Revistas / 2010 / Marie Claire (Fevereiro)

A Marie Claire é uma revista sobre mulheres, saúde, beleza e moda, volta para o público feminino

Christina Aguilera: sou uma pessoa diferente agora

Traduzido por http://www.iloveaguilera.wordpress.com
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Max, o filho de 22 meses de Christina Aguilera, está me levando para um tour na casa deles em Beverly Hills – que, hoje, está lotada com decorações para o Haloween. “Verde!”, ele anuncia com encanto enquanto a cabeça da Morte revela seus brilhantes olhos de cor de esmeraldas em um cômodo.

A última vez que Christina Aguilera agraciou nossa capa, ela estava grávida de 7 meses, mostrando a barriga (e um pouco de peito) em nada além de uma jaqueta de motoqueiro. Muita coisa mudou desde então. A barriga virou um bebê, e agora Aguilera está menos redonda nas curvas.

Para nossa sessão, o time de moda da MC envisionou uma perfeita mistura da antiga Xtina com um pouco da mãe sofisticada. Cabelo e maquiagem leves com corsets pouco reveladores e flashes dignos de um show. Sempre a performer, Aguilera apareceu para brilhar.  

RAINHA CHRISTINA Ela deixou para trás as calças cortadas e assumiu seu lado mais doce – com um novo CD, uma turnê mundial, e o primeiro filme, Christina Aguilera está toda crescida.

Aguilera, dona de shows teatrais que ofuscam até os de Madonna (elementos circenses, 10 figurinos elaborados por Roberto Cavalli), está planejando uma festa, com figuras como leitores de cartas de tarot, bruxas e uma “dançarina sensual e insana que fugiu de um asilo dançando em uma gaiola”.

Ainda assim, é difícil saber onde o Hallowen acaba e a vida real começa. Aguilera e o marido, Jordan Bratman, compraram essa casa de Ozzy Ousborne em 2007, de quem o reality show revelou todos os detalhes góticos. Todas as maçanetas são detalhadas com crucifixos e o banheiro de hóspedes tem um sanitário disfarçado de cadeira.

Na sala de estar, entra a estrela de 28 anos, ganhadora de muitos Grammy: uma das mais bem sucedidas estrelas da última década e uma das 20 mulheres mais ricas do entretenimento. Se não fosse pelos cabelos incrivelmente loiros, eu sequer teria reconhecido ela. Porque, apesar de ser minúscula, ela parece tímida. Ela me disse que sempre foi “intensa e introvertida” a vida inteira, o que fez com que ela se sentisse uma estranha quase a vida inteira.

Sia, a cantora australiana que compôs algumas músicas para o novo cd da Christina, Bionic (a ser lançado nessa primavera), diz incrédula que Aguilera “vive sob a equivocada noção de que ela não é legal. Ela é terrivelmente auto-crítica.”

São dez da manhã e Aguilera acha que nunca fez uma entrevista tão cedo.  Normalmente, ela explica, “eu teria passado meu batom”. Mas os lábios vermelhos que são assinatura dela não estão nem perto. Ela está usando calça larga e uma camisa da L’Agency bem solta. Para escapar da ideia de que estamos em uma manhã bem doméstica, nós fomos para uma varanda cheia de almofadas montada no jardim, onde John Coltrane toca nos auto-falantes.

No dia anterior, Aguilera começou os ensaios para o filme “Burlesque”, um musical em que ela estrela junto à Cher – uma mulher que ela idolatrava tão fortemente que fez um amigo em comum dizer à Cher que Christina até “beberia a água da banheira dela”.

A experiência com atuação foi, ela diz, “como meu primeiro dia na escola”. Ela já recebeu roteiros no passado, mas esperou pelo filme certo pois “Eu não queria fazer algo que seria fácil para mim. Na verdade, eu pedi que eles re-escrevessem cenas da minha personagem para ele deixarem ela mais durona, espontânea. Mas está sendo uma jornada e tanta, acredito! Quase um campo de treinamento!”.

Isso não significa que Aguilera seja molenga. No ano passado, ela lançou “Keeps Gettin’ Better”, uma coletânea de sucessos, e gravou “Bionic”. Agora, ela tem o filme para gravar, lançar e uma turnê mundial. E eu mencionei que ela tem um filho de quase dois anos de idade? “É muito importante para mim que eu seja a última coisa que ele veja quando vai dormir e a primeira ao acordar”.

A maternidade ensinou a ela a produzir músicas mais leves. “Eu tinha muita dificuldade em fazer músicas leves, antes”, ela explica. “Eu fico com medo de ficar tudo muito cliché. Meu primeiro CD foi assim, um pop cliché, que é o que todo mundo queria”. Enquanto o excelente segundo disco dela, Stripped, foi “inspirado em muita dor” e o terceiro, “Back To Basics”, “ainda tinha uma certa relação com meu passado”, esse novo CD só “olha para o futuro – meu filho em minha vida, me motivando a brincar e a me divertir”.

