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A Nylon é uma revista com foco em moda e cultura pop voltada para o público feminino

A verdade nua e crua: Por que Christina Aguilera não gosta do passado pop adolescente

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
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REVELAÇÃO. Impertinente e tímida. Evasiva e franca. Quem é ela? Ela é Christina Aguilera.

CHRISTINA AGUILERA TEM SARDAS. Provavelmente, você nunca soube disso, já que ela as cobre com maquiagem. “Fico feliz que você não as notou”, ela diz, sorrindo e bebendo uma taça de Merlot em um bar de hotel em Beverly Hills. “Eu nunca gostei que elas aparecessem – é uma coisa minha”.

Sardas não são as únicas coisas que Aguilera não se sente confortável para expor. Falar com ela parece uma elaborada partida de passa ou repassa: depois de cada revelação pessoal – sobre a infância sofrida, políticas – ela se esconde atrás de uma coluna de fumação, cheia de evasões sorrateiras e respostas educadas. É o que a torna tão complexa como artista e tão difícil de delinear como assunto de uma entrevista. E isso reflete como o coração de Stripped, o segundo álbum de Aguilera (sem contar o espanhol Mi Reflejo e o álbum de natal): uma mistura de baladas pessoais refrescantes e o brilho de um ícone pop.

“Ele fala sobre se despir emocionalmente de tudo que você já ouviu falar de mim”, ela me diz, com um toque de faux-naiveté. “Sou só eu contando minha própria história. Eu digo no álbum, ‘sem expectativas, sem pretensões, sem polimento'”. É claro, isso é só uma meia-verdade. Tem muita expectativa, pretensão e polimento envolvido na imagem de uma ícone pop, mesmo uma recém-despida. Durante as gravações no ano passado, ela disse estar preocupada que o título do álbum fosse interpretado como algo puramente sexual. Então, ela lançou o clipe de Dirrty (ou interpretamos ele mal também?). Parecia brincar propositalmente com as mãos daqueles que acompanham a vida das celebridades. Ainda assim – a ela deve-se crédito – Dirrty também foi uma mostra corajosa em uma reinvenção de imagem. É só que Aguilera não viu necessidade em abandonar os apliques, a maquiagem, as roupas de designers e os personal trainers para se despir completamente.

“Eu não vou sentar ali com um violão em uma sala preta e mais nada”, Aguilera admite. “Sim, tem uma grande produção e tudo mais envolvido no processo. E sim, eu estou usando maquiagem na capa do meu álbum. Mas o que importa é que a música está vindo do fundo do meu coração, é sobre isso que eu me refiro. Eu coloquei meu coração nele, é como meu filho. Não fui um Genie In A Bottle, parte 2”.

2003 tem sido um ano ocupado para a ex-gênia do pop: nos últimos meses, Aguilera posou para uma nova campanha da Versace (a ser lançada no outono); adotou uma casa de proteção à mulher em Pittsbirgh; tem sido perseguida pelos tabloides e montou a maior turnê da vida dela – em colaboração com Justin Timberlake pelos Estados Unidos. Aguilera pretende ter o mesmo controle da carreira que Madonna dominou – e parece que ela está indo pelo caminho certo. Durante o espaço de tempo dentre o álbum de estreia, em 1999, e Stripped, Aguilera demitiu os empresários e assumiu o comando da carreira. Isso também significou assumir o controle dentro do estúdio – ela participou da composição e foi produtora executiva do álbum, contratando a compositora Linda Perry (de 4 Non Blondes e responsável pela fama de Pink) para trabalhar nas melhores músicas. Ainda, ela parece interessada em levar a música à um espaço ainda mais pessoal. A performance intimista de Aguilera no Saturday Night Live em março, cantando Beautiful, provou que ela é capaz de bastante autenticidade. A música expressar uma espécie de luto e auto-destruição/amor que qualquer garota pode se relacionar – que se une com momentos de inteligência que vão muito além do que muitas das colegas pop conseguem fazer. Junto com as músicas sujas, ela está cantando diretamente sobre a vida dela – pessoas e circunstâncias específicas – e também sobre traumas reais que mulheres e garotas sofrem na mão dos homens.

Dificilmente, um típico álbum pop. Mas também, a antiga Mousequeteer diz que nunca sequer gostou muito de música pop, para começar.

