Revistas \ 2000 \ Rolling Stone (Junho)

A Rolling Stone é uma revista sobre cultura pop

Adivinha o que Christina quer

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
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THE HIT GIRL – Ela é a pequena garota com a grande voz. Eminem a odeia, os fãs a amam e a indústria a chama de A Melhor Artista desse ano.

Uma limosine preta passeia pelas ruas do centro de Toronto. “Que CD você quer escutar?”, pergunta a assistente. “Coloca essa, terceira música!”, responde a estrela. O CD começa a carregar, a assistente cruza as pernas, a estrela sorri. I had this bad bitch uptown, she was whoa!/Had me fucked up in the head, I mean whoa!/Bought the bitch diamonds and pearls, I mean whoa! “Aumenta!”, a popstar grita. O motorista dá uma rápida olhada para o banco de trás, preocupado. Grenade through your window, bitch, like whoa!/Love to see me do this shit, like whoa!/Niggaz put me through this shit, like whoa!

A popstar agora está acompanhando a letra. A assistente também. So I’m gonna go toe to roe, blow for blow, like whoa!/And rip your torso! “De novo”, ela ri. I had this bad bitch uptown, she was whoa…

A limosine para no estacionamento do canal canadense MuchMusic, o motorista abre a porta, e o som de Black Rob em Whoa! ecoa pelo local, seguido da estrela pop, uma adolescente loira bem adolescente, em uma calça camuflada bem larga. Ela anda na frente de uma equipe enorme até o camarim e volta vestida com uma blusa preta que mostra a barriga. Na frente da camisa, as palavras I LOVE PLAYBOY estão escritas em prateado.

Prezado leitor, conheça Christina Aguilera. Ela tem 19 anos hoje – quase vinte, ela diz – e está cansada de ser tratada como uma criança. “Eu não tinha certeza se deveria usar uma camisa da playboy”, ela admite depois do show no MuchMusic. “Ela é sugestiva, de certa forma. Então eu e minha estilistas discutimos e eu decidi: Eu já tenho dezenove anos, e pessoas com dezenove anos vestem esse tipo de coisa. Só porque eu passo uma certa imagem, todo mundo quer que eu seja esse exemplo. Ninguém é perfeito e nunca vai conseguir ser. Então eu só vou viver minha vida”.

Ela percebe que está começando a parecer reclamona e para, então me olha com os olhos abertos, como uma adulta: “Eu acho que minha personalidade está começando a brigar para sair, e essa personalidade colide com a imagem que todo mundo tem de mim”. Fãs adolescentes, a sua boa menina virou má. Ou pelo menos quer virar má. Ou talvez ela sempre tenha sido má. Ou podem ter sido apenas longos e confusos últimos nove meses.

Dois dias antes, Christina Aguilera está sentada no banco traseiro de uma vã em Manhattan. Não, sentada não é a palavra correta para descrever o relacionamento de Christina com as cadeiras. Ela se molda à elas, posicionando a coluna no ângulo perfeito entre o encosto e o banco, jogando as pernas na frente de qualquer objeto que esteja por perto e utilizando a parede do lado para encostar o resto do corpo. Ela está indo jantar na cadeia de restaurantes que lhe é favorita, Houston – o mesmo lugar em que ela comeu na noite anterior – antes de embarcar para Toronto. Ela também acabou de alugar um apartamento em Los Angeles, do outro lado do país em comparação à onde está a mãe e o padrasto, e, enquanto observa o lado de fora da janela da vã, acha que vai sentir falta da Costa Oeste. “Ohh”, ela diz. “Eu quero um garoto de Nova York! Tem tanta energia aqui!”.

E exatamente o que é um garoto de Nova York? “Um pouco durão”, ela sorri graciosamente. “Com uma bandana e boné para o lado. Você não encontra garotos assim em L.A.”. Ela joga as pernas para cima e as posiciona nas costas do banco da frente, usando uma camisa preta que também mostra a barriga e diz, em letras cruzadas no peito, ROCKSTAR. Ela abre uma cópia da revista Hits e começa a folhear, parando em uma página inteira de fotografia colorida do DMX. “Mmmm”, ela exclama. “Ele é demais!”.