Aguilera já documentou o tormento da infância dela em músicas passadas – a “criança quebrada” que ela era foi resultado de um pai abusivo, hoje distante. Música, ela diz, foi parte da “auto-cura”. Ao crescer, Aguilera foi um grande prodígio vocal – A voz de Etta James preza no corpo de JonBenét Ramsey, com um pouco menos de maquiagem. As crianças zombavam dela sem piedade, ameaçavam a mãe, e furavam o pneu do carro da família (eventualmente, eles tiveram que se mudar).

Ela não tinha apenas técnica para cantar, como também trazia em sua voz um coração partido bem além dos anos que ela tinha.  Ela pode ter tido seu primeiro gosto do sucesso como uma princesa loira da Disney (quem não se lembra das tripulias de Christina Aguilera/Britney Spears/Justin Timberlake  na sexta temporada do Mickey Mouse Club?), mas o que manteve ela no sucesso foi o incrível profissionalismo, um excelente som, e a vontade de fazer música que fosse real, crua. Uma combinação improvável, já que aqueles capazes de fazer músicas reais raramente são profissionais, e os super-profissionais raramente são talentosos.

O número de pessoas que já trabalharam com ela é um testamento disso. Alicia Keys, Missy Eliott, Lil’ Kim, Diddy, Herbie Hancock, The Rolling Stones e o cantor de ópera Andrea Boccelli.

“Christina seria importante para a música em qualquer era que fosse”, diz Tricky Stewart, um dos produtores de “Bionic” e o homem por trás de “Single Ladies” de Beyoncé, e “Umbrella” de Rhianna. “Ela é uma das mais dotadas cantoras do planeta.”. Sia me diz por telefone que chama Aguilera de cientista louca, pois “ela é tão tecnicamente brilhante, que ela perturba a minha cabeça. Ela grava uma faixa de vocais oito vezes, e ela percebe a diferença em cada um das faixas. Qualquer um que acha que ela não tem talento para a música é porque não trabalhou com ela. Ela é um gênio”.

Aguilera percorreu um longo caminho desde que se apresentou como Xtina, com “Dirrty” e “Stripped”. Mas ela não se arrepende das danças provocativas e das calças cortadas. “Não, eu acho que olhando para esse passado, eu estou ainda mais satisfeita que fiz aquilo tudo”, ela diz. “Porque eu liberei aquilo de dentro de mim. E eu acho que foi muita coragem, colocar aquilo no rosto de várias pessoas de mentes fechadas. Eu tento motivar as mulheres para fazer elas se sentirem à vontade com a própria sensualidade – tudo o que um homem gosta de usar contra elas para as fazer se sentirem fracas”.

Por ser tão forte tão cedo, ela cresceu para ser mais vulnerável – em parte, graças à Jordan Bratman, que claramente a apoia e é presente (ele também cuida de alguns negócios de Aguilera), e agora, graças à Max também. “Especialmente nessa indústria louca, é muito fácil se fechar para os outros e viver com amargura. E isso não é forma de viver”.

Ela percebeu a voz dela mudar também, amadurecer, como ela diz, para tons mais baixos.  Ela agora consegue usar a voz dela para fazer coisas que “antes talvez eu tivesse medo de fazer, permitir que eu entrasse em uma área com menos vozeirão. Me faz mais vulnerável e mais forte ao mesmo tempo”.

Ela me mostra como isso pode ser tão tocante que me pega completamente de surpresa. Enquanto Max está com a babá almoçando, Bratman e Aguilera me levam até o estúdio atrás da casa deles. Tem um quarto com uma cama king-size, um banheiro, e atrás de tudo, uma íntima e moderadamente iluminada cabine da gravação pintada de vermelho. Tem potes de pastilhas para a voz em uma mesa e três tipos diferentes de caixas de som: uma para baladas, uma para hip hop, e uma para o resto.

Aguilera senta em um sofá branco de couro e pega o último mix de “Bionic”. “Você vai ouvir as músicas sem a mixagem final”, ela me alerta enquanto entrega o CD para Bratman. “Aumenta o som um pouco, amor”. Ela toca para mim cinco músicas. Duas, são o que ela chama de “músicas divertidas”: “Glam”, um pop, com influências de hip hop, que lembram “Vougue” de Madonna, que pode ser o primeiro single, e “Bionic”, a viciante faixa-título eletrônica.

Então ela toca três lindas baladas que ela escreveu com Sia. Enquanto elas tocam, ela senta no sofá, chama um de seus cachorros, se conforta com um sweater cinza, e fecha os olhos. “Lullaby”, uma música que ela escreveu para Max, enche a sala – uma voz presente quase sem nenhum acompanhamento. É uma experiência que traz uma estranha sensação de evolução, e quando a música acaba, Aguilera olha para mim e ri docemente. Porque, e com vergonha e prazer eu digo, meus olhos encheram de lágrimas.


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