“Eu ouvia minhas Mariah’s e Whitney’s e tudo mais”, Aguilera diz. “E eu respeito pra merda outros que mudam o estilo com facilidade, como Prince e Madonna (sim, ao contrário do que você pode ter escutado, Aguilera xinga). “Mas quanto ao pop ciclete e as porcarias manufaturadas, não. De forma nenhuma. Eu não ia para minha casa e ouvia Backstreet Boys depois de cantar Genie In A Bottle”.

“Por isso eu fiquei de saco cheio. Eu fui lançada em uma explosão do fenômeno pop. Eu estava vivendo o meu sonho de ter fãs e uma audiência que cantava minhas letras comigos, mas depois de um tempo, eu pensava, ‘não é isso que eu quero cantar’. E eu fui realmente segurada por uma coleira, pela gravadora, para cantar só de uma certa forma, não fazer muitos melismas, não soltar realmente a voz no meu primeiro álbum. Eu me senti enjaulada, por isso chamei meu álbum de Stripped. Foi como tirar aquela pele de quem era mandada sobre que tipo de artista ser ou não ser. Eu queria ser apenas eu”.

Descobrir exatamente quem ela é tem se demonstrado um desafio. Ela deixou algumas dicas na primeira vez que nos conhecemenos, em um desfile de moda em Hollywood, enquanto a invasão ao Iraque começava a acontecer. Enquanto o inferno vinha à superfície no exterior, a elite fashion – incluindo Paris Hilton e um elenco de modelos – checava os celulares e os torpedos e fofocavam uns com os outros. Aguilera foi a convidada de honra, escondida em um camarim até o final do desfile, quando ela apareceu na passarela com um vestido rosa-shocking tão apertado que precisou se apoiar no braço de uma assistente para subir um único degrau.

A cantora confessa que não curtiu muito o vestido. “Eu me senti como se tivesse indo em uma merda de uma festa de formatura, entende?”, ela diz. Mas Aguilera se vestiu por uma boa causa: A patrocinadora do desfile, a Gilette, doou uma boa quantidade de dinheiro para a casa de proteção à mulher adotada por Aguilera.

Depois da passagem pelo tapete vermelho, ela foi levada para o auditório lotado por sua equipe. Enquanto ela passava pela multidão, rostos se congelaram e cochichos se tornaram um silêncio – e depois voltaram a ser cochichos. Neste local cheio de pessoas bonitas, Aguilera era a cabeça de todas – e ela não pareceu gostar. Ela inclinava a cabeça como quem dizia, ‘não olhem para mim’. E assim que teve a oportunidade de sair sem ofender ninguém, Aguilera se direcionou à saída e foi para casa dormir.

“Você é tão cobrado para agir de uma determinada maneira”, ela diz no outro dia, soando cansada. “E como uma mulher, a pressão é ainda maior. Eu estava conversando com aquele rapaz do Good Charlotte, Benji, a respeito disso. Eu sou meio introvertida e geralmente não converso muito. Quando eu entro em algum lugar, gosto de chegar com meu chapéu cobrindo o rosto”. E até agora, no bar, Aguilera está sentada em um canto, com o boné de caminhoneiro perfeitamente inclinado. “Muitas pessoas esperam que eu cumprimente todo mundo dizendo, ‘Oi! Como vocês estão?’, mas eu não sou assim. Eu sou mais tímida, o tipo de pessoa que é bem na minha. Especialmente depois de tantos anos cercada por pessoas que querem tirar o máximo de mim”.

“Eu sou diferente durante as entrevistas”, ela admite. “Fico mais íntima e pessoal”. Na verdade, pode até ser o Merlot, mas Aguilera realmente parece estar se abrindo. A conversa começa a entrar no campo da política, e eu acho que estamos nos direcionando para algo interessante. Uma certa diva pop surge no meio conversa – aquela com as joias e o namorado ator. Os olhos de Aguilera dão uma volta. “Eu li um artigo onde eles perguntaram a ela qual a opinião que ela tem sobre a guerra, e ela disse, ‘Oh, eu não fico pensando nessas coisas. Eu deixo isso para ele fazer’ – e então ela aponta para o namorado. Eu entendo se você disser ‘Eu gostaria de manter minha opinião só para mim'”, Aguilera confessa. “Mas admitir que você não tem opinião nenhuma sobre o que acontece no seu país e no mundo? Eu só pensei, ‘wow’. Então, eu só estou aqui para ser linda e divertir os outros? Para mim, é algo mais profundo, sabe?”.