Às vezes parece que Christina usa as entrevistas em revistas como serviço de namoro. Muito dos caras que ela mencionou achar bonitos – Fred Durst, Eminem, Enrique Iglesias, Carson Daly – são aqueles que posteriormente são relacionados à ela em boatos de namoro. São eles que ligam para ela após lerem que existe uma quedinha ali? “Não”, ela conta. “Nós acabamos nos encontrando em festas e tudo mais. Eu já passei um tempo com alguns deles umas duas vezes, mas só por diversão. Eu ainda não namorei nenhuma celebridade”.

Então agora você vai conhecer DMX? “Eu não sei!”, ela ri. “É uma looooocuuuuraaaaa, loucura”. Ela volta a afundar o nariz na Hits, parando, dessa vez, em um anúncio publicitário de uma banda de pop adolescente chamada Innosense. “Essa também veio do Clube do Mickey”, ela diz, apontando para uma das meninas, Nikki DeLoach, que esteve no mesmo elenco ilustre em 1993 com Aguilera, Britney Spears, Justin Timberlake e JC Chasez do ‘N Sync e Keri Russel de Felicity. Vira a página, vira, vira, e dessa vez ela para em um closeup de uma página da cabeça do Eminem. Ela vira a revista contra seu rosto e se aproxima até um centímetro antes dos lábios perfeitamente pintados, e sussura algo indecifrável para a imagem. Então, ela puxa de volta a revista e me conta: “Completamente photoshopada!”.

Ela sai da vã e vai a uma cabine no Houston. Apesar de ter acabado de se recuperar de uma gripe de duas semanas que a forçou a fica na cama (o primeiro tempo de descanço que ela teve desde que o álbum de estreia foi lançado, 9 meses atrás), ela pede empanados de frango, batatas fritas, batata recheada e nachos (ela gosta de comê-los com os três tipos de molho – queijo parmesão, molho salgado e salsa vermelha – ao mesmo tempo). No meio dessa orgia de óleo, o assunto Eminem volta.

Embora Christina, a mãe, o empresário e todo mundo mais na órbita dela gostem de fazer pouco caso do incidente, essa foi provavelmente a pior coisa que poderia ter acontecido com a menina de 19 anos. Como se estivesse na escola novamente, Eminem decidiu espalhar mentidas ou meias-verdades (você decide) sobre a vida sexual de Aguilera no último single dele, num rap que diz “Shit, Christina Aguilera, better switch me chairs/So I can sit next to Carson Daly and Fred Durst/And hear ‘em argue over who she gave head to first. . . ./I should download her audio on MP3/And show the whole world how you gave Eminem VD.”

“Eminem, cara. É loucura como, tipo, um comentário pode deixar alguém tão bravo”, diz Christina. Você quer dizer o seu comentário na MTV? “O que aconteceu foi, me perguntaram se eu ainda tinha uma queda pelo Eminem. E eu disse ‘Ele é bonitinho e tudo mais, mas tem garota demais atrás dele. Além do mais, ele é casado, então eu vou ficar longe disso tudo”. Não foi nada criticando ele. E se você quer ser retardado o suficiente para achar que isso foi falar mal, então eu não tenho que me desculpar por nada”.

Eu acho que teve outro motivo para ele ficar chateado. Sabe qual foi? “Não”. Foi porque, na MTV, você também o criticou por ter escrito letras que contam uma vingança contra a mãe da filha dele. “Ah sim, sim. Eu provavelmente disse que aquela música [97 Bonnie e Clyde] era nojenta. Você sabe o que eu quis dizer. Céus, esquartejar a mãe do seu filho, jogar ela em um caminhão e espalhar as partes pelo oceano com a filha olhando. Isso é nojento sim. Me desculpa, mas eu acho que a maioria das pessoas no mundo também pensam assim. E eu acho que foi muito errado ele me criticar dessa forma, porque no último ano eu só fiz comentários positivos reconhecendoo talento dele”.

