco de café. “Pega um pouco do cobertor se você estiver com frio”.

Aguilera diz que ela já amou duas vezes, o ex-namorado Jorge Santos e – uma pausa – uma outra vez depois dele. Ela está amando alguém hoje? “Tem alguém que é muito especial e eu o respeito muito. Nós começamos como amigos, mas pode se tornar muito mais”. Então ela está saindo com alguém? Os olhos dela ficam grandes de novo. “Isso é tudo o que vou dizer por agora!”.

Durante os três dias em que ela tem estado em Londres, os jornais têm reportado – de forma mentirosa – que Aguilera está no centro de uma briga de amor entre Leonardo DiCaprio e Justin Timberlake, enquanto Robert Dawney Jr a bombardeia com faxes amorosos. “Eu não sei de onde as pessoas tiram essas porcarias,” ela diz. “Robert Dawney Jr! Metade das pessoas com quem eles me conectam ‘romanticamente’ não fazem meu tipo mesmo. Pelo menos com alguém como Justin, nós saímos juntos algumas vezes, então eu percebo o motivo atrás dos boatos, apesar de não estar acontecendo nada”.

Aqui vão alguns outros boatos: você colocou silicone, você é lésbica, você está grávida…

“Eu espero que você saiba que nada disso é verdade! É só algo que você tem que encarar e esperar que as pessoas inventem histórias quando não encontram podres em você”.

Tem uma história que diz que na sua formatura do colegial, sua música Genie In A Bottle tocou e…

“Todo mundo saiu da pista de dança! Na verdade, todas as garotas pegaram os namorados delas e saíram da pista de dança [risadas]. Eu tinha 17 anos, tinha deixado a escola uns dois anos antes mas eu fui como par de um amigo que continuava lá. Foi muito triste – eu só estava sendo uma pessoal normal indo à formatura”.

Americanos não deveriam curtir o sucesso? Eles deveriam estar orgulhosos…

“Vocês estaria, certo? Quando eu cresci, foi interessante ver como as pessoas queriam me nocautear. Foi algo que me fez sofrer muito, mas me ajuda com o que eu passo todos os dias hoje, em uma escala muito maior”.

Porque você acha que tem essa reputação de ser incrivelmente complicada?

“Se alguém me passa a sensação de que eles estão sendo difíceis, então eu tenho que me superar e conseguir o que eu quero. Quando uma garota é forte em suas opiniões, ou está irritada com a forma com que certas coisas estão sendo lidadas, todo mundo diz, ‘Oh, ela é uma vaca’. Um cara faz a mesma coisa e ele só está sendo assertivo. É claro, outras vezes você pode simplesmente estar cansada depois de um longo dia”.

Você está feliz?

“Estou feliz com o caminho que as coisas estão tomando. O sucesso me deu a satisfação e a posição de falar contra a violência doméstica”. Ao invés de escolher uma caridade de estimação para colocar na bolsa das celebridades das boas causas, violência doméstica é uma causa da qual Aguilera tem uma boa razão para abraçar. O pai, Fausto Aguilera, é um equatoriano que serve o exército americano. A mãe, Shelly Kearns, deu a luz à Christina Maria em Staten Island, em Nova York, em 18 de dezembro de 1980, antes dos militares mudarem a família para o Texas e para o Japão.

Nos primeiros cinco anos da Christina, Fausto violentamente abusava dela e da mãe – uma situação documentada em muitos detalhes no Stripped, na música I’m OK – até que elas finalmente deixaram ele para eventualmente se lotarem em Pennsyvannia, onde Shelly casou novamente. Um talento precoce, Aguilera começou cantando o hino nacional para times esportivos de Pittsburgh aos 10 anos, antes de entrar para o Clube do Mickey e, bem, você sabe o resto.

“Eu não tenho um relacionamento com meu pai, mas perdoo ele pelo que fez. Honestamente, eu sinto que o que eu faço não significa nada a não ser que eu me exponha na luta contra a violência doméstica. Eu estou planejando construir minha primeira casa de proteção à mulher emPittsburgh”, ela diz de forma determinada. “Eu não tive que suportar ver minha mãe apanhando todos os dias para ser apenas uma cantora”.

Já são 6 horas da manhã e é hora de eu sair para deixar a ex-princesa do pop descançar. O vídeo de Beautiful – um caso bem menos ousado do que Dirrty, apesar de que cenas de dois homens se beijando parecem destinadas à causar alvoroço – começa a passar na televisão. Aguilera assiste com um olhar mais interessado do que empolgado, mostrando que passou da época em que era estranho ligar a televisão e ver a si mesma. Enquanto as últimas notas terminam, com aquele firme mas delicado aperto de mão, Christina Aguilera diz boa noite.

“Sabe, eu pretendo continuar fazendo isso por muito tempo”, ela diz. “Muitas das críticas me mostraram que eu não devo ter medo de viver porque todos cometem erros. Tudo o que acontece, mesmo quando eu tropeço e caio, é humano. Quem se importa? Eu não”.


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