E eu sei – assim como gostaria de saber mais. Eu pergunto como ela se sente em sair em a turnê com Timberlake e entrar na passarela de um desfile de moda enquanto há um conflito internacional acontecendo. Repentinamente, ela solta: “Nós todos temos uma opinião própria, que eu prefiro não falar, porque cada uma tem a sua. Você pode pensar o quanto somos superficiais por fazer desfiles de moda enquanto nosso país está em guerra, mas eu acho que é para isso que serve o entretenimento. Você não pode se sentar na frente da TV e passar 24 horas assistindo CNN. Às vezes, precisamos de um descanço, senão vamos à loucura”.

Então eu noto o que Aguilera está usando no pescoço. É um pingente no formato de uma arma. “Ele combina com outro cordão que eu não estou usando e diz UNIÃO”, ela diz. “A arma e o UNIÃO se contradizem, mas ao mesmo tempo, combinam”. Em outras palavras, ela é uma garota que apoia as tropas? Um “é…”, é a resposta mais forte que eu consigo dela. Caso encerrado. Próximo assunto.

STRIPPED é um álbum fortemente pessoal, de certa maneira. Com a música “I’m OK”, Aguilera se mostra uma sobrevivente do pai abusivo. É uma revelação que traz uma noção mais profunda à música dela e uma estranha nova dimensão à imagem hipersexual.

“Me desculpa se isso soar cliché, mas eu amo o fato de que eu alcancei uma certa quantidade de pessoas, eu tenho mensagem em minha música, como a violêncoa doméstica e o que eu passei. Quando eu tinha 15 anos de idade, eu sonhava na minha varanda em Wexford, e eu dizia que se eu conseguisse o sucesso, uma das minhas metas seria retribuir ao espalhar a mensagem e contruir casas de proteção. Eu estou conseguindo fazer isso agora, em honra à minha mãe e às outras pessoas que precisam de uma voz para dizer que está tudo OK”.

É claro, muito podem fazer uma link direto entre a violência doméstica e a objetificação das mulheres pela imprensa. Se você imagina se Aguilera está ciente da possível contradição que ela representa, ela não te deixa pensar assim. Ela faz de Dirrty algo nada maior do que uma expressão à lá Madonna sobre o poder feminino. “Veja todos estes clipes de hip-hop onde as garotas estão dançando em mastros e sendo atacadas por jatos de champagne. Ela estão obviamente se comportando como objetos. Elas não estão no comando, não estão fazendo com que aqueles homens desçam do degrau. Elas estão em um ambiente masculino. No meu clipe, eu estou no meu ambiente. Os caras que entraram no meu mundo, e só porque eu deixei. Qualquer um que olhe para o vídeo e pense, ‘Oh meu Deus, aquili é horrível para as mulheres’, eu acho que cederam aos pensamentos da sociedade. Eu não sou um objeto”.

“Eu gosto de fazer as mulheres se sentirem no poder  com seu próprio corpo e sexualidade. Nós sempre aprendemos que devemos manter as pernas cruzadas e sentar de uma certa maneira – só os caras podem se mover de forma espalhada. Eu sei que estou falando muito sobre esse assunto, mas é verdade”.

Claro, é fácil se sentir confortável com seu corpo quando você tem um que é perfeito. Eu comento isso com ela, e ela fica sem-graça. “Na verdade não, mas obrigada. Eu entrei na época em que você percebe que não pode comer tudo o que quiser o tempo inteiro”. A grande quantidade de reportagens – às vezes, crueis – sobre o aumento do peso dela, seguraram Aguilera na imprensa por meses, mas ela parece não ligar. “Eu gosto de ter mais carne no meu corpo. Eu me sinto à vontade com mais gordurinha”.

E momentos como estes, ela parece como qualquer outra jovem mulher americana enfrentando o mundo: insegura, e depois, prepotente; ambiciosa mas extremamente preocupada com o que os outros pensam sobre ela. É como as sardas. Ela tem medo de mostrá-las, mas quer mostrá-las – e talvez, um dia, ela mostrará.

“Eu estou aprendendo a gostar das minhas sardas”, ela diz. E quase parece que ela realmente gosta.


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