É óbvio que ele exagerou, porque o que ele disse de você está muito além do que você disse dele. “Eu me senti ofendida e enojada. Ele estar falando dessas doenças e tudo mais. Mas eu sei daonde ele está vindo, no sentido de que esse cara quer ser levado a sério como um artista rap e de repente ele está no mundo da MTV e do TRL. Eu vejo porque ele estaria bravinho e se rebelado contra Britney Spears, ‘N Sync, Backstreet Boys e o mundo da música adolescente. E se a forma dele de fazer isso é ser imaturo, tudo bem. Eu vou dar minha resposta no meu próximo álbum. (Risadas) Nããão.”.

Sua mãe ficou chateada?

“Meu padrasto foi muito legal. Ele estava pronto para pegar um avião e dar um chute no Eminem. Eu meio que precisei falar, ‘Tudo bem, pai, tá tudo certo’. É muito bom ter esse apoio em momentos como esse. Sabe, é difícil estar sob os holofotes. Você pode estar em um dia péssimo e chega em casa, liga a TV e ainda tem que lidar com o clipe do Eminem.”

Falando nisso, você sabe daonde aquela letra sobre a MP3 veio?  “Não tenho ideia”. Fred supostamente falou de você na secretária eletrônica de alguém. “Sério? É tudo muito complicado. Isso mexe com a cabeça da gente. O Fred é louco. Fred, cara, o quão burro é você se você tenta ficar com alguém e de repente aparece em um vídeo que critica ela daquela forma? Sabe o que eu quero dizer? Fred e eu estávamos muito bem um com o  outro: uma vez ele me levou para sair e me comprou um milkshake. Ele estava todo ‘Eu conheço um lugar com um milkshake incrível’, depois que saímos de uma boate. Ele foi muito legal. Então eu comecei a ouvir todo essa papo, me cansou. Eu comecei a perceber que alguma coisa estava acontecendo, ele estava estranho. Ele até me falou, na cara dura, que faria um clipe com o Eminem”.

Ele te falou sobre o que o clipe era? Eu não tinha ouvido falar muito sobre isso, mas eu sabia que ia falar besteira sobre mim. Mas se ele realmente falou aquelas coisas para o Eminem, nada daquilo é verdade. Sério. Eu não passei nenhum tempo de  qualidade com nenhum desses dois caras. Que caras? Fred e Eminem.

Ela se ausenta para ir ao banheiro. Quando ela volta, uma mulher agitada que trabalha na firma dos empresários senta na mesa conosco para ela assinar um contrato de algo em Lost Angeles. Elas fofocam um pouco, falam sobre arrumar um encontro às escuras para Christina e comentam o quanto aconteceu em tão pouco tempo. “Funkmaster Flex tocou minha música na rádio e ele nunca tocou nem a Britney”, Christina se gaba, orgulhosa de que um dos melhores DJs de hip hop em Nova York colocou ela no ar, ao mesmo tempo que mostra uma pequena competição entre ela e Britney – não aquela competição amarga, antagonista, que tem sido objeto de tantos boatos, mas sim uma rivalidade entre irmãs, muito mais amigável e natural mas que, ao mesmo tempo, tem potencial para piorar.

Depois do jantar, Christina volta para a vã, senta na parte de trás e encara a janela em silêncio por todo o trajeto até o aeroporto La Guardia, interrompido ocasionalmente pelo toque do celular. Os fones do discman estão sempre nos ouvidos dela, mas nenhuma música toda. Ela simplesmente está se desligando do mundo: toda oportunidade que ela tem, ela olha por uma janela, para uma lareira ou para o céu, e deixa a mente vagar. Você pode gritar o nome dela, bater nos ombros ou colocar fogo nos sapatos, e há grandes chances de que ela não vai responder. Ela se perde no próprio mundo. E se você perguntar o que está passando na cabeça dela, às vezes ela devolve com uma calma resposta de um coração escuro e machucado no inferno das adolescentes.

“Minha mente está sempre trabalhando”, ela explica quando retoma a consciência. “Eu penso sobre coisas muito estranhas, sobre como ficar no topo daquele poste ali. Ou tenho um monte de visões esquisitas. É meu mundinho particular. Minha vida é sempre voltada para dar e dar. Então sempre que eu tenho cinco minutos em uma vã, ou em uma limosine, ou o que seja, são meus momentos especiais de só me desligar e pensar e sonhar”.

A mãe de Christina, Shelly Kearns, diz que esse é um dos hábitos que a filha carrega desde antes da fama. “Quando ela estava crescente, nós chamávamos de momento do desligamento. Ela literalmente se perde em um pensamento e não te ouve mais. Isso passou a acontecer da infância para frente, especialmente se ocorria algo que ela não acontecia. Ela preocupou a gente algumas vezes, mas sempre foi assim. Na sétima ou oitivada série, as pessoas achavam que ela era uma metida porque não respondia os outros”.

O que os colegas de classe da Christina não sabiam quando a chamavam de esnobe, e o que Eminem não sabia quando ele atacou ela por ter criticado publicamente a promoção de violência doméstica, é que Christina passou os primeiros seis anos  da sua vida em uma casa onde ela precisava se desligar do mundo para tolerar o que estava acontecendo.

 “Acho que o motivo de minha vontade de cantar ser tão forte e porque eu sou tão apaixonada pela música é porque eu cresci em um ambiente de violência doméstica”, ela diz, falando da vida com o pai. “Música era minha forma de me livrar de tudo. Eu corria para o meu quarto e colocava a fita da Noviça Rebelde. Julie Andrews era livre e viva, brincalhona e rebelde contra as freiras. Eu sei que isso soa muito brega, mas era minha escapatória. Eu abria a janela do meu quarto e me imaginava em frente para um público. Eu começava a cantar. E prometi a mim mesma quando isso aconteceu que eu tentaria ajudar outras pessoas que pudessem estar na mesma situação. As pessoas não têm noção do que é violência doméstica a não ser que já tenham vivenciado uma. O abuso não é só físico, é mais interno, é mental. É algo muito triste de se viver e assistir. Eles brincam com sua mente, fazem você se sentir mal a respeito de você mesma e…”

Ela para de falar. A mãe da Christina também imagina se os desligamentos da filha vêm das experiências na infância. “Eu acho que muita dessa bagagem vem daí. Ela é usualmente desligada e se expressa por meio da música. Eu não me surpreenderia se esse for o motivo”.

Fausto Aguilera era um sargento do exército, nascido no Equador mas alocado em Nova York, Texas e Japão durante a infância mais jovem da Christina. “Ele pediu desculpas”, Christina conta. “Eu acho que ele se sente culpado. Eu morava perto de pessoas que passavam pela mesma coisa, meus vizinhos. Era muita violência acontecendo quando eu cresci, com meu pai viajando com militares. É muito, muito, triste. Eu queria tanto ser forte para todo mundo – por minha mãe e pelos outros. Acho que é por isso que eu sou tão a favor da força feminina”, ela ri e continua. “Até em Genie In A Bottle eu faço um homem suar para conseguir o que quer”.

Ao crescer, Christina costumava ter visões de uma figura protetora em branco, um anjo da guarda que olhava ela o tempo todo. “Minha mãe e eu estávamos brincando de esconde-esconde uma vez, e eu subi correndo as escadas. Minha mãe repetia ‘Eu vou te pegar, vou te pegar!’. De repente, eu olhei para cima e parei congelada aonde estava. Tinha um homem todo vestido de branco, meio brilhando. Ele tinha uma barba branca e me olhava por cima, calmo e em paz”.

A mãe lembra que, de princípio, não acreditava nas histórias da Christina sobre esse homem. “Estou surpresa que ela te contou isso”, ela diz. “Ela era muito pequena, tinha três ou quatro anos, e ficava olhando para o vazio,ninguém mais via nada. Uma vez estávamos brincando e eu corri atrás dela em um quarto, e de repente a expressão dela mudou. Era como se ela estivesse vendo algo na frente dela. Ela voltou correndo para mim e disse: ‘É aquele homem de novo’. Eu respondi- ‘Ele deve ser legal’, peguei ela no colo e fui em direção aonde o homem invisível estaria, e ela enlouqueceu. Depois disso, nós fizemos tudo que podíamos para tentar descobrir se ela realmente estava vendo alguma coisa. Eu cheguei a pensar que talvez fosse meu pai, porque ele morreu quando eu tinha doze anos. Mas parecia diferente da aparência dele. Eu perguntava que tipo de roupa ele usava e ela disse ‘Não, só pano’. Eu sempre imaginei quem era ele ou sobre o que se tratava aquilo tudo.

Quando Christina tinha catorze anos, a mãe dela se casou com um paramédico da Pennsylvania, Jim Kearns, que já tinha dois filhos. “Eu me lembro de ter ficado tão cheateada quando eu descobri que ia ter mais um irmão e uma irmã, porque sempre fomos só eu e minha mãe juntas. De repente, ela se casa de novo”, diz Christina. “Aí vinha outro homem me dizendo o que fazer. E essa era a última coisa que eu precisava ouvir, depois das situações anteriores. Eu tive que superar isso. E de repente, ela fica grávida outra vez. Ninguém esperava. Mas eles têm um casamento muito bonito, e eu estou muito feliz.

O resto da história é bem conhecido. Até ela já está de saco cheio de contar, repassando pelas informações como se estivesse repetindo um dever de casa que pede para contar como é sua vida fora da escola: uma criança prodígio cantando músicas da Whitney Houston na pré-escola, shows de talentos e festas da área de Pittsburgh; uma derrota triste no Star Search aos oito anos; cantando o hino nacional para os Pittsburgh Steelers aos 10 anos; mudando-se para Orlando para se unir ao Novo Mickey Mouse Club, onde virou melhor amiga de Britney.

“Eles me chamavam de Pequena Diva naquele programa, ou Mini Diva”, ela diz. “Por causa do meu jeito de andar. Eu não sei, eu sempre tive esse jeito meio flertoso que eu faço quando ando, mesmo aos 11 ou 12 anos”. A saga continua: Pequena Diva é perseguida pelas crianças da escola de Pittsburgh em razão do sucesso na música; ela consegue uma gravação na trilha do filme Mulan porque ela consegue cantar um E alto acima do meio C; e, finalmente, ela lança o primeiro álbum na RCA Records em 24 de agosto de 1999, que já vendeu mais de seis milhões de cópias.

“Eu estou tão cansada desse álbum”, ela diz. “Eu me sinto como se fosse outra pessoa completamente diferente, principalmente quanto à minha forma de ver as coisas. Eu queria que o primeiro álbum fosse mais R&B, mas eles quiseram manter ele pop. O executivo da minha assessoria de gravação, Ron Fair, que produziu, e ele sempre me mandava cortar os ad-libs e notas mais tendenciosas ao R&B. Estava me levando à loucura, porque ele estava sempre repetindo ‘Fique sempre na melodia, mantenha-se no pop’. Meu segundo álbum vai ser onde eu pretendo me soltar mais, finalmente. É tão difícil ultrapassar essa imagem de ser apenas uma garota pop, então vai ser interessante fazê-lo mais ousado, explorar coisas diferentes, fazer dueto com artistas do rock. Eu gostaria de fazer alguma coisa com o Swizz Beatz”.

Eu sabia que você ia dizer isso. “(Risadas) Sério. Eu preciso de algo para poder enfiar meus dentes!” E Timbaland? “Oh meu Deus, você leu minha mente agora. Atualmente, estou ouvindo muito…” Aaliyah, Try Again. “Oh meu Deus, que engraçado! Nós temos o mesmo gosto. Eu estou tão preparada para isso que chega a ser frustrante. O próximo single é, você sabe, Come On Over. Eu logo pensei ‘Oooh não!’.  Essa é provavelmente a faixa mais infantil do álbum. Ela não vai ser lançada daquele jeito. Nós vamos voltar para o estúdio e refazê-la”.

Além de um R&B moderno, você provavelmente deve querer fazer mais baladas simples, só com voz e piano. “Eu tenho certeza que você já ouviu o cover que eu faço da Etta James [At Last]. É lá que meu coração está. É o que eu quero fazer. Tem tanta sinceridade em uma música assim, sem todas aquela estrutura superproduzida no fundo. Eu provavelmente estarei muito nervosa antes do lançamento do meu próximo álbum. Finalmente vou liberar lados meus que eu estou morrendo para liberar. Eu sinto como se parte de mim fosse respirar”.

Depois de chegar em Toronto, Christina é levada para um estúdio e se reúne com os dançarinos e banda, para ensaios da turnê de verão, a primeira dela como ato principal. Apesar dela ainda ter amigos da escola, nenhum deles, de acordo com a mãe da Christina, repetiu a experiência de acompanhá-la na estrada: Eles já se uniram à ela para uma turnê esperando diversão e jogos, mas voltaram para casa exaustos depois de esperar pelo pouco tempo livre que Christina tem na agenda. A família dela são os dançarinos e a coreógrafa Tina Landon é como se fosse uma irmã mais velha. Eles passam pelos hits Genie In A Bottle, What A Girl Wants, I Turn to You e Reflection, da trilha de Mulan.

“Você pode diminuir o som daquele teclado brega?”, uma mulher da equipe de empresários pergunto ao homem do som. Sentada em uma cadeira, Christina segura o microfone com leveza, como se estivesse coberto de mofo. Então, com uma postura pouco ideal para cantar, ela desmorona o estádio com At Last, de Etta James, com uma voz completa e grandiosa, cheia de melismas e notas aleatórias. Quando ela termina, ela pede ao tecladista para segurar algumas notas por mais tempo, para ela poder se aventurar mais no vocal. Depois, ela sai dos ensaios para uma bateria de entrevistas para promover a turnê.

A crise na personalidade da Christina – dividida entre quem ela é e quem todo mundo quer que ela seja – fica dolorosamente evidente nessas entrevistas e em uma coletiva de imprensa. Quando começa a responder uma pergunta, ela geralmente inicia com o que lhe vem à mente, e de repente ela percebe o que está falando, para rapidamente, enrola um pouco e reverte a pergunta para uma frase clichê, como “É incrível poder influenciar tantas pessoas pelo mundo”.

“Eu sempre mordo minha língua, porque eu fico meio provocante às vezes”, ela admite enquanto sente de pernas cruzadas no chão dos bastidores depois da coletiva, após se delisgar enquanto encara uma lareira. “É divertido ser provocante às vezes, mexer com as pessoas e receber reações diferentes, ser brincalhona. Mas outras vezes, eu posso me enfiar em problemas”.

Os tablóides têm se divertido com a Christina ultimamente: falam de uma dança sensual com Enrique Iglesias ou de uma visita a um clube de strip com Carson Daly e algumas boy-bands. “É um comportamento ambíguo quando se trata de garotos e garotas”, ela reclama, se referindo as novas críticas à ela em jornais. “Eles ignoram completamente o fato de que os Backstreet Boys falam palavrões em entrevistas, vão à clubes de striptease e fazem outras coisas normais para a idade deles. Não estou falando mal deles, mas é muito injusto”.

Todos em volta da Christina se supreendem diariamente com a maturidade dela – vocal, artística e profissional. O sucesso de What A Girl Wants, por exemplo, só aconteceu por uma decisão que veio dela em regravar a música e lançar como single. Mas ao mesmo tempo, com frequência, ela parece ter menos que dezenove anos. Ela é um encantadora garota de muitos contrastes, extremos de luz e escuridão, que geralmente aparecem quando ela está sozinha, longe dos olhos do público.

Em uma noite em Nova York, um pouco da escuridão se mostrou em um sonho que ela teve. Foi algo épico que aconteceu em um castelo, onde Christina estava sendo perseguida por guardas e soldados em um labirinto infinito de câmaras escuras – uma com doces, uma com brinquedos, outra com aspectos mágicos. Ela esbarrava com outra garota jovem, a filha do rei do castelo: a princesa. Elas começaram a fugir juntas, mas uma câmara de vigilância as encontrou. O rei ordenou que os soldados as pegassem, sem perceber que uma delas era a própria filha. “Esse homem imenso, cheio de músculos, chega primeiro que os outros”, Christina conta. “Ela bate muito nelas, até morrerem. É quando o rei chega e vê o que aconteceu, devastado e de coração partido”.

Alguns podem ver um drama familiar aqui, onde o rei é o pai da Christina, a princesa é a irmã mais nova e o castelo são fantasias que ela tinha na infância – mas a mãe dela tem uma interpretação diferente. “Parece exibir o strees que toda celebridade adolescente passa. É como uma guerra. Quanto a princesa, Christina sempre me diz que tem muitas saudades de conversar com a Britney. Então eu imagino se ela é a outra filha que apanha até a morte. Coloque esse sonho em paralelo com a vida delas e é a mesma coisa, com críticos e a imprensa correndo atrás delas enquanto só estão ali, paradas e inocentes.

Em um jantar em Toronto, enquanto a banda e dançarinos ficam bêbados e agitados – quebrando copos, gritando frases de comerciais, e, em geral, se engajando nos relacionamentos que se formam e divertem durante uma turnê – Christina está sentada em silência na esquisa da mesa, conversando individualmente com a coreógrafa e um dançarino. Na manhã seguinte, no quarto do hotel, ela se desculpa pelo comportamento introvertido da noite anterior. “Eu estava de mal humor por causa de algo que aconteceu. Eu fui puxada para fora dos ensaios e eu não queria parar por ali. Foi um drama. Eu estava falando com Tina sobre isso. E sobre amor. Meu primeiro amor”.

Ela rejeita a saudável sopa e salada que alguém comprou para ela, pega meu gorduroso sanduíche de frango e começa a comê-lo. “Nesse ano, eu me apaixonei pela primeira vez”, ela continua enquanto seleciona uns pedaços da ave, cuidadosamente evitando a casca do pão.

“É uma loucura. Eu nunca me senti assim antes. E é um pouco assustador também: eu estou acostumada a ser a garota independente, que não pensa sobre garotos, e de repente – whoah, esse cara toma conta de tudo. Bom, não tudo, mas ele de repente de torna o foco. Me faz vulnerável e eu não gosto de me sentir assim. Acho que por causa das características de um Sagitário, que é minha natureza. E depois, ver minha mãe passar por um divórcio complicado. Ou casamento, melhor dizendo – o divórcio foi algo bom. Mas só de assistir a vulnerabilidade dela em um relacionamento, eu prometi a mim mesma que nunca me colocaria nessa mesma posição”.

Enquanto ela fala, ela tem muito cuidado em não dizer o nome da pessoa. Mas ao mesmo tempo, me parece claro que ele não é uma celebridade. É alguém da equipe dela. “É complicado manter um relacionamento fazendo o que eu faço”, Christina diz. “Você tem que lidar com as inseguranças dele sobre quem eu sou e todas as ideias de ‘Eu não sou bom o suficiente’ que surgem na cabeça dele, coisas que não me importam de forma alguma. Pelo menos é alguém do mundo normal”.

Você está dizendo que não é alguém da indústria? “Eu estou dizendo que não é uma estrela do pop”. É alguém que trabalha com você. “Como você sabe?” Eu consigo dizer essas coisas. Mas eu tenho uma dúvida: quando você diz que quer namorar alguém durão, está só brincando ou flertando?

“Não, meio que não estou. Apesar do meu coração pertencer a alguém, eu não estou presa a ninguém, porque quero focar em várias coisas sobre mim mesma agora. Ficar doente e ter aquele tempo livre para refletir o que está havendo na minha vida, eu sinto que tenho que me dar um tempo e deixar minha carreira por um minuto. Porque ela sempre foi o foco da minha minha, e tanta coisa mudou nos último ano que, eu não sei, eu sinto falta da inocência de certas coisas.”

Você sente falta da inocência? “Sim, eu sinto. Tantas coisas aconteceram, eu sinto falta de querer alguma coisa”. Quer alguma coisa na vida profissional ou pessoal? Os dois. Está tudo de cabeça para baixo. Eu também sinto que perdi um pouco da inocência ao me apaixonar, porque eu nunca experimentei algo assim antes”.

Recentemente, ela teve um sonho com ele: Ele tentava ligar para outra garota, mas acidentalmente apertou o número da Christina. Ela acabara de voltar de um outro país e foi ouvir as mensagens, sendo que a dele dizia: “Eu estou pensando em você agora, sinto sua falta e te amo”. “Ele estava abrindo o coração para essa garota”, ela diz, “e a mensagem não era para mim. Eu acordei e comecei a chorar”.

Quinze minutos depois, quando se passou tempo suficiente para esquecermos desse assunto, ela de repente me questiona. “Deixa eu te perguntar. Qual você acha que é meu dançarino mais bonitinho? Só por curiosidade”. Eu dou minhas opiniões de cada um deles, e toda vez eu sinto uma impaciência nas expectativas dela. “E sobre….?”, ela pergunta, entregando todo o jogo. Ah, ele é legal. Tem um corpo maneiro.

“Eu me interesso pela opinião dos outros”, ela responde casualmente, inclinando de volta para o sofá, satisfeita de ter conseguido o que queria. Quando a noite chega, depois de um dia maçante de entrevistas, ensaios e noventa minutos de apresentações e entrevistas no MuchMusic, Christina volta para o quarto e pede pizza, uma Coca Cola e cookies da Chips Ahoy!. “O segredo em comer junk food”, ela explica, “é comer um pouco de cada vez”.

Durante todo o dia, ela fez referências à espiritualidade dela. Então eu pergunto para ela falar mais. “Eu sou cristã”, ela conta. “E acredito em Deus. Todo esse meu sucesso existe por um propósito. Ele quer que eu o utilize para o bem. Algumas vezes, minha personalidade briga um pouco com isso”.

Ela começa a contar sobre como ela sente medo do escuro. À noite, ela dorme com as luzes acesas. Ela é assombrada por pesadelos e com frequencia fica acordada com medo de pensamentos envolvendo espíritos e fantasmas, especialmente em quartos de hotel, onde várias outras pessoas já estiveram antes dela. Às vezes, quando ela não consegue dormir, ela escreve nos diários. Ela tem três deles separados na mochila, junto com um gravador, que ela enche de poemas, letras, pensamentos e ideias para melodias. Ela tem uma música que acabou de escrever sobre sua vida amora e outra sobre tudo que aconteceu no último ano. “Eu estou vivendo por conta própria”, ela diz, “e é estranho como pode ser tão louco e solitário quando tanta coisa é jogada em você. Parece que o mundo está esperando para você errar”.

Ela rola para fora do sofá, atravessa pelo quarto e volta com um pequeno caderno. “Eu escrevi essa música e ela tem um pouco de gospel. Você já ouviu o primeiro álbum da Mariah Carey? Essa música lembra Vanishing, mas é mais pessoal. Escrevi junto com Heather Holly, que também escreveu Obvious. Ia ser muito melhor com o piano, mas você pode imaginar como ela é”.

Ela está nervosa e inclina a cabeça para olhar para cima enquanto canta:“The world seems so cold/When I face so much on my own/A little scared to move on/You know too fast I have grown.”

(O piano imaginário fica mais baixo aqui: “And I wonder where I fit in/All the visions and dreams in my head/Oh yeah, I will be . . .“)

(O piano imaginário vai ficando mais alto e a voz de Christina flutua, levando bons 15 segundos até a próxima palavra) “…strong“.

Ela desliza pelo sofá novamente, exausta. Minutos depois, ela está embaixo das cobertas na cama, encolhida no lado esquerdo. Uma voz imensa, reduzida a uma pequena, vulnerável criança de novo